segunda-feira, 25 de agosto de 2014

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O ventríloquo e o teatro de bonecos Mané Beiçudo


Quem transita nas médias e grandes cidades não mais se surpreende quando, numa praça ou logradouro público, se depara com um aglomerado de gente.

Não é raro encontrar um amontoado de pessoas, atentas ao que se passa no centro da roda. Das duas, uma: ou é um encantador de serpentes, assustando todos com sua caixa escura repleta de cobras peçonhentas; ou é um animado senhor que, de forma encantadora, conversa, discute e briga com um boneco histriônico que carrega no colo, sentado sobre a perna.

No circo e nas praças dos núcleos urbanos, com relativa facilidade nos deparamos com essas aglomerações humanas, um amontoado de curiosos tendo no centro um ventríloquo.


Com a utilização desta tecnologia, o ator apresenta-se, geralmente, sentado em um banco ou cadeira, mantendo sobre seu colo um boneco, com quem brinca e conversa, provocando-o de forma acintosa e contundente e recebendo do boneco apimentadas réplicas e tréplicas. À medida que fala, dando mínimos movimentos aos seus lábios, o manipulador mexe a boca do boneco, com o que lhe empresta voz e vida. Para executar este movimento de abrir/fechar a boca do boneco, um mecanismo interno é acionado pelo ator.

O teatro de bonecos Mané Beiçudo raramente utiliza-se desta tecnologia. Dado a plasticidade e as características intrínsecas da tecnologia, prioriza os bonecos de luva, notadamente os confeccionados com sucata, com o que empresta um sentido educativo até mesmo à rotina de fabricação dos títeres.

Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia dePlanejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção do Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo.acs@ueg.br

domingo, 17 de agosto de 2014

A linha de produção do Teatro de Bonecos Mané Beiçudo

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Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos – e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro? (...)

Leia o poema Uma oração para canalhas clicando aqui.
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Em seu processo produtivo o Teatro Mané Beiçudo não se limita ao instante da apresentação teatral. Não se contenta com a efemeridade deste lapso temporal.

Num espetáculo convencional as pessoas chegam ao teatro – ou ao local demarcado – acomodam-se, assistem a apresentação cênica, aprovam aplaudindo, se mantêm indiferentes ou reprovam, vaiando, e depois se retiram para o conforto de seus lares. E acabou. Quando muito, nos dias seguintes, um ou outro comentário no local de trabalho ou de estudo. E pronto, acabou.

Já utilizando a metodologia do Mané Beiçudo, o instante da apresentação demanda pelo menos duas semanas. No mínimo minimórum.

Considerando esta possibilidade mínima: nos sete dias anteriores à apresentação propriamente dita, os atores mergulham na comunidade, interagem com o público-alvo, com os

• moradores, se o espaço-objeto for um bairro;
• estudantes, se o espaço-objeto for uma escola;
• trabalhadores, quando o espaço-objeto é uma organização governamental ou não.

Neste primeiro momento, denominado Fábrica Ex-Ante, os atores e produtores colhem subsídios, realizam pesquisas, aplicam questionários, recolhem, tabulam e tratam os dados transformando-os em informações, resgatam os valores e tradições culturais locais, estruturam a coluna dorsal do texto a ser apresentado, identificam dentre as pessoas da comunidade os potenciais atores, promovem uma oficina compacta onde repassam a metodologia do Teatro de Bonecos Mané Beiçudo – para que o processo possa ter continuidade local – e ensaiam o espetáculo.

No segundo momento, denominado Fábrica Ex-Cursus, a apresentação do espetáculo é realizada no local definido, um teatro, uma sala de aula, um refeitório de uma unidade fabril, o hall de uma repartição pública, um logradouro público... Logo após a realização do espetáculo, ocorrem debates, oportunidade em que os atores procuram estabelecer relações entre a ficção e a realidade local. Um questionário é aplicado entre os presentes, material que servirá de subsídios para a elaboração do Documento “Diagnóstico e Diretrizes para a Produção Cultural Local”.

Ainda neste momento, a opção pode ser pelo Espetáculo-mestre e pelos Espetáculos satélites. O primeiro é uma grande marcha carnavalesca, uma grande passeata cultural que objetiva mobilizar a comunidade. Os Espetáculos satélites ocorrem no decorrer da passeata cultura, no interior do Espetáculo-mestre.

