segunda-feira, 29 de maio de 2017

PhD em Harvard, brasileira supera fome e preconceito e soma 56 prêmios na carreira


“Toda mulher dá a sua vida pelo que ela acredita”. A frase é atribuída à Joana D’Arc, a famosa heroína francesa que viveu no século XV, mas pode muito bem ser usada para resumir a história de uma brasileira que tem o mesmo nome mais de 500 anos depois.

Joana D’Arc Félix de Souza, 53 anos, superou a falta de estrutura, a fome e o preconceito para se tornar cientista, PhD em química pela renomada Universidade de Harvard, dos Estados Unidos. Hoje, ela soma 56 prêmios na carreira, com destaque para a eleição de ‘Pesquisadora do Ano’ no Kurt Politizer de Tecnologia de 2014, concedido pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abquim).

Desde 2008, ela também é professora da Escola Técnica Estadual (ETEC) Prof. Carmelino Corrêa Júnior, mais conhecida como Escola Agrícola de Franca, cidade do interior de São Paulo, e molda novas gerações a seguirem sua trajetória inspiradora.

Trajetória que começou na própria Franca: filha de uma empregada doméstica e de um profissional de curtume (operação de processamento do couro cru que tem por finalidade deixá-lo utilizável para a indústria e o atacado), Joana mostrou desde cedo que tinha aptidão para o conhecimento.


“Eu era a caçula de três irmãos, tinha certa diferença de idade, então minha mãe me levava com ela para o trabalho. Ela aproveitou que tinham jornais na casa da patroa e me ensinou a ler, para eu ficar mais quieta. Tinha quatro anos e ficava o dia todo lendo”, conta ela ao UOL.

“Um dia, a diretora da escola Sesi foi visitar a dona da casa e perguntou se eu estava vendo as fotos do jornal. Respondi que estava lendo. Ela se surpreendeu, me pediu para ler um pedaço e eu li perfeitamente. Coincidentemente, era começo de fevereiro e ela sugeriu que eu fosse uns dias na escola. Se eu conseguisse acompanhar, a vaga seria minha. Deu certo e com 14 anos eu já terminava o ensino médio”.

O mesmo curtume que deu ao pai casa (a família vivia numa pequena moradia oferecida pelo patrão) e trabalho por 40 anos acabou influenciando a jovem Joana na hora de escolher uma faculdade. Contando com a ajuda de uma conhecida, ela decidiu prestar vestibular em química, pois estava acostumada a ver profissionais da área atuando no trabalho com o couro.



“Uma professora tinha um filho que fez cursinho e pedi o material para ela. Meu pai e minha mãe não tinham estudo, mas me incentivavam. Eles tinham consciência de que eu só cresceria através de estudos. Passei a estudar noite e dia até entrar na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)”, relembra a pesquisadora, que não se deixou abalar pelo preconceito que sofreu até o tão sonhado diploma.

“As cidades de interior têm aquela coisa de sobrenome: se você tem, pode ser alguém, se não tem, não pode. Sempre enfrentei preconceito. Na minha segunda escola, mesmo sendo estadual, tinha aquela coisa de classe para os ricos, classe para os pobres, com tratamentos diferentes. Em Campinas, fora da universidade, também senti um pouco. Infelizmente, o Brasil ainda é um país racista. Pode estar um pouco mais escondido, mas isso ainda existe. Mas não usei isso como obstáculo, e sim como uma arma para subir na vida”.

A vida acadêmica

Joana, como previa, passou muita dificuldade em Campinas, a mais de 300 km de sua cidade natal. O dinheiro que recebia do pai e do patrão dele permitia que ela pagasse somente o pensionato onde morava, as passagens de ônibus e o almoço na universidade.

“Às vezes pegava um pãozinho no bandejão da universidade e levava para eu comer em casa à noite. Sentia fome, contava as horas para o almoço (risos). No final de semana também era complicado. Mas nunca desisti. Isso chegou a passar pela minha cabeça, mas não desisti. Fazer isso seria jogar tudo que tinha conquistado até ali no lixo”, afirma.

