sábado, 4 de novembro de 2017

Entenda como a corrupção arruinou o estado do Rio de Janeiro


Após a polêmica levantada pelo ministro da Justiça, Torquato Jardim, sobre possíveis relações da polícia carioca com o crime organizado, Michel Temer e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, colocaram panos quentes na situação

O Rio de Janeiro está em decomposição. E as ruínas desse esfacelamento chegam a Brasília. O estado fluminense é simbólico na crise que vive o país. Dos conflitos éticos aos econômicos, da insegurança à calamidade na saúde. Das cifras astronômicas gastas com as Olimpíadas de 2016 à falta de merenda nas escolas. Os problemas do Rio vão muito além das críticas do ministro da Justiça, Torquato Jardim, à polícia carioca. Eles sintetizam a deterioração de um país mergulhado em escândalos de corrupção. De uma rica nação, que tenta se reerguer após a mais longa recessão. Para superar os obstáculos e evitar maiores desgastes entre as esferas do poder, será necessário um esforço conjunto entre os governos federal e estadual. E o primeiro passo começou ontem, com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), admitindo que o auxiliar do presidente da República, Michel Temer, tenha dito verdades por linhas tortas.
Durante viagem oficial à Itália, Maia, em tom mais ponderado, avaliou que as declarações de Torquato são pertinentes, mas questionou a maneira usada pelo colega. “Acho que ele falou muita verdade ali, só que não sei se foi da forma adequada. Eu acho que, talvez, aquela entrevista valesse depois de uma ação da polícia, com meses de investigação, pegando aqueles que estão boicotando as ações de segurança no Rio”, disse o presidente da Câmara ao jornal Folha de S.Paulo. Na quarta-feira, Maia classificou as palavras do ministro como “infantis” e “irresponsáveis”.
O recuo do democrata, pré-candidato à reeleição, foi vista, nos bastidores, como uma reconexão com a maioria da sociedade carioca, que concorda com a afirmação de Torquato. À imprensa, o ministro afirmou que há uma associação de policiais do Rio em cargos de comando com o crime organizado. Agora, não somente Maia, como também Temer procuram colocar panos quentes sobre a polêmica. Pessoas próximas do peemedebista garantem que ele pediu ao auxiliar que evite dar novas declarações sobre o assunto. O Palácio do Planalto quer evitar atritos com o presidente da Câmara, pensando nas agendas econômicas que devem entrar em breve em votação.
Rodrigo Maia, por sua vez, tenta evitar desgaste com Temer. A fatura pela permanência do peemedebista na Presidência ainda está sendo paga, como a Medida Provisória que prevê a permissão para que o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) tenha acesso aos fundos regionais de desenvolvimento. O chefe do Executivo Federal também assinou um contrato de R$ 652 milhões para obras no Rio. Os esforços entre Câmara e Planalto, no entanto, estão concentrados na reforma da Previdência. Maia não esconde o desejo de aprovar o texto, que dependerá de uma ampla articulação entre os dois Poderes.
A agenda das reformas, no entanto, é apenas o começo para um longo processo de recuperação da crise moral, ética e econômica do Rio. Afinal, a Cidade Maravilhosa precisa enfrentar notórios percalços, como a crise entre os representantes políticos e a escalada da violência pública. Nada menos do que dois ex-governadores cariocas, Anthony Garotinho e Sérgio Cabral Filho, estão presos. O atual, Luiz Fernando Pezão, é acusado de receber via caixa dois dinheiro de propina nas eleições de 2014. Cinco conselheiros do Tribunal de Contas do Rio, que deveriam zelar pela aprovação das contas, são investigados por corrupção.
São exemplos de nomes fortes que surgiram na política da capital fluminense, ganharam projeção nacional e, hoje, não representam nada além de um estado em frangalhos. Doutor em filosofia e professor de Ética Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Roberto Romano avalia que a decadência do Rio de Janeiro não é nova, tendo surgido com a migração da capital do Brasil do Rio para Brasília. “Essa mudança criou um vácuo de poder e de capacidade, inclusive, de manusear recursos. Assim, os cariocas, acostumados a ter dinheiro e poder, perderam os dois. Essa lacuna precisou ser preenchida”, avaliou, justificando a origem das relações entre bandidos e autoridades locais.
A simbiose entre autoridades públicas e os grandes nomes do jogo do bicho, do tráfico é algo antigo, ressalta Romano. “Sempre foi comum ver os donos de negócios escusos nos palanques tentando eleger candidatos. Aí entra a velha tradição brasileira de trocar favor. Como eu, você e todos os brasileiros vimos ultimamente, essa tradição continua funcionando com força total”, acrescentou.
No meio do embate sobre a eficácia da polícia carioca, um triste incidente aconteceu ontem: o menino de 3 anos que foi atingido, na última quarta-feira, por uma bala perdida enquanto brincava no sofá de casa teve a morte cerebral declarada. Um dia antes, o policial Rafael Santa Ana Corrêa foi assassinato em uma drogaria. O cabo foi o 114º integrante da Polícia do Rio de Janeiro morto em 2017.