O terceiro momento, a Fábrica Ex-Post, é reservado para a avaliação de todo o processo e ao reprocessamento, à retroalimentação, para que a roda não pare, e continue girando de uma forma sempre melhor. Problemas são identificados e equacionados, soluções apontadas, medidas e deliberações com vistas a correções de curso são adotadas. Isto em nível do espetáculo propriamente dito como também em nível dos problemas objetivos que assolam a comunidade: inexistência de esgotamento sanitário; questões de saúde como o aumento descontrolado da dengue e do calazar; problemas urbanos como a falta de moradias, o transporte coletivo deficiente, o lixo doméstico, industrial e hospitalar, etc. e etc. O processo então é retroalimentado, a roda volta a rodar, mas agora com um upgrad, com um plus, com um diferencial de acréscimo positivo. Este ciclo se repede ad-eternum. Por isto o espetáculo é um processo permanente.

Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo.acs@ueg.br

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O Teatro Mané Beiçudo e o caminho: a Fábrica Ex-Cursus


A Fábrica Ex-Cursus

Vejamos um caso em que a opção do Grupo de Teatro foi por encerrar todo o processo Mane Beiçudo num espetáculo tradicional.

Se o espetáculo teatral está marcado para iniciar às 20:00h, exatamente nesta hora a platéia é conduzida ao saguão principal do teatro. No saguão está preparada uma exposição com fotos, cartazes, gráficos, gravuras, pinturas, esculturas, objetos que tenham relação com o assunto focado na peça. A exposição funciona como um aquecimento para que a platéia mergulhe de fato no contexto real-teatral.

Só após vinte minutos, a platéia é conduzida às cadeiras para que a peça teatral se inicie.

Quando o espetáculo teatral ocorrer em um local que não seja o teatro convencional, como em uma escola, fábrica ou instituição pública, a exposição será montada em alguma sala ao lado ou no hall frontal à porta que dá acesso ao local da apresentação.

No teatro convencional – seja ele de bonecos ou não – a platéia exerce uma ação submissa, minúscula, acessória. Sua manifestação se limita a sorrir ou chorar e a aplaudir ou vaiar quando cai o pano, dando fim à apresentação. Então as luzes se apagam, o teatro cerra suas portas, os atores se dispersam e as pessoas retornam ao conforto de seus lares. E tudo se acaba.

Antonin Artaud

No TBMB é bastante diferente. Em sua concepção a platéia participa o tempo todo, e da forma mais intensa. Ocorre uma interação avassaladora entre os atores e a comunidade.

Apesar do espetáculo teatral continuar existindo entre quatro paredes, a ação dramática rompe este espaço físico e nosso universo, nossa sala de espetáculos se estende por todo o espaço-objeto, por todo o espaço geográfico envolto pelo quadrilátero previamente definido. A platéia do TBMB também rompe os limites da apresentação teatral e passa a se constituir em toda a comunidade. Porque mesmo as pessoas que não assistiram a apresentação propriamente dita, participaram de forma efetiva dos demais momentos da produção teatral, os momentos da Fábrica Ex-Ante e Ex-Post.

Mesmo o momento da apresentação teatral é diferente.

Como uma característica estruturante do Mané beiçudo é a improvisação, os atores estarão estimulando a platéia a participar o tempo todo, do início ao final da apresentação. Não se trata apenas de se emocionar com a trama, de aplaudir ou vaiar. Trata-se de intervir na trama, de completar frases deixadas pelos atores, de exigir a saída de cena de uma personagem, de mudar o destino de outra, de corroborar ou alterar o final proposto pelo enredo. No TBMB o espetáculo é aberto. É evidente que para que isso ocorra os atores dispõe de técnicas para quebrar o gelo, para desobstruir os canais, para quebrar a inibição e a inércia. Estarão perguntando, instigando, provocando, relatando fatos do conhecimento de todos num novo formado e versão, e principalmente “rasgando a chita”, abrindo o jogo, conclamando a platéia a participar, protestando – às vezes – se irritando, denunciando que tudo está muito apático e frio, sem energia, “parecendo que ninguém come feijão há pelo menos uma semana”. A participação da platéia é que dá vida, curso e substância ao TBMB.

Portanto, a interação dos atores com a platéia e a comunidade é a mais intensa possível.