Sua situação só melhorou a partir do segundo semestre, quando começou a iniciação científica e teve o auxílio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). “Quando recebi a primeira bolsa, corri para a padaria e gastei uns 50 reais em doces para matar a vontade”, ri.

Estimulada por professores a seguir na vida acadêmica e encantada pelo campo de pesquisa, Joana ainda concluiria mestrado e doutorado em Campinas – este último com apenas 24 anos. Um dos artigos da cientista saiu no Journal of American Chemical Society, e logo ela recebeu o convite para seguir os estudos nos Estados Unidos.

O pós-doutorado de Joana foi concluído na Universidade de Harvard. Um professor solicitou que ela aplicasse em seu trabalho um problema brasileiro, e ela optou pelos resíduos de curtume nas fábricas de calçados – desenvolveu a partir destas substâncias poluentes um fertilizante organomineral. Questionada sobre a condição de trabalho em solo americano e no seu país natal, a cientista aponta um fator que faz muita diferença.

“Nos Estados Unidos, eu pedia um reagente químico e em duas ou três horas conseguia. No Brasil, até eu arrumar dinheiro, fazer solicitação… Aqui tem mais burocracia. A questão de financiamento para pesquisa é bem mais rápida nos Estados Unidos”.

A brasileira ficaria mais tempo nos Estados Unidos não fosse uma tragédia familiar: sua irmã morreu aos 35 anos, vítima de parada cardíaca, mesma causa do falecimento do pai, apenas um mês depois. Joana decidiu voltar para o Brasil e cuidar da mãe e de quatro sobrinhos deixados pela irmã.

Novamente em Franca, a cientista procurou oportunidades em curtumes da cidade natal até que recebeu o convite para se tornar professora da ETEC em 2008.

“Quis desenvolver este trabalho de iniciação científica desde a educação básica, e o resultado foi excelente. Reduzimos a evasão escolar. A escola é tradicional, tem mais de 50 anos, e é agrícola. Muitos dos alunos são filhos de fazendeiros da região e não sabiam por que estudar. Muitos achavam que o ensino técnico era o fim, era o máximo que iriam conseguir. Mas, com as idas às feiras e congressos, eles começaram a pensar mais alto, em ir para a universidade, e não estudar só porque o pai manda”.

Colhendo os frutos

O trabalho com os resíduos de curtume é só um dos muitos de destaque que Joana executou nos últimos anos. Em especial, ela e sua equipe de alunos em Franca conseguiram desenvolver uma pele similar à humana a partir da derme de porcos. Isso ajudaria no abastecimento de bancos de pele especializados e de hospitais, além de baratear o custo de pesquisas, uma vez que a matéria-prima do animal é abundante e de baixo custo.

O projeto, com depoimento da cientista, está exposto até o mês de outubro no Museu do Amanhã (Rio de Janeiro). Ele é parte da mostra temporária “Inovanças – Criações à Brasileira”, que tem o intuito de revelar trabalhos inovadores de cientistas brasileiros, muitos deles desconhecidos do público.

Joana ainda comandou pesquisa que resultou na produção de um tecido ósseo feito a partir de materiais também encontrados na natureza: escamas de peixes e colágeno de curtume. Ela e alunos da ETEC vão em junho a uma feira em Oswegon, Estados Unidos, apresentar este projeto, juntamente ao da pele artificial a partir de tecido de porco.

Como resultado deste trabalho, a professora e cientista já soma 56 prêmios na carreira. Destaque para a eleição de ‘Pesquisadora do Ano’ no Kurt Politizer de Tecnologia de 2014, concedido pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abquim), além de projetos vitoriosos em concursos do Conselho Regional de Química do Estado de São Paulo e da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), que acontece anualmente na USP (Universidade de São Paulo).

Para Joana, porém, a maior recompensa vem no dia a dia. “Alguns jovens estavam no caminho errado, mas fazendo a iniciação científica encontraram um rumo. Eles tomam gosto pela pesquisa. Muitos pais vieram me agradecer, e isso é muito gratificante dentro da escola básica”, diz ela, antes de concluir: “as armas mais poderosas que temos para vencer na vida são a educação e o estudo”

Por Eduardo Carneiro - UOL

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17 de fevereiro de 1.600 é uma data fatídica. Neste dia, um herege foi executado no Campo das Flores, em Roma. Giordano Bruno foi aprisionado, torturado e, após dois julgamentos, condenado a morrer na fogueira do Santo Ofício. Seu crime? Acreditar na ideia de que o universo é infinito, de que ao redor de cada estrela gravitam planetas, e na concepção de que cada planeta irradia vida.

Ex monge dominicano, nos oito anos em que padeceu na prisão se submeteu a todo tipo de violência e opressão para que se retratasse, renegando suas convicções. O brutalizaram em vão. A congregação católica não logrou o êxito que obteria, poucos anos depois, com Galileu Galilei. Este, para não morrer na fogueira, teve que, de joelhos, abjurar toda a sua consistente obra científica e filosófica.

A ortodoxia da Igreja Católica de então concebia a terra como um planeta único no universo, resultado da intervenção direta de Deus. Um axioma que – em hipótese alguma – poderia ser questionado.

Mas, Giordano Bruno descortinou, antes da invenção do telescópio, a infinitude do universo. E que na imensidão do cosmos, existia não um, mas um número infinito de planetas. Sendo assim – questionaram os guardiões da fé – “cada planeta teria o seu próprio Jesus? Heresia! Blasfêmia! Sacrilégio! ”.

Suas ideias, formulações e livros foram proibidos, incinerados e incluídos no Index Librorum Prohibitorum, o Índice dos Livros Proibidos. 

Num ato de misericórdia, os condenados, antes de arderem no fogo da santa fogueira, eram estrangulados e mortos. Mas com Giordano Bruno foi diferente. Suas formulações representavam uma ameaça de tal dimensão aos alicerces da doutrina católica que a sentença estabeleceu que morresse diretamente em decorrência das chamas, línguas de fogo e labaredas originárias da fogueira. Seu pecado? Declarar que a terra não era o único planeta criado por Deus.

Este é o esteio de onde emerge a peça teatral “Giordano Bruno, a fogueira que incendeia é a mesma que ilumina”.

A trama se desenrola no intervalo entre a condenação do filósofo italiano e a aplicação da pena de morte. A ficção contextualiza o ambiente de transição entre a baixa idade média e a idade moderna. O ambiente de ‘caça às bruxas’, o absolutismo e o autoritarismo políticos, a corrupção endêmica, o feudalismo e a ascensão da burguesia, a ortodoxia e os paradigmas religiosos, o racionalismo e o iluminismo compõem o substrato por onde se movimentam as personagens da peça.

O conselheiro do papa Clemente VIII, o octogenário Giovanni Archetti, comanda - do Palácio do Vaticano - uma intrincada rede de corrupção e, através dela, planeja desposar a mais bela jovem da Europa, Donabella de Monferrato. A formosa mulher admira e integra um grupo de seguidores de Giordano Bruno. Para convencê-la acerca do matrimônio, o poderoso velhaco tenta ludibriá-la e mente, afirmando que promoverá a revisão do julgamento do famoso filósofo, anulando a pena de morte imposta. Sem ser correspondido, o poderoso Giovanni Archetti ama Donabella, que é amada pelo noviço Enrico Belinazzo, um jovem frade de corpo atlético que, por sua vez, é amado pelo vetusto padre Lorenzo, o diretor do seminário. 

De modo que conflitos secundários são explorados evidenciando os paradigmas da baixa idade média, os fundamentos dos novos modelos, dos novos arquétipos que surgiam em oposição ao poder do imperador do Sacro Império, do Papa e dos reis; o ocaso do feudalismo, suplantado pela burguesia que emerge como a nova classe dominante; a degeneração da política e a degradação moral e dos costumes. 

Adentre este universo povoado por conflitos, disputas, cizânias e querelas. Um enredo que, lançando mão de episódios verídicos da narrativa histórica, ambienta novelos densos e provocativos instigando os leitores a responder se o autoritarismo e a corrupção que vincaram o interim entre os séculos XVI e XVII não seriam equivalentes – em extensão, volume e grandeza - aos verificados nos dias de hoje.


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domingo, 28 de maio de 2017

Shakespeare - o bardo emite um brado contra a corrupção do Brasil



 Conforme o momento histórico, Shakespeare foi construindo nuvens com peças dotadas de diferentes características, propriedades específicas para cada fase de sua produção literária. “Medida por Medida” e “Bem está o que bem acaba” integram o que se convencionou denominar “comédias sombrias”, peças onde tensão e situações cômicas as categorizam em desacordo com outras comédias do dramaturgo como “A comédia dos erros”, “As alegres comadres de Windsor” e “Sonho de uma noite de verão”. E a explicação é singela: foram elaboradas no mesmo período em que o autor escreveu Hamlet e Otelo, grandes obras da literatura universal que elevam a tragédia ao ápice do gênero teatral.



Na peça “Medida por Medida”, com inusitada habilidade, Shakespeare discute administração pública, direito e corrupção de maneira magistral. 

O universo da administração pública adotado na peça é largo e profundo. Entrelaçados às cenas emergem assuntos como

- o autoritarismo oriundo do poder divino do rei, as prerrogativas do monarca e a antecipação do liberalismo;
- a descentralização administrativa;
- o abuso do poder na administração pública;
- os limites da delegação de competência;
- accountability, fiscalização e controle;

Quanto ao direito, lança um forte debate sobre quesitos por demais importantes para a humanidade: 

- a aplicabilidade das leis mesmo quando se apresentam fora de uso por um longo tempo, gerando disfunções de toda ordem;
- a execução da pena quando esta resulta de uma lei extremamente dura;
- a discricionariedade do juiz na aplicação da lei, a subjetividade do magistrado e a fragilidade dos paradigmas que orientam o sistema de decisões no judiciário;
- a distribuição da justiça.

Especial enfoque o Bardo dá ao tema da corrupção, mostrando:

- a moral e a ética corroídas pelos interesses pessoais e pelo tráfico de influência;
- a força do poder para alterar o caráter dos administradores.

Neste aspecto Shakespeare nos faz refletir sobre a utilização do Estado enquanto instrumento de satisfação dos interesses pessoais.

E todo este universo é entrecortado por discussões sobre o amor e o ódio, a moral e o imoral, o sexo e a abstinência, a clausura e a liberdade, a prisão e a salvação, a vida e a morte.

O presente livro, além de disponibilizar a versão original de “Medida por medida” de Shakespeare, apresenta um conjunto de ensaios contextualizando a peça teatral às questões que incendeiam os panoramas contemporâneos brasileiro e latino-americano como corrupção, estado e administração pública; controle e accountability; direito e administração da justiça. 

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sábado, 27 de maio de 2017

Como falar bem em ambientes controláveis e em situações de extrema pressão


Comunicação estratégica - da interlocução às palestras exitosas 
Como fazer uma palestra? Mais cedo ou mais tarde seremos chamados a enfrentar este desafio.

"Os tempos primitivos são líricos, os tempos antigos são épicos e os tempos modernos são dramáticos". 

A frase é de Victor Hugo, escritor francês do século XIX. Mantém uma atualidade que angustia. Sim, vivemos tempos dramáticos, não há como negar, tempos que impõem aos vitoriosos uma vida de intensos estudos e preparação continuada, meticulosa, planejada. Os mais esforçados aumentam as chances de êxito. 

O que dizer sobre o estudante que não estuda para o concurso dos sonhos, sobre o indivíduo que ignora os princípios da vida saudável, do atleta que se recusa a treinar, do escritor que rejeita a solidão do ofício, do cidadão que opta por vender o voto?

A vida costuma responder com sorriso quem assim a cumprimenta, e com desventuras e lamentos aos mordazes e amargurados. Os preguiçosos também costumam pagar um alto preço pela indolência.

Há quem desconheça que a conduta mais adequada é manter uma atitude proativa - amistosa, colaborativa, de estudos e preparação continuada e planejada - para conseguir responder aos desafios que se apresentam no dia a dia. 

Imagine uma situação qualquer em que você necessite se alimentar, mas encontra-se impedido em decorrência de problemas decorrentes de um comportamento irresponsável para com a saúde...

E diante da premência de fazer uma corrida rápida para esgueirar-se da chuva, não perder o metrô, ou para escapar de um carro desgovernado que acelera em sua direção... Providências impossíveis de adotar em função do lastimável preparo físico; inexoravelmente terá um dia de cão: passará um bom tempo encharcado, terá que esperar o próximo trem e, na situação mais grave, será atropelado...

Mais cedo ou mais tarde seremos chamados a palestrar. É inevitável. E quando romper o instante, estaremos preparados?, conseguiremos - com êxito - levar a cabo a tarefa?, ou o resultado se mostrará medíocre, um fiasco, um retumbante fracasso?

As opções estão entre ‘permanecer à mercê do acaso e da sorte’ ou ‘investir, planejadamente, na preparação’.

Não é melhor prevenir que remediar?, resguardar-se da doença que despender no tratamento? Não é mais sensato estudar para a prova que amargar a reprovação? Não é mais inteligente treinar para a luta que padecer a derrota?

Desde a mais singela conversação entre amigos ou familiares, até a palestra em um auditório lotado, com três mil pessoas, devemos cuidar para que a comunicação se estabeleça em sua integralidade, otimizando a utilização dos recursos disponíveis, de modo que, ao fim e ao cabo, a mensagem transmitida tenha sido assimilada pelos receptores. 

Quando nos deslocamos para o contexto profissional, a trajetória reverbera um caminho lógico, evidenciando que, quanto mais prosperamos na carreira, mais expande a demanda por exposições orais. 

Melhor, então, não ignorar a realidade e planejar a conquista da nova habilidade, ‘falar bem para o público’, independentemente do número de interlocutores, se um, se dez, se três mil... 

Como em qualquer área do conhecimento acadêmico, um conjunto de técnicas criteriosamente adotadas pode tornar a travessia menos dolorida, mais produtiva e mais prazerosa. 

Esta é a razão deste livro, impedir que a surpresa se constitua num imponderável, na variável indesejada; impedir que o leitor seja pego de calças curtas. E para isso a obra se divide em capítulos estruturados para abrigar desde os referenciais teóricos até exercícios, dicas e experiências concretas, tudo com o propósito de transformar o leitor em um exímio palestrante. Aventure-se nesta jornada. Compreenda as dimensões da comunicação, as variantes que conduzem a mensagem ao seu destino de forma límpida, rápida e fidedigna. Aprenda como utilizar as linguagens gestual e vocal para potencializar os conteúdos emitidos. E a estruturar uma apresentação impecável, que receba a empatia e a cumplicidade da plateia. 
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sexta-feira, 26 de maio de 2017

Alta tecnologia preserva cultura dos kuikuros, no Alto Xingu


Os resultados de uma experiência inédita feita entre os dias 8 e 18 deste mês na aldeia dos kuikuros, no Alto Xingu, pela organização não governamental (ONG) People's Palace Project e pela empresa Factum Arte, da Inglaterra, foram apresentados hoje (23), no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, durante o seminário Xingu: arte, tecnologia e preservação. A ONG britânica é líder em tecnologia digital de preservação do patrimônio cultural.
Na avaliação do diretor da ONG, Paul Heritage, os resultados da residência artística internacional registrada este mês na aldeia Ipatse, no Território Indígena do Xingu, em parceria com a Associação Indígena Kuikuro do Alto Xingu, foram imediatos. “Eles gostaram de fazer essa troca conosco”, disse Heritage, que respondeu ao desafio proposto pelos artistas indígenas de levar alta tecnologia para preservar a cultura dos kuikuros.
A People's Palace Project levou para o Alto Xingu a mesma tecnologia que utiliza no mundo inteiro. “Os mesmos artistas que preservaram [digitalmente] o túmulo de Tutankamon [faraó do Antigo Egito que morreu na adolescência; era filho de Aquenáton], no Vale dos Reis, no Egito; os mesmos que cuidaram [da preservação digital] de quadros de Caravaggio [pintor italiano, atuou em Roma, Nápoles, Malta e Sicília, entre 1593 e 1610]; os mesmos que fizeram uma cópia exata da Última Ceia, de Michaelangelo [pintor, escultor, poeta e arquiteto italiano, considerado um dos maiores criadores da história da arte do Ocidente], eles têm alta tecnologia que emprestaram para os kuikuros para preservar a cultura deles e para replicar, difundir a cultura deles”, disse o diretor.
Segundo Paul Heritage, o que os indígenas querem é respeito à sua cultura, às suas tradições; divulgação da cultura sem que isso acarrete destruição no intercâmbio com outras culturas. Drones e impressão em 3D foram algumas tecnologias usadas na experiência. Heritage disse que da mesma forma que vídeos foram utilizados há 20 ou 30 anos nas aldeias como forma de “trocar a cultura entre si e com o mundo dos brancos”, a ONG centrou suas atividades em novas tecnologias.
Continuidade
A ideia é continuar com essa experiência. A People's Palace Project pretende retornar, em setembro deste ano, à aldeia dos kuikuros, que estão construindo uma oca que vai “virar um centro cultural”. Segundo Heritage, ali eles poderão mostrar a cultura, danças, rituais, máscaras e seu modo de viver. A ONG pretende replicar também a cultura indígena em outros locais do Rio de Janeiro e em Londres. “Acho que é o momento mais que certo que a gente tem que aprender com o povo indígena o jeito como eles tratam o planeta, como vivem juntos, a coletividade, que a gente perdeu em nossa sociedade atual de juntar com a luta deles por direitos políticos, pela sobrevivência”.
O diretor da ONG sustentou que a preservação da cultura é a preservação do povo, da língua, do ponto de vista de uma coletividade. “É um ato de olhar”. Isso foi fundamental na civilização europeia ao classificar os objetos e preservar sua cultura, disse. “A gente precisa dessa preservação. Faz parte da biodiversidade humana”.
O projeto-piloto resultará em outros experimentos. Gradualmente, serão construídos elementos que podem resultar em uma exposição do próprio povo Kuikuro. Paul Heritage deixou claro que não se trata de uma mostra da ONG, mas dos indígenas. “A gente está lá para ajudar eles a criar essa nova aldeia por meio dessas tecnologias”.
Esta foi a primeira vez que a ONG, reconhecida internacionalmente por seus trabalhos com alguns dos maiores artistas e museus do mundo, efetua um projeto no Brasil.
Por Alana Gandra, da Agência Brasil