Silêncio
O poder carioca resolveu contra-atacar e processará o ministro da Justiça, Torquato Jardim. Do governador do Rio, Luiz Fernando Pezão aos comandantes da Polícia Militar, todos questionam as declarações dadas por Torquato de que a cúpula da PM está controlada pelo crime organizado. Questionado, o presidente Michel Temer preferiu não se envolver na polêmica para não dar mais espaço à crise.
O silêncio que permeia o Planalto também chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF), que deve julgar a interpelação proposta por Pezão. Para o ministro Marco Aurélio Mello, é necessário aguardar os desdobramentos antes de qualquer declaração. “Não posso comentar esse caso porque um de nós (ministros) pode acabar sendo relator”, disse. O Correio também entrou em contato com Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso, que preferiram não se manifestar sobre o assunto.
O senador Lindbergh Farias (PT-RJ), no entanto, rompeu a falta de expressividade dos poderosos e disse que “todo mundo que mora no Rio de Janeiro sabe que as palavras do ministro são verdade”. Outros integrantes do parlamento que concordam com Torquato dizem que, embora ele esteja certo, foi imprudente e exagerado.
Estado em deterioração
Entre as unidades da federação, o Rio de Janeiro é, talvez, a que mais personifica a escancarada crise ética, moral e econômica que assola o país. Entenda os principais atores e fatos que o levaram à atual situação:
Corrupção
Desvio de recursos públicos, recebimento de propina, lavagem de dinheiro e participação em organização criminosa são alguns dos delitos pelos quais representantes públicos do Rio foram condenados ou acusados.
» Anthony Garotinho: o ex-governador foi condenado a 9 anos e 11 meses de prisão por corrupção eleitoral, associação criminosa, supressão de documento público e coação. A avaliação da Justiça é de que ele comprou votos para a mulher, Rosinha Garotinha, ser reeleita à prefeitura fluminense, em 2016. Ele chegou a ser detido, mas, por decisão do STJ, aguarda julgamento de recurso em liberdade.
» Sérgio Cabral Filho: o ex-governador foi condenado a 45 anos e 2 meses de prisão, considerado como o “grande líder da organização criminosa” que possibilitou o desvio de milhões dos cofres públicos do estado. Cabral está preso desde novembro do ano passado no complexo penitenciário de Gericinó, em Bangu. Ex-diretores da construtora Odebrecht apontam pagamentos de R$ 94 milhões a ele, que também é suspeito de ter recebido propina durante as Olimpíadas e de ter comprado votos para escolher o Rio como a sede do evento. Uma família ligada a ele foi presa por desvio de recursos da merenda escolar.
» Eduardo Cunha: o ex-presidente da Câmara dos Deputados e um dos mais influentes políticos 
do Rio de Janeiro foi condenado a 15 anos e 4 meses de prisão por corrupção passiva devido a solicitação e recebimento de vantagem indevida no contrato de exploração de petróleo em Benin, na África. Cunha está detido em Curitiba desde outubro do ano passado.
» Luiz Fernando Pezão: o atual governador do Rio é acusado de recebimento de propina da Odebrecht nas eleições de 2014. Ex-presidente da construtora Odebrecht afirma que teria pagado, via caixa 2, R$ 20,3 milhões na campanha eleitoral.
» Jorge Picciani e conselheiros do TCE: cinco conselheiros do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro foram presos por suspeita de recebimento de propina de 1% sobre valores de contratos de empreiteiras. As investigações apontam que eles recebiam dinheiro para fazer vista grossa e aprovar obras, como a do Maracanã e a da linha 4 do metrô. O presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Jorge Picciani, foi alvo de condução coercitiva para prestar depoimento após ter o nome citado em acordo de delação por um ex-conselheiro.
Economia
A crise que estourou em 2015 só escancarou o desequilíbrio das contas públicas do Rio. Antes disso, o governo já vinha elevando muito os gastos públicos, inclusive com servidores, ancorado na valorização do barril de petróleo no mercado externo. Uma lei de 2003 previa o pagamento de aposentadorias com uso dos royalties, mas o arrefecimento da atividade econômica e a queda do preço do barril provocaram queda nas receitas, enquanto os gastos se mantiveram em crescimento, principalmente o da Previdência.
Segurança pública, saúde, educação
O orçamento comprometido pela crise econômica provocou um efeito cascata altamente danoso e negativo sobre os serviços públicos. Policiais passaram a ter menos incentivos, o sistema de saúde entrou em colapso, com deficit de médicos, insumos, medicamentos e atrasos em atendimentos. A educação seguiu o mesmo caminho: organizações não governamentais acusam a secretaria estadual de fechar turmas.
Por Rodolfo Costa Bernardo Bittar, no Correio Braziliense


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A arte de escrever bem


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sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Retrato do meu assassino

Leon Trotsky no escritório de sua casa no México. AFP

Biografia de Stalin em grande parte inédita era escrita por Trotsky quando foi assassinado a mando do biografado
Stalin se divertia em sua casa de campo degolando ovelhas ou jogando querosene nos formigueiros e ateando fogo. Kamenev me disse que, em suas visitas de lazer aos sábados a Zubalovka, Stalin caminhava pelo bosque e continuamente se divertia atirando nos animais selvagens e assustando a população local. Tais histórias sobre ele, procedentes de observadores independentes, são numerosas. E, no entanto, não faltam pessoas com esse tipo de tendências sádicas no mundo. Foram necessárias condições históricas especiais antes de que esses instintos obscuros encontrassem uma expressão tão monstruosa”.
Essas palavras fazem parte de uma biografia singular. Pela relevância de seus protagonistas, duas das figuras proeminentes da RevoluçãoRussa, divididas por uma das rivalidades mais marcantes do século XX. E porque o perfil ficou incompleto depois que o retratado ordenou a morte de seu biógrafo. Stalin, a obra que LeonTrotsky escrevia quando foi assassinado por Ramón Mercader, no México, em agosto de 1940, permaneceu adormecida durante mais de sete décadas. E depois de muitas peripécias, mutilações e acréscimos, volta a ver a luz em um volume de quase mil páginas, em grande parte inédito, coincidindo com o centenário da chegada dos bolcheviques ao poder.
A história desse livro merecia a publicação de outro que a contasse. Trotsky, exilado no México após ter o asilo rejeitado em vários países, sabia que estava condenado pelo líder da União Soviética, Josef Stalin. Mas não tinha interesse particular em escrever sobre a vida de seu antigo camarada. “Não foi uma vingança. Escrever essa biografia não estava nos planos do meu avô. Estava concentrado em acabar outra, sobre Lenin”, afirma Esteban Volkov, neto do revolucionário, em conversa por telefone da Cidadedo México, onde mora. “Mas precisava de dinheiro e a editora Harper & Brothers, de Nova York, fez uma oferta generosa”.
Volkov, prestes a completar 92 anos, tem sido durante décadas o guardião da memória de seu avô. Também é o diretor da Casa Museu Leon Trotsky, entre cujos muros o revolucionário foi assassinado em agosto de 1940 por um golpe de uma picareta de alpinismo do agente stalinista Ramón Mercader. O mesmo cenário onde será apresentada a versão em espanhol do livro, publicada pela editora mexicana Fontamara, no dia 11, coincidindo com o aniversário de uma Revolução de Outubro que, por diferenças entre os calendários gregoriano e juliano, ocorreu em novembro para o resto do mundo. A obra foi publicada há um ano em inglês por uma editora marxista de Londres e depois foi traduzido ao italiano e ao português, mas a notícia não teve repercussão na grande mídia.
A Harper & Brothers publicou uma versão incompleta do livro em inglês em 1946. Antes não era possível, porque os EUA e a União Soviética eram aliados contra a Alemanha. Mas a viúva de Trotsky, Natalia Sedova, pleiteou nos tribunais, sem êxito, para que fosse retirada. Suas objeções se dirigiam, principalmente, contra o editor e tradutor da obra. “Fez uma edição deficiente do livro, com mutilações e vários acréscimos da sua cabeça muito distantes do pensamento político do meu avô”, afirma Volkov. O próprio Trotsky nunca teve muita confiança em seu tradutor, e havia se indignado quando soube que ele tinha entregue alguns originais a terceiros. “Parece ter ao menos três qualidades: não sabe russo, não sabe inglês e é tremendamente pretensioso”, escreveu em uma carta ao jornalista norte-americano Joseph Hansen.
Mas uma parte da obra nunca chegou às mãos da editora. Quando soube estar condenado, Trotsky enviou à Universidade de Harvard, nos EUA, muitos de seus documentos para serem guardados. “Os arquivos saem esta manhã de trem”, escreveu o revolucionário em 17 de julho de 1940, um mês e três dias antes de seu assassinato. E lá se acumularam 20.000 documentos que ocupavam 172 caixas de artigos, fotografias, e papeis manuscritos, datilografados, traduzidos e sem traduzir, com grande quantidade de correções que demonstravam como seu trabalho era extraordinariamente meticuloso.
Capítulos inteiros do livro sobre Stalin permaneceram assim adormecidos até que em 2003 o historiador galês Alan Woods começou a pesquisar a montanha de documentos para resgatar a versão mais ampla e íntegra possível do livro. E depois de mais de 10 anos de trabalho o resultado foi uma obra um terço mais longa do que o livro publicado nos anos 1940, sem os acréscimos do primeiro tradutor e, agora sim, com a bênção da família de Trotsky.
Woods concorda com Volkov que Trotsky não queria escrever esse livro. “Mas uma vez que se dedicou a isso, o fez conscienciosamente, com muita documentação e detalhes, inclusive do período mais desconhecido da vida de Stalin, sua infância. Para qualquer leitor é um estudo psicológico fascinante”, diz de Londres, onde mora. O historiador é um membro ativo da Corrente Marxista Internacional. Participou da luta contra o Franquismo na Espanha e foi um firme defensor da revolução bolivariana e amigo pessoal de Hugo Chávez, ainda que nos últimos tempos tenha se distanciado da deriva do Governo venezuelano.
Os dirigentes do Partido Bolchevique eram, em geral, gente muito capacitada, e entre eles brilhava Trotsky, que dominava cinco idiomas e escrevia vários livros ao mesmo tempo. Stalin aparece, por outro lado, retratado por seu grande rival político como um homem de horizontes limitados. Esse perfil medíocre coincide com o feito por outros observadores, como o jornalista norte-americano John Reed, que em sua crônica Dez Dias que Abalaram o Mundo menciona o Homem de Aço, apelido de Stalin, apenas duas vezes, e Trotsky nada menos do que 67.
Mas, pelo que se conta no livro que agora será lançado, as qualidades de Stalin eram outras: a astúcia e a arte da manipulação. “A técnica de Stalin consistia em avançar gradualmente passo a passo até a posição de ditador, enquanto representava o papel de um defensor modesto do Comitê Central e da direção coletiva. Utilizou a fundo o período de enfermidade de Lenin para colocar indivíduos que eram devotos a ele. Aproveitou-se de cada situação, de cada circunstância política, de qualquer combinação de pessoas para promover seu próprio avanço que lhe ajudasse em sua luta pelo poder e para alcançar seu desejo de dominar os outros. Se não podia elevar-se a sua altura intelectual, podia provocar um conflito entre dois competidores mais fortes. Elevou a arte de manipular os antagonismos pessoais ou de grupo a novos níveis. Nesse campo desenvolveu um instinto quase infalível”.
No entanto, Woods não atribui a chegada ao poder de Stalin a seu caráter. “Era um menino maltratado por seu pai, rancoroso e com tendências sádicas. Mas nem todos que são maltratados se tornam monstros. Como nem todos os artistas fracassados se tornam Hitler”. E propõe um argumento marxista para explicar sua ascensão. “Em todas as revoluções há um período que se precisa de heróis, gigantes. Quando se chega a um período de declive, precisam de medíocres. A degeneração burocrática teria ocorrido com ou sem Stalin, porque a Rússia era um país isolado e atrasado. Mas nesse caso a burocracia se encarnou em um personagem sanguinário”.
O livro pode ter acelerado o assassinato? Stalin era muito bem informado sobre o que seu rival fazia. A cada manhã tinha os últimos artigos de Trotsky sobre sua mesa. E Volkov relembra como Robert Sheldon Harte, guarda-costas de seu avô a quem se atribui a traição que facilitou um primeiro atentado contra ele em maio de 1940, lhe perguntava sempre sobre o andamento da obra. “Como qualquer criminoso tinha que eliminar as testemunhas”, diz Woods.
El País


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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

'Não seremos silenciadas': A carta assinada por mais de 7 mil mulheres que escancara o assédio sexual nas artes

'Não seremos silenciadas': A carta assinada por mais de 7 mil mulheres que escancara o assédio sexual nas artes

"Nós não estamos surpresas. Nós somos artistas, administradoras, assistentes, curadoras, diretoras, editoras, educadoras, estudantes, escritoras e mais -- que trabalham no mundo das artes -- e nós somos assediadas, infantilizadas, depreciadas, ameaçadas e intimidadas por aqueles em posição de poder."
Assim começa uma carta aberta assinada por cerca de 7 mil mulheres de todo o lugar do mundo. O documento é um manifesto que escancara o assédio sexual e abuso de poder que recorrentemente acontecem no meio artístico, na esteira de uma série de acusações de abusos sexuais contra diretores, produtores e atores.
O produtor Harvey Weinstein recebeu mais de 50 denúncias de mulheres, que relatam assédios e abusos cometidos em décadas. Terry Richardson, o fotógrafo de renomadas revistas americanas, também sofreu boicotes após ser acusado por uma série deassédios sexuais.
"Nós não estamos surpresas quando curadores oferecem exibições ou aporte financeiro em troca de favores sexuais. Nós não estamos surpresas quando galeristas romantizam, minimizam ou escondem comportamentos abusivos dos artistas que os representam. Nós não estamos surpresas quando uma reunião com um colecionador ou um potencial patrão se torna uma proposta sexual. Abuso de poder não é uma surpresa", continuou a carta, que conta com nomes renomadas de todo o mundo, como a fotógrafa e diretora Cindy Sherman, a artista contemporânea e ganhadora do Prêmio Turner, Helen Marten, a compositora e cantora Laurie Anderson e a artista contemporânea Jenny Holzer.
A carta também é assinada por mais de 30 brasileiras, como a produtora de exibições do Instituto Moreira Salles, Marina Marchesan, a professora e curadora do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, Ana Magalhães, e a curadora da Pinacoteca de São Paulo, Fernanda Pitta.
Nós somos silenciadas, hostilizadas, demitidas por "exagerar" reações e ameaçadas quando tentamos expor um comportamento sexual e emocionalmente abusivo. Não seremos mais silenciadas.
A iniciativa começou com uma discussão entre mulheres em um grupo de WhatsApp. Ao The Guardian, Sarah McCrory, diretora do Centro de Arte Contemporânea em Goldsmiths, na Universidade de Londres, disse que a carta nasceu depois que mulheres do setor começaram a conversar sobre assédio sexual em no WhatsApp.
"Foram três dias muito intensos, mas também um exercício muito encorajador. Começou de discussões em uma rede social entre colegas de profissão sobre como reagir ao caso de Artforum", disse Sarah, se referindo a Knight Landesman, diretor da revista de arte ArtForum, uma das mais influentes no mundo da arte.
O diretor é acusado de assédio sexual em uma ação apresentada em Nova York por uma ex-funcionária da revista, Amanda Schmitt. Segundo ela, o diretor teria abusado de mais oito pessoas.
Além de jogar luz sobre o tema, o movimento contra o abuso sexual no meio artístico quer expor casos e incentivar outras mulheres a denunciar esses abusos.
Essa carta é o primeiro passo. Nós vamos continuar expondo e agindo contra esses problemas como parte de um grande processo, construindo os próximos passos conforme o recebimento de feedbacks.

HuffPost News


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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Exposição mostra parceria entre Ziraldo e Drummond e marca aniversário do poeta


Entre 1979 e 1981, o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) publicou, na coluna que mantinha no Caderno B do Jornal do Brasil, frases relâmpago cheias de humor que retratavam, de forma crítica, o país na época, e às quais deu o nome de “pipocas”. Admirador e amigo do poeta, o escritor e caricaturista Ziraldo percebeu que as sátiras eram charges em potencial, faltando apenas associar desenhos às palavras.
Os dois autores concordaram em juntar texto e traço, e dessa união resultou o livro O pipoqueiro da esquina, publicado em 1981 pela editora Codecri. Trinta e seis anos depois, a parceria entre o poeta e o chargista, ambos mineiros, é lembrada pelo Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro (IMS Rio), que inaugura nesta terça-feira (31), dia do aniversário de Drummond, uma exposição com 30 dos desenhos originais guardados por Ziraldo em seu ateliê.
A mostra O pipoqueiro da esquina apresenta também bilhetes, cartas, poemas e outras peças que contam um pouco da amizade entre os dois mineiros. A curadoria é de Eucanaã Ferraz, consultor de literatura do IMS, e o projeto expositivo da cenógrafa e cineasta Daniela Thomas, filha de Ziraldo.
Para Eucanaã Ferraz, o senso de humor é uma das marcas que definem a escrita de Carlos Drummond de Andrade, desde sua estreia em livro, com Alguma poesia (1930). Do mesmo modo, a atenção voltada para o fato cotidiano, como atestam versos do poema Mãos dadas: “O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente”.
“Esse desejo radical de compreensão do seu tempo e dos seus contemporâneos faz ver o espírito de cronista que ganhou corpo numa ininterrupta colaboração com a imprensa”, diz o curador. Ele lembra que Ziraldo, por sua vez, sempre foi um apaixonado pela literatura, como comprova sua brilhante carreira de escritor.
“A parceria dos dois oferece-nos, sobretudo, retratos de um certo Brasil - alguns, sob muitos aspectos, infelizmente, atual, mas é também um elogio à amizade, ao diálogo e à liberdade”, resume Eucanaã Ferraz.
Antes da abertura da exposição, às 19h, para convidados, haverá, das 16h às 18h, a atividade Arquiteturas de si, em torno dos poemas de Drummond e a casa do IMS Rio. A partir da leitura de poemas e de uma visita à casa, os participantes poderão criar uma arquitetura de si mesmos, relacionando conteúdos subjetivos e concretos. A atividade é gratuita e para pessoas a partir de 14 anos.
A exposição O pipoqueiro da esquina fica em cartaz até 18 de fevereiro de 2018 e pode ser visitada de terça-feira a domingo, das 11h às 20h. O Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro fica na Rua Marquês de São Vicente, 476, na Gávea, zona sul da cidade.
Da Agência Brasil


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