Tão logo termina a performance dos atores, eles deixam a empanada, sentam-se defronte à platéia e propõem o início de um debate, quando discutirão a trama teatral à luz da realidade concreta. Um integrante do grupo faz as vezes do secretário que anota os pontos mais relevantes, destacando:

· as manifestações objetivando promover melhorias plásticas e de conteúdo na peça teatral;
· as manifestações objetivando promover intervenções na realidade com vistas a transforma-la.

As sugestões, anotadas e sistematizadas, transformam-se num singelo relatório consolidado. Será um dos insumos do instante subseqüente da linha de produção, a Fábrica Ex-Post.

Antônio Carlos dos Santos, criador da metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo.

domingo, 3 de agosto de 2014

Teatro Mané Beiçudo e o princípio: a Fábrica Ex-Ante

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Humilhas, avanças, provocas, agrides, espancas, torturas, aprisionas indefesos – e quem bate e violenta é a tropa de choque?
Te tornaste carne, sexo e prostituta de incubo de Saturno –
e ensandecidamente acusas o outro de estupro? (...)

Leia o poema Uma oração para canalhas clicando aqui._____________________________________


O Mané Beiçudo é estruturado em uma linha de produção artística em que o primeiro momento, a Fábrica Ex-Ante significa o estágio inicial, a etapa em que as bases serão construídas.

Naturalmente, a solidez do alicerce é que determina a durabilidade e sustentabilidade de qualquer processo construtivo. Aqui não é diferente. Nesta etapa, os pilares serão fincados num terreno previamente preparado.

Definido o local onde se desencadeará o processo, o grupo identifica e define as fases a serem observadas:


o espaço-objeto.

Espaço-objeto é o lugar, o espaço geográfico que receberá a intervenção do Teatro Mané Beiçudo. Não se confunde com o palco, o teatro, a sala de aula, o hall da instituição onde ocorrerá a apresentação do espetáculo. O Espaço-objeto pode ser um quarteirão, um bairro, uma zona da cidade. Pode ser o raio de influência e ação de uma fábrica. Pode ser todo um município. É o universo onde se desenvolverá o jogo teatral.



Nesta primeira fase o Grupo de Teatro ou o agente cultural deverá delimitar a região geográfica que será alvo da intervenção cultural.

Geralmente um grande problema ou um grande conflito social é que determinará a escolha do espaço-objeto. Uma grande experiência do Mané Beiçudo ocorreu em Goiânia, quando do acidente radioativo com o Césio 157. Este grande problema de dimensões planetárias motivou a escolha da Grande Goiânia como um espaço-objeto.

O cumprimento de uma liminar de reintegração de posse, em Brasília, com violência policial, mortes e desaparecidos, também levou o Grupo de Teatro a tomar todo o Distrito Federal como espaço-objeto.

Mas ocorrem situações em que o espaço-objeto quase que se confunde com o local da apresentação. Em Mato Grosso do Sul, um grupo local utilizou a tecnologia do TBMB e delimitou como espaço-objeto uma escola. O projeto discutiu o processo de escolha da nova direção da unidade de ensino.

Destarte, dependendo do ponto que pretendemos focar e evidenciar, nosso espaço-objeto pode sofrer variações em suas delimitações.

Definido o espaço-objeto em função do problema que iremos abordar, adentramos a fase seguinte que consiste em montar uma equipe de voluntários que more, trabalhe ou estude em um lugar localizado no interior do quadrilátero geográfico estabelecido.

Esta equipe se constituirá no Núcleo Gestor do Projeto - NG.

O Núcleo Gestor compõe-se de atores, artistas que atuam na localidade, e voluntários interessados em participar e contribuir, sendo – preferencialmente - coordenado pelo Diretor Artístico do espetáculo teatral. É o órgão executivo, aquele responsável por planejar e executar as ações necessárias para o pleno êxito do processo. Será a instância com a responsabilidade de apreender e disponibilizar a metodologia TBMB, bem como prover as condições para a sustentabilidade do processo. É este Núcleo que garantirá as condições de infra-estrutura, de suporte logístico e operacional para que o Projeto tenha perenidade.

Ou seja, exaurida a primeira questão com a solução plenamente viabilizada, uma outra questão é identificada dando origem à 2ª Edição do Projeto; depois a 3ª e assim sucessivamente. É o princípio do “Espetáculo permanente”.

Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e a tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo.