domingo, 5 de setembro de 2021

O lugar de coração partido

 

   
Zequinha mal esperou o apresentador do circo solicitar, ao microfone, duas crianças da plateia para participar de um número com o palhaço Pirlipimpim. Num repente, desgarrou-se dos braços da mãe e correu em direção ao tablado. O garoto de apenas sete anos era uma graça. Desinibido, era a atração nas festas de aniversário. Cantava, dançava, recitava, contava piadas e apresentava pequenos esquetes concebidos por ele, sem auxílio de quem mais experimentado na lida. Os versos e esquetes conseguia elaborar na forma de cordel, estilo que assimilara como que por osmose do pai. O velho José, desde sempre, entoava em seus ouvidos versos populares para embalá-lo no sono. 

   Dia sim e o outro também a molecada acorria à casa do menino prodígio, intimando-o para a pelada que invariavelmente iniciava às 16 para só findar no escuro, ao redor das 19 horas. Isso porque Maria Santa surgia do nada, varinha fina que garimpava no pé de amora determinando o término da brincadeira. Todavia, antes de se apresentar, a mãe permanecia escondida, encantada com os dribles ligeiros do filho, as arrancadas fulminantes, os passes precisos e os gols incrivelmente encantadores que colocavam os arqueiros prostrados no chão de terra batida.

   Como a pobreza do lugar era extrema, ainda no colo Zequinha seguia com os pais para a feira livre onde exploravam banca de frutas de época. Com nove meses já gritava “lalanja feguês por um leal a duza”. Dois anos e conseguia devolver o troco corretamente se o freguês pagasse com nota de um, dois, cinco ou dez reais. Com três anos de idade e já tomava conta da banca de frutas, sozinho, liberando os pais para uma outra barraca que a família montara para comercializar deliciosos pastéis de carne e queijo, estalados na hora.
   O velho José professava a fé espírita, Maria Santa a católica, e jamais se desentenderam com as diferenças religiosas. De modo que incutiram no filho uma fina percepção quanto ao ecumenismo; e que o respeito e a generosidade eram os ingredientes milagrosos capazes de unificar as pessoas. E assim ensinaram os benefícios da compreensão, da indulgência, da tolerância religiosa, condições indispensáveis para alcançar paz no seio dos indivíduos e dos povos.

- Religião, mulher e time de futebol cada um tem o seu e não se discute – pontificava compenetrado o pai.

- Devemos respeitar a escolha de cada um - complementava a mãe.

   A chegada da idade escolar foi encontrar a família apreensiva. Zequinha mais eufórico que alarmado. Ansiava, aluno, envergar o uniforme, possuir o próprio caderno de caligrafia, manusear seus livros de figuras engraçadas, cativar o estojo de lápis coloridos. Como ocorria com os meninos que adorava observar, vestidos de bermuda azul e camiseta branca com finas listras vermelhas dirigindo-se falantes ao educandário municipal.

   Porém, do alto de sua tenra idade observava também inúmeras outras crianças, muitas de seu tamanho e idade, que chamava pelo nome e sobrenome, vizinhos de rua, outrora de peladas, escravizados pelo crack, pelo oxi, pela lata de cola de sapateiro comprimida no nariz; passos, trejeitos e voz fadados à eterna embriaguês. A mãe orientava: “quem não vai pra escola se perde na cola e no solvente de tinta”. E que a vida, nas ruas, transformava os filhos em crianças-zumbis, despojados de vontade e alma, com o coração partido em pedaços. E repetia o mantra incansavelmente para alertar o filho.

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A Coleção Mundo Contemporâneo: os livros infantis para pirralhos, adultos e idosos que preservam uma criança dentro de si.

A Coleção Mundo Contemporâneo contém 10 livros infantis. Cada um dos volumes aborda uma questão estratégica para o avanço da civilização.

O objetivo é oferecer às crianças e à juventude uma panorâmica sobre questões candentes da contemporaneidade, desafios que exigem atitude e posicionamento por parte dos que, amanhã, serão responsáveis por conduzir a humanidade e o planeta em direção à sustentabilidade. 


Veja aqui as obras da Coleção:

1 - O sapinho Krock na luta contra a pandemia

2 - A onça pintada enfrenta as queimadas na Amazônia e no Pantanal 

3 - A ariranha combate a pobreza e a desigualdade

4 - A hárpia confronta o racismo

5 - O boto exige democracia e cidadania

6 - O jacaré debate educação e oportunidades

7 - O puma explica trabalho e renda

8 - A anta luta contra o aquecimento global

9 - O tucano denuncia a corrupção e os narcoterroristas

10 - O bicho preguiça e a migração


Clicando aqui, você acessa a coleção em inglês. 

 

A Coleção

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O autor

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A coleção da bruxinha serelepe: 

 




1.    Planejar       

2.    Organizar    

3.    Estudar        

4.    Exercitar      

5.    Leitura         

6.    Cultura        

7.    Meditar        

8.    Interagir       

9.    Fazer amigos

10. Respeito e motivação

 

A Coleção

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O autor

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Veja os vinte livros da Coleção Ciência e espiritualidade para crianças:


Livro 1 - Panda Zen e a menina azeda

Livro 2 - Panda Zen e o verdadeiro valor

Livro 3 - Panda Zen e as mudanças

Livro 4 - Panda Zen e a Maria vai com as outras

Livro 5 - Panda Zen e a estrelinha cintilante

Livro 6 - Panda Zen e a verdade absoluta

Livro 7 - Panda Zen e o teste das três peneiras

Livro 8 - Panda Zen e os ensinamentos da vovó

Livro 9 - Panda Zen e os cabelos penteados

Livro 10 - Panda Zen e a magia da vida feliz

Livro 11 - Panda Zen e as paixões enganosas

Livro 12 - Panda Zen entre a reflexão e a ação 

Livro 13 - Panda Zen e o mais importante

Livro 14 - Panda Zen, a gota e o oceano

Livro 15 - Panda Zen e a indecisão

Livro 16 - Panda Zen e o vaga-lume

Livro 17 - Panda Zen e a busca da identidade

Livro 18 - Panda Zen entre o arbítrio e a omissão

Livro 19 - Panda Zen e o trabalho

Livro 20 - Panda Zen e a falsa realidade


sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Quando o homem engole a lua



  As bombas sibilavam singrando o espaço, exalando o inconfundível odor de pólvora, legando ao ar um sinistro rastro de fogo. A batalha seguia ininterrupta, rompendo a semana sem prenúncio ou sinal de armistício ou trégua. O cheiro nauseante de sangue coagulado em carne putrefata; os cadáveres desfigurados, esmarridos, condensando os grãos de terra, compunham a grotesca barbárie que conforma os campos de guerra. Em todos os quadrantes, todas as direções, independente do sentido, ali estavam claramente expostas todas as variações possíveis da dor, sofrimento, agonia, e desgraça humana. O terrível cenário de terra arrasada e o horizonte hediondo não sensibilizavam os lados em conflito. Sequer trégua - historicamente acordada em todos os conflitos que a humanidade experimentou - destinada a enterrar os mortos e recolher os feridos era ventilada, tamanha a virulência da batalha.

   O recôncavo onde se improvisou a enfermaria mais parecia um abatedouro de suínos. Gritos de dor, histeria e desespero, ranger de dentes, corpos sem vida empilhados sobre o piso de madeira aguardando enterro coletivo. A simples pá de cal cuidava de substituir as exéquias. Feridos de morte eram esquecidos em macas espalhadas por todas as partes do enorme barracão. Lençóis antes alvos e límpidos se fizeram turvos, emborrachados a sangue. Enfermeiros e auxiliares em movimento caótico esbarrando uns nos outros. Escorrendo nos estreitos corredores formados pelas macas enfileiradas, dois médicos velando de mais de 100 feridos de guerra.

   Exímio no manejo do ferramental médico, o Dr. Gustavo operava sete pacientes ao mesmo tempo. Tentava o impossível. Quando se aproximou do combalido seguinte, o oitavo, não encontrou reação que fosse. Viu um soldado da cavalaria, negro, forte e alto, mais de 100 quilos, as duas pernas dilaceradas com fraturas múltiplas e expostas, certamente esmigalhadas por uma bala de canhão. Como em todos os demais casos, quase nada havia a fazer. Tomou o serrote para iniciar a amputação, aproximou, vergou-se sobre o ferido esperando auscultar um sopro qualquer, um suspiro de vida. A estafa e a deplorável situação das pernas do negro o fizeram desejar que o coitado estivesse já no plano superior, onde as guerras e a dor não vicejavam. De modo que se surpreendeu quando o paciente abriu um dos olhos e depois o outro. E então falou com extrema dificuldade, a voz, a alma e o corpo tomados de ulcerações:

- Doutô... um preto com perna é escravo, mas sem as perna não é coisa arguma. Pelo amô de Deusi... o sinhô credita não é, credita no Todo Poderoso?... entonce não corta minhas perna. Se eu tivé que morrê, que seja... deixa que eu morra em paiz... com as minhas perna... pelo amô de Nossa Senhora Mãe de Jesus Meninu, não me deixe vivo sem as perna que Deusi me deu.

   Mal terminou a súplica e José Jorge desfaleceu. Recobrou os sentidos num relance para novamente surpreender o experiente médico:

- Doutô, meu nome é Zé... José Jorge. Pelo amô de sua mãe não corte as minhas perna. – E desfaleceu repetindo seu nome com a voz quase inaudível: - Eu tenho um nome, doutô... É José Jorge.

   Dr. Gustavo por um instante tornou-se um amontoado de indecisões. E estancou os gestos mecânicos que o movimentavam desde que as batalhas se intensificaram. Deixou-se imóvel com o serrote estendido a meia altura. De alguma forma as palavras do negro calaram fundo em seu âmago. Conseguiu se olhar - jamais entendeu como - e viu um trapo, um farrapo, uma coisa medonha, um restolho de gente, noites e noites sem dormir entremeadas com outras mal dormidas, avental encardido de suor e coberto por camada sobre camada de sangue, rosto respingando um cansaço endêmico, e as mãos feridas pelo manuseio continuado do instrumental cirúrgico. A enfermaria era um estuário do inferno, a vida esvaindo, evaporando celeremente, engrossando os pelotões do exército que marchavam para o paraíso. Olhando para si, Dr. Gustavo se viu uma maca improvisada, um esparadrapo que inexistia, o frasco de éter que há tempos acabara, a anestesia que faltava, medicamentos que jamais chegariam... Quando jovem imaginara para si um futuro diferente: seria um guardião da vida, um predestinado a suprimir a dor das pessoas, cuidando, curando e revitalizando doentes e enfermos. Mas a guerra determinou um outro futuro e fez dele um despachante da morte, um guia subalterno do purgatório, o aprendiz do auxiliar do capelão... a missão não se diferenciava, se reduzindo a aplicar a extrema unção. Enquanto se permitia mergulhar nos sentimentos, Dr. Gustavo atinou para o quanto alguma coisa no olhar e no fugaz colóquio do negro o melindrara. Quisera uma conferência ligeira com o colega João Campos, o outro médico do hospital militar, como ele prisioneiro daquele lugar em que ninguém se encontrava, de fato, liberto. Enquanto todos os prostrados eram soldados condecorados pelo número de mortes; os parcos sobreviventes – auxiliares, enfermeiros e médicos – estavam como zumbis, condecorados pelo número de vidas que permitiam vegetar. Mas como deliberar com o colega João Campos se cada um tratava, simultaneamente, de cinquenta desgraçados moribundos. Caiu em si, encostou o instrumento dilacerante na primeira perna de José Jorge tencionando serrar, mas não teve forças para dar movimento aos braços. De novo imóvel, paralisado, refletindo sobre as palavras do negro. “José Jorge é o seu nome”, relembrou. Respirou recolhendo em suas profundezas o que restava de forças e insinuou dar ao serrote o necessário movimento. Na terceira tentativa, desistiu. Voltou-se para o atendimento simultâneo aos demais sete esquartejados que assistia e gritou à enfermeira:


- Aplique o que restou neste aqui e deixe-o em paz.

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