segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Segurança alimentar - um país que ainda tem fome


Além do efeito da pandemia sobre o trabalho e a renda, especialistas apontam o desmonte da rede de proteção à população

 

Pode parecer estranho que mais da metade da população brasileira não saiba se vai ter o que comer no dia seguinte. E que o país, reconhecido como importante celeiro do mundo, tenha voltado ao Mapa Mundial da Fome, de onde havia orgulhosamente saído em 2014. Com seus efeitos perversos, a pandemia contribuiu para aumentar o grau de incerteza da população de exercer o direito constitucional de se alimentar: elevou ainda mais a taxa de desemprego, pressionou a renda familiar para baixo e a inflação para o alto, afetando especialmente o preço dos alimentos. Não é, porém, segundo especialistas no tema, o fim da pandemia que resolverá o problema da fome no país.


“Houve um desmonte da rede de proteção à população brasileira contra a fome”, afirma Walter Belik, professor do Instituto de Economia da Unicamp e consultor em sistemas alimentares da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO).


Além de reconstituir essas políticas públicas, a solução também passa pela mudança gradual do sistema produtivo brasileiro, “hoje orientado exclusivamente para exportação de commodities” agrícolas, diz José Graziano da Silva, ex-ministro extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome, ex-diretor-geral da FAO e atual diretor do Instituto Fome Zero. Redirecionar subsídios agrícolas das commodities para alimentos saudáveis e fortalecer o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) são algumas das medidas defendidas por Belik e Graziano para aumentar a segurança alimentar dos brasileiros.


De acordo com Nilson Maciel de Paula, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisador da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), a construção de um modelo econômico excludente, que apostou no mercado para resolver questões sociais, está na base da questão. É da Rede Penssan a pesquisa que mostra uma imensa redução da segurança alimentar em todo o país, provocada, segundo ele, pela combinação das crises econômica, política e sanitária.


Realizada nos três últimos meses do ano passado, em 2.180 domicílios, como parte do Projeto VigiSan, o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 mostra que, no período da pesquisa, 55,2% - 116,8 milhões - de brasileiros não tinham acesso pleno e permanente a alimentos. Destes, 43,4 milhões (20,5% da população) não contavam com alimentos em quantidade suficiente (insegurança alimentar moderada ou grave) e 19,1 milhões (9% da população) estavam passando fome (insegurança alimentar grave).


“Os números são mais que o dobro dos observados em 2009”, diz Maciel de Paula. Em 2004, 2009 e 2013, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE revelou importante redução da insegurança alimentar em todo o país em 2013, a parcela da população em situação de fome havia caído para seu nível mais baixo (4,2%). Entre 2013 e 2018, conforme dados da Pnad e da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), a insegurança alimentar grave cresceu 8% ao ano. A POF 2017-2018 mostrou que 36,7% (25,3 milhões) dos domicílios (84,9 milhões de pessoas)apresentavam algum grau de insegurança alimentar e que 4,6% (10,3 milhões de pessoas) sofriam com insegurança alimentar grave.


“A partir daí, a aceleração foi ainda mais intensa”, observa o pesquisador. De 2018 a 2020, como mostra a pesquisa Vigisan, o número de pessoas em situação de insegurança alimentar grave saltou de 10,3 milhões para 19,1 milhões. Dados de outro estudo, feito pela Universidade Livre de Berlim, em colaboração com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade de Brasília (UNB), também no fim de 2020, mostram que a insegurança alimentar atingia 59% dos domicílios brasileiros. Do total de domicílios pesquisados, revela o estudo, 85% enfrentaram redução no consumo de alimentos saudáveis.


Na América latina e no Caribe, conforme Graziano, a situação da insegurança alimentar brasileira é pior que a da Venezuela, país que tem índices parecidos com os do Haiti, tradicional referência de fome na região. “Uma pesquisa do Programa Mundial de Alimentos (PMA) revelou que em 2018/2019 a Venezuela chegou a ter um terço da população em situação de insegurança alimentar. No Brasil, não fossem a ação do setor privado, das organizações e da sociedade civil e a estrutura montada ao longo dos anos 2000, o país estaria numa situação pior que a da Venezuela”, afirma.


Na história recente da segurança alimentar, Graziano destaca três períodos. O primeiro no fim dos anos 1990, quando a fome foi tratada como problema não existente e o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), criado em 1993, foi extinto. A segunda etapa aconteceu no início dos anos 2000 com a implantação do projeto Fome Zero e a recriação do Consea, que passou a ser o principal órgão do sistema alimentar, de articulação política entre as estruturas de governo e as da sociedade civil e do setor privado.


“A terceira fase começou com a deposição da presidente Dilma, quando os programas de combate à fome deixaram de ser políticas públicas e passaram a ser desmontados gradativamente, com cortes de dotações orçamentárias - situação que persiste na gestão atual”, afirma ele. “Como primeiro ato depois da posse, Bolsonaro extinguiu o Consea, desmontando todas as políticas de Estado”, acrescenta.


Criado em 2003, para promover acesso à alimentação saudável e estimulara agricultura familiar, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) foi um dos mais afetados. “Foi minguando até chegar ao limite de se pensar na privatização da entidade que exercia a compra, a Conab”, diz Graziano. “O PAA, que chegou a ter perto de R$ 1 bilhão de recursos, hoje está zerado”, diz Belik. Também o Programa Nacional de Alimentação Escolar, que promove o acesso de 43 milhões de crianças à alimentação saudável, não evolui, conforme o professor. “Os recursos destinados pelo Estado ao programa não têm mais reajuste por criança desde 2016.”


Para os especialistas, a grande causa do avanço da insegurança alimentar da população é falta de renda. “O Bolsa Família ficou com valores congelados e, para o Auxílio Emergencial, o governo não usou o cadastro único - que é rigoroso em medira pobreza das famílias e só transfere renda com condicionantes, como a obrigação de manter crianças na escola. Preferiu um aplicativo da Caixa Econômica Federal, que acabou beneficiando também quem não precisava”, comenta Belik.


O Ministério da Cidadania, que coordena as políticas nacionais de promoção de segurança alimentar e nutricional, informa que em 2020 foram investidos mais de R$ 365 bilhões em políticas socioassistenciais. O Bolsa Família tem atendido mais de 14 milhões de pessoas e, além dos R$ 295,09 bilhões investidos em Auxílio Emergencial no ano passado e dos R$ 26,47 bilhões repassados neste ano, haverá aporte de mais R$ 20,2 bilhões para o pagamento de mais três parcelas. O programa Brasil Fraterno distribuiu neste ano quase dois milhões de cestas para mais de 850 mil famílias. O PAA, segundo o ministério, contou com R$ 247,6 milhões, repassados a mais de 54 mil famílias.


Para Belik, não faltam políticas nem alimentos. O desafio é dar prioridade e aumentar recursos dos programas existentes e transformar a abundância da produção de alimentos em comida no prato. “O Estado precisa ter estoques reguladores para baixar o preço quando necessário e restituir a rede de proteção social à família, bem como criar um colchão monetário para que a pessoa não caia no abismo.” Também é importante que o agronegócio veja com carinho o mercado interno, que é enorme e diversificado, acrescenta. “A alta das commodities favorece o país, mas não combate a fome”, afirma.

Por Marlene Jaggi, Revista Valor Setorial    


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domingo, 1 de agosto de 2021

No ensino remoto, professores trabalham mais e alunos estudam menos, diz pesquisa em SP



“(...) metade dos professores afirmam que trabalharam mais horas durante o ensino remoto, enquanto 80% dos estudantes alegaram que estudaram por menos tempo do que antes da pandemia (...)”

 

Pesquisa do Vox Populi encomendada pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) aponta que metade dos professores afirmam que trabalharam mais horas durante o ensino remoto, enquanto 80% dos estudantes alegaram que estudaram por menos tempo do que antes da pandemia.

Isso se dá porque a preparação, elaboração e correção dos materiais de estudo — além de questões burocráticas como análise de frequência dos alunos — consomem muito mais tempo dos profissionais da educação no sistema remoto.

Além disso, 60% dos professores e 40% dos estudantes afirmam que a educação à distância não tem nada de positivo. Outro problema apontado foi que o modelo era insuficiente, segundo 80% dos docentes e 65% dos alunos, para tirar dúvidas.

Por isso, 74% dos alunos e 67% dos professores acreditam que a educação à distância é pior do que a presencial. No entanto, por medo da Covid-19, só entre estudantes (52%) a maioria dos ouvidos aprova a volta às aulas. Entre pais de alunos o índice é de 46% e entre docentes é de 42%.

Além disso, ainda segundo a pesquisa, 20% dos professores e 45,9% dos pais dos alunos acreditam que as escolas não foram adaptadas para as aulas acontecerem.

O estudo foi feito ouvindo 3.600 pessoas distribuídas entre professores (1.500), pais de alunos (1.500) e alunos (600). Todos são ligados às redes públicas (estadual ou municipal), da educação infantil, ensino fundamental e médio.

Em São Paulo, o governador João Doria anunciou no começo do mês o fim da limitação de 35% da turma presencial, seja pública ou privada. Agora, a regra passa a ser o tamanho das salas: aquelas que comportarem todos os alunos com um metro de distância entre si poderão funcionar sem rodízio. A rede municipal da capital paulista decidiu seguir a mudança, que já está valendo.

Na prática, isso possibilita que escolas com mais espaço voltem até com todos os alunos em sala de aula, sem a necessidade de rodízio — cenário que deve ser exceção na rede pública.

Bruno Alfano, Extra


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