quarta-feira, 28 de abril de 2021

Malabarismo com a fome alheia

 


Projeto de Michelle Bolsonaro perde fôlego depois que Ministério da Cidadania fica impedido de distribuir cestas básicas com dinheiro destinado a indígenas e quilombolas

 

Em 26 de março, o prefeito de Aparecida, Luiz Carlos de Siqueira (Podemos), anunciou um 'milagre': a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, estava na cidade do interior de São Paulo para a cerimônia de lançamento do Brasil Fraterno, projeto de distribuição de alimentos a pessoas em situação de insegurança alimentar. Na cerimônia, transmitida ao vivo pela tevê oficial, o prefeito, mais conhecido pelo apelido Periquito, saudou o 'coração misericordioso' do ministro da Cidadania, João Roma. Aparecida seria a primeira cidade beneficiada pela distribuição emergencial de alimentos do Brasil Fraterno. Nas semanas seguintes, mais de 2.300 municípios enviaram ao Ministério da Cidadania pedidos que ultrapassavam 8,7 milhões de cestas. Os prefeitos foram estimulados por uma portaria editada pelo ministro João Roma em 22 de março, às vésperas da cerimônia em Aparecida, que ampliava a distribuição de alimentos para localidades em situação de emergência e calamidade pública por causa da pandemia.

Um mês depois da cerimônia em Aparecida, o 'milagre' da distribuição de cestas básicas ficou restrito ao município. Apesar do que o governo alardeou, o único dinheiro público de que o ministério dispunha para as cestas já estava destinado legalmente a indígenas, quilombolas, extrativistas e pescadores, conhecidos como povos e comunidades tradicionais. Eram eles os beneficiários da medida provisória 1.008, editada em outubro de 2020, quando o governo foi cobrado por decisões da Justiça a distribuir cestas básicas a essas populações. A MP destinou um crédito extraordinário de 228 milhões de reais à compra de alimentos para mais de 600 mil famílias desses povos e comunidades tradicionais. Uma fatia de 193 milhões de reais (84% do crédito total) foi transferida à Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que, cinco meses depois, começou a distribuir quatro cestas básicas a um número menor de famílias (424 mil).

O governo queria usar a 'sobra' de 35 milhões de reais da MP para beneficiar outros públicos do Brasil Fraterno. Queria, mas não pôde, por restrições legais: a MP destina o dinheiro especificamente aos povos tradicionais, e a portaria editada pelo ministro João Roma não poderia alterar o destino do dinheiro. 'Créditos que tenham sido editados e não gastos ou gastos parcialmente não podem ser realocados livremente, o Tribunal de Contas da União já decidiu sobre isso', comenta Felipe Salto, diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente, ligada ao Senado.

O Brasil Fraterno, projeto pensado para ser uma das principais marcas do Ministério da Cidadania, contaria com dinheiro de 'créditos extraordinários' e uma outra dotação também destinada originalmente a povos e comunidades tradicionais, de número 2792 - foi ela que pagou as cestas de Aparecida.

O lançamento do programa teve a marca do improviso. Vencedora de um leilão promovido pelo Ministério da Cidadania em fevereiro, a empresa A Popular, de Contagem (MG), foi chamada a entregar às pressas 2.546 cestas básicas em Aparecida. 'Foi um pedido em caráter de urgência, carregamos uma carreta e um caminhão à noite', contou à piauí o dono da empresa, Gilberto Teixeira Bueno, sobre a entrega. Cinco dias depois da cerimônia, o ministério contratou da mesma empresa mais 35 milhões de reais em cestas básicas, com o saldo remanescente da medida provisória 1.008.

Questionado pela piauí, o Ministério Público Federal reiterou que os gastos extraordinários autorizados pela medida provisória 1.008 se destinam exclusivamente à compra e distribuição de alimentos a povos e comunidades tradicionais, 'sob pena de não atendimento das ações judiciais, com o consequente pagamento de multas diárias pela União'. A Sexta Câmara de Coordenação e Revisão do MPF, que trata de temas indígenas e povos tradicionais, acompanha o destino do dinheiro. Os valores pagos até aqui revelam o ritmo lento da chegada das cestas às populações tradicionais.

Pesquisa divulgada no início de abril mostra que 19 milhões de brasileiros passaram a conviver com a fome no final de 2020. Isso representa 9% da população do país. Intitulado 'Inquérito nacional sobre insegurança alimentar no contexto da pandemia da Covid-19 no Brasil', o estudo identificou na área rural o maior número de brasileiros em situação mais grave de insegurança alimentar. Contando também as cidades, a conclusão é de que mais de metade dos domicílios brasileiros (55%) já sofria com a falta de alimentos suficientes, num período em que ainda era pago o auxílio emergencial de 600 a 1.200 reais mensais.

O tamanho da amostra da pesquisa não permitiu detalhar a situação de populações indígenas e quilombolas, mais isoladas, que já registravam vulnerabilidade maior em pesquisas anteriores do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Ana Segall, coordenadora da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (RBPSSAN), responsável pelo levantamento recente, notou a rapidez do retrocesso na segurança alimentar, causado não apenas pela pandemia, mas pelo desmonte de políticas públicas na área social. O Brasil havia deixado, em 2014, o mapa da fome das Nações Unidas.

A fome não é exclusividade de indígenas, mas são eles os mais vulneráveis à pandemia. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) registrou até 26 de abril a morte de 1.048 indígenas em decorrência da Covid-19 entre quase 53 mil contaminados. Artigo publicado neste mês pela revista científica Frontiers in Psychiatry identificou entre indígenas uma incidência 136% maior da doença e uma taxa de mortalidade 110% maior em relação à média nacional. O artigo chama a atenção para a subnotificação de casos pelo Ministério da Saúde.

'Voltamos uns quinze anos no tempo', calcula Cassimiro Tapeba, coordenador da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), que reúne cerca de setenta povos indígenas. 'Tem gente passando fome mesmo', disse. As cestas distribuídas recentemente pelo governo ao povo Pankararu, em Pernambuco, não foram suficientes para todas as famílias que precisavam, conta Alexandre Pankararu, que também integra a Apoinme.

A Conab fará no final deste mês o primeiro balanço da distribuição de cestas básicas a povos e comunidades tradicionais, cujos gastos foram autorizados em outubro passado pela MP. O Tesouro Nacional registra o pagamento, até o momento, do equivalente a apenas 0,2% do valor total de 193 milhões repassado à empresa. Sem calendário previamente definido, a Conab informou que entregará cestas de alimentos a 424.167 famílias indígenas, quilombolas, extrativistas e de pescadores.

O número de famílias de povos e comunidades tradicionais que receberão cestas da Conab é 31% menor que o total estimado em exposição de motivos assinada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, de 612.234 famílias. O documento acompanhou o pedido de autorização extra de gastos de 228 milhões de reais em outubro. Os gastos são pagos com a emissão de títulos da dívida pública.

Um mês depois de seu lançamento, o Brasil Fraterno perdeu fôlego. Sem verba para atender aos pedidos de prefeituras por cestas básicas, o ministério usou a marca do Brasil Fraterno para distribuir as que fora obrigado a comprar antes mesmo do lançamento do projeto. Foi o que aconteceu na sexta-feira, 23, quando o ministro João Roma participou de uma entrega simbólica de alimentos em Manaus, ao lado do presidente Jair Bolsonaro. 'Esses mantimentos essenciais se somam a uma série de iniciativas que mostram que o governo federal não foi omisso durante o período de pandemia', discursou.

Vencedora do leilão de 150 milhões de reais para a compra de cestas básicas pelo Ministério da Cidadania, a empresa A Popular só fechou contratos para a entrega de Aparecida e a compra de 35 milhões de reais de cestas básicas destinadas a povos e comunidades tradicionais. Desse montante, a empresa enviou para cinco cidades do Amazonas e para Belém, no Pará, mais 35 mil cestas básicas, que se somaram às cestas compradas pela Conab nos eventos da sexta-feira, 23, a primeira a usar a marca do Brasil Fraterno depois de Aparecida.

Novos contratos com base nesse leilão contavam com emendas parlamentares de 80 milhões de reais para a ação também destinada a povos tradicionais. Mas o veto de Bolsonaro secou essa fonte.

'Eu tenho fé de que, dessa forma, conseguiremos combater os efeitos da pandemia', discursou Michelle Bolsonaro durante a cerimônia de lançamento do Brasil Fraterno, referindo-se à rede de solidariedade que pretendia mobilizar para a distribuição de alimentos, financiada em parte com dinheiro público. Na internet, a página do programa Pátria Voluntária, comandado por Michelle, não mostra interessados em aderir às campanhas pontuais de doação de cestas básicas realizadas pelo projeto durante a pandemia. O Ministério da Cidadania conta com doações de entidades do Sistema S e empresariais para levar adiante a iniciativa.

O ministério foi procurado desde o início de abril para tratar da compra de cestas básicas. Inicialmente explicou que o ministro editara uma portaria para ampliar o público alvo da distribuição de alimentos, e que Aparecida seria o primeiro município a se beneficiar. Na ocasião mencionou o 'saldo remanescente' da medida provisória 1.008 - que depois afirmou que só poderia ser usado na compra de cestas básicas para povos tradicionais. Na última sexta-feira, informou que o Brasil Fraterno passou a denominar toda e qualquer distribuição de alimentos, inclusive a indígenas e quilombolas.

Por Marta Salomon, na Revista Piauí    


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terça-feira, 27 de abril de 2021

Filhotes gêmeos de anta são descobertos pela 1ª vez na natureza



Descoberta foi feita em reserva de São Miguel Arcanjo (SP)

 

Dois filhotes gêmeos de anta (Tapirus terrestris) foram registrados pela primeira na história em seu habitat natural. A descoberta da espécie, ameaçada de extinção, aconteceu na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Trápaga, em São Miguel Arcanjo (SP).

Inicialmente, os animais foram vistos por um grupo de cinco pesquisadores do Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar, em dezembro do ano passado, por meio de um vídeo que registrou as antas gêmeas por um equipamento fotográfico instalado na reserva. A confirmação só foi possível em janeiro deste ano, depois de outros registros em imagem e observação direta, ou seja, vendo os animais presencialmente.

“[A confirmação dos animais gêmeos foi possível] primeiro pela idade: os três indivíduos são nitidamente uma fêmea adulta e dois jovens. Ao longo do monitoramento, pudemos observar que os jovens passavam boa parte do tempo com a fêmea adulta. Segundo: pelo tempo de gestação da anta (13 meses) e tamanho igual dos dois jovens, é impossível que sejam filhos de gerações diferentes”, explicou a coordenadora executiva do Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar, Mariana Landis.

A pesquisadora explicou ainda que, quando nascem, os filhotes dependem da mãe por um longo período até começarem a se distanciar dela, o que ocorre a partir dos 15 meses de idade. Esses animais ainda permanecem nas imediações até começar a explorar locais mais distantes e estabelecer seu próprio território.

“Nós identificamos essa unidade familiar nesse período em que eles ainda estavam muito próximos da mãe, saindo algumas vezes para explorar o território. Esse tipo de diagnóstico é possível com base no amplo conhecimento que as pesquisas ecológicas e comportamentais trazem”, acrescentou Mariana.

Para assegurar que se tratava de animais gêmeos, os pesquisadores utilizaram marcas naturais para identificar cada indivíduo. Um dos filhotes, por exemplo, tem um pequeno corte na orelha, o outro tem uma protuberância no nariz. Outras características ajudam nessa identificação: formato e tamanho de cauda, cor do pelo, formato corporal, tamanho e formato da genitália, tamanho de cabeça, presença de pintas brancas nas pernas e barriga, cicatrizes.

De acordo com o Instituto Manacá, os filhotes já têm cerca de um ano e meio. A surpresa para os especialistas é que, evolutivamente, a anta tem o corpo preparado para gerar apenas um filhote. Embora as antas da espécie Tapirus terrestris sejam os maiores mamíferos terrestres da fauna silvestre da América Latina, as fêmeas só geram um filhote por gestação, que nasce com cerca de seis quilos, após 13 meses.

Segundo os pesquisadores, na Mata Atlântica, bioma onde ocorreu o registro, é um grande desafio um filhote de anta resistir diante do ciclo da própria natureza. Entre os fatores estão a ameaça humana, o desmatamento, os atropelamentos, as perseguições de cães domésticos e as atividades de caça.

Apesar da descoberta de antas gêmeas em habitat natural, o registro não é inédito em cativeiro no Brasil. Nesses locais, os animais têm o suporte de profissionais para garantir o sucesso do nascimento e desenvolvimento dos filhotes.

Sensibilização

A descoberta é fruto do trabalho de monitoramento realizado na reserva, que promove a observação de antas na natureza, gerando a sensibilização com a espécie. Essa é uma das frentes de atuação do Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar, que tem o apoio da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, WWF-Brasil e banco ABN AMRO.

O programa é um dos maiores monitoramentos de mamíferos de grande porte no bioma Mata Atlântica e o primeiro em larga escala realizado nessa região, com o principal objetivo de gerar dados para subsidiar planos de conservação da anta (Tapirus terrestris), do queixada (Tayassu pecari) e da onça-pintada (Panthera onca). O monitoramento é feito em larga escala. São 17 mil km² de atuação nos estados de São Paulo e do Paraná – uma área equivalente a 11 cidades paulistas.

Na Agência Brasil


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