quinta-feira, 25 de maio de 2017

Em dias de intolerância, pesquisadores destacam valor das mensagens de Gentileza


 “Gentileza gera gentileza.” A mensagem do poeta popular José Datrino (1917-1996), que completaria 100 anos em 2017, ganha significado especial em tempos de intolerância política presente tanto em discussões nas ruas quanto em redes sociais. O "profeta" que ganhou o apelido de Gentileza deixou uma verdadeira obra escrita nas ruas do Rio Janeiro (RJ), com apelos que vão além da cordialidade entre as pessoas.
No ano do centenário do artista, pesquisadores que ajudaram na preservação de seu trabalho ressaltam que os versos estão carregados de crítica ao modo de vida contemporâneo.
Para o professor Leonardo Guelman, do Departamento de Arte da Universidade Federal Fluminense (UFF), o maior legado de Gentileza foi ter deixado uma mensagem que chama à solidariedade. “Ele faz esse chamado para pensar de que maneira nós podemos ser mais solidários enquanto sociedade e não ficarmos suscetíveis ao individualismo alimentado pela cultura do consumo”, avalia.
Guelman é o idealizador e coordenador do Projeto Rio com Gentileza, que promoveu a restauração das obras do artista em 2000 e 2010. O “livro urbano” de Gentileza é formado por 56 páginas em concreto localizadas embaixo do viaduto do Caju, na Avenida Rio Branco, região central da capital fluminense.
As mensagens foram escritas com tinta e pincel por Gentileza, no período de quase cinco anos durante a década de 1980. “Ele vai nos apontar sua leitura de mundo pelo viés da cultura popular e no artesanato da escrita, uma linguagem muito própria para veicular sua mensagem enquanto oralidade e escrita”, aponta Guelman.
O movimento pela revitalização da obra de Gentileza foi apoiado por diversos artistas como Joãosinho Trinta, que dedicou ao profeta o enredo da Grande Rio no Carnaval de 2001, “Gentileza, o profeta do fogo”, e a cantora Marisa Monte, que gravou uma música em homenagem ao profeta em seu disco Memórias, Crônicas e Declarações de Amor (2000).
Filmes
Para o documentarista Dado Amaral, que produziu dois filmes sobre Datrino - Gentileza (1994) e Por Gentileza (2002) -,  a obra do poeta popular continua viva.
Ele considera, porém, que a apropriação da tipologia e o que classifica como “uso indevido das mensagens” provocam um esvaziamento do sentido filosófico e ético proposto pelo profeta e acabam por difundir uma leitura rasa de sua obra. “Elas [mensagens] condenam o capitalismo, o lucro a qualquer preço e o amor pelo dinheiro. Essa parte da mensagem é muito incômoda no momento em que o capitalismo tem hegemonia irrestrita no mundo”, avalia.
Amaral conta que conheceu Gentileza por acaso, quando foi a uma passeata pelo impeachment de Fernando Collor, em 1992, no Rio de Janeiro. Na Avenida Rio Branco, Amaral subiu em um ponto elevado para observar a multidão que se concentrava no centro da capital carioca, quando avistou “uma figura extraordinária”.
Em meio à multidão, Gentileza se destacava pela vestimenta característica, a túnica branca, e segurava uma placa colorida com algumas de suas mensagens escritas à mão. “Que personagem, que figura, parei do lado dele e fiquei olhando, quase não prestava atenção na manifestação”, lembra. Desse encontro surgiu a ideia de fazer o primeiro documentário, lançado em 1994, em parceria com o cineasta Vinícius Reis.
No ano seguinte, preparou o argumento para um novo filme sobre Gentileza, mas não conseguiu apoio para o projeto. Em 1996, Gentileza morreu, mas Amaral manteve o projeto do filme e, em 2002, filmou o documentário “Por Gentileza”.
Biografia

Nascido em 11 de abril de 1917 em Cafelândia, interior de São Paulo, José Datrino passou a ser conhecido como Profeta Gentileza em 1961, após um  incêndio ocorrido em 17 de dezembro daquele ano em um circo em Niterói. Datrino diz ter ouvido vozes que revelaram a ele sua missão.

Versos nas paredes: Conheça algumas das mensagens de Gentileza
"Capital
Capeta vem de origem capital.
É o vil metal.
Faz o diabo, demônio marginal"

"Dinheiro
O dinheiro destrói a mente da humanidade. O dinheiro coloca a humanidade surda. O dinheiro destrói o amor. O dinheiro cega. O dinheiro mata"

"Liberdade
A verdadeira gentileza é perfeito conforto e liberdade. Ela simplesmente consiste em tratar os outros exatamente como você adoraria ser tratado"

"Inimigo
Não tente procurar um inimigo, muitas vezes você é o seu próprio inimigo"

"Ofensa impensada
Nunca ofendas verbalmente o teu inimigo. Dói muito mais uma gentileza vociferada do que uma ofensa impensada"

"Surpresas
Onde houver gentileza, haverá sempre um gesto que surpreenda. Amor se esconde nas coisas pequenas. E a amizade, nas atitudes que refletem maiores que a presença"
Por Leandro Melito - Repórter da Agência Brasil

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O livro 
A peça teatral enfoca duas das mais importantes personalidades do movimento artístico mundial, o poeta e dramaturgo Maiakovski e o diretor teatral Meyerhold, ambos russos.

Entusiastas de primeira hora da revolução de 1917 pouco tempo depois se tornariam grandes vítimas dela, devorados que foram pela burocracia e pela repressão soviética.

Maiakovski passou para a história como o ‘poeta da revolução’; Meyerhold como o encenador criador do grotesco cênico e da Biomecânica, escola teatral que sorveu as ideias produtivistas de Taylor, a teoria de reflexos condicionados de Pavlov e os estudos das relações corpo-emoções de Willian James.

Filiados ao Partido Bolchevique, Maiakovski e Meyerhold montam, em 1918, em comemoração ao primeiro ano da revolução soviética, a peça teatral “Mistério Bufo”.

A partir daí mergulham no materialismo dialético e no realismo socialista promovendo um teatro maniqueísta de propaganda política: o bem numa extremidade, o mal na outra; os revolucionários de um lado e os exploradores do outro, bem ao sabor da nova ordem burocrática.

Mas quando abrem mão do teatro panfletário, simplista e maniqueísta, passam a ser acusados pelo establishment comunista de produzir uma arte “incompreensível para as massas”, e de cultuar em suas montagens “aspectos místicos, eróticos e de espírito associal”

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quarta-feira, 24 de maio de 2017

Prefeitura deve R$ 6,8 milhões a artistas de Porto Alegre


Um grupo com cerca de 300 artistas gaúchos está se mobilizando por causa de uma dívida milionária. São músicos, atores, cineastas, escritores e dançarinos que dizem que não foram pagos pela Prefeitura de Porto Alegre, que, por outro lado, diz que herdou essa conta.
A dívida chega a R$ 6,8 milhões. Mais de R$ 2 milhões são de projetos que mesmo aprovados, não foram pagos pelo Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural (Fumproarte).
O Fumproarte financia os projetos culturais em Porto Alegre e foi criado há 20 anos. Ele é formado com 3% do dinheiro do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Os artistas, porém, alegam que os recursos não estão sendo repassados.
'No site do TCU [Tribunal de Contas da União] a gente consegue acessar a informação dos últimos 14 anos, de quanto dinheiro veio do Fundo de Participação dos Municípios, calcula 3% em cima e vê quanto deveria estar na conta do Fumproarte', explica a produtora cultural Debora Nunes.
'Fazendo esse cálculo, hoje deveria ter R$ 147 milhões a mais do que eles alegam ter. Então com certeza o repasse não está sendo feito, e o que nos foi passado na ultima reunião é que esse dinheiro teria ido, em parte, para a Secretaria da Fazenda, mas a gente não consegue saber onde está', completa.
A cineasta Cris Reque conseguiu aprovar a produção de dois filmes no ano passado, em parceria com a Ancine. Mas reclama que o dinheiro não chegou até hoje.
'É um prejuízo para todos, né? Uma dívida que a gente acaba tendo com a população, porque ao final das contas esses projetos todos têm algum tipo de distribuição, de exibição gratuita, então a população de Porto Alegre perde com isso, porque deixa de acessar esses projetos culturais', diz ela.
Já a produtora cultural Luka Ibarra teve um projeto de R$ 70 mil aprovado em 2015. Ela conta que fez o espetáculo, mas recebeu apenas R$ 40 mil e ficou sem dinheiro para pagar os artistas, a produção e até o teatro.
'Os custos, os juros, as dívidas geradas dentro desse projeto, não serão custeadas com o dinheiro que vai vir. De julho pra cá a gente vai completar um ano de inadimplência do governo para o projeto', explica.
O secretário municipal da Cultura explica que as dívidas existentes foram deixadas pela gestão anterior. Mas garante que a prefeitura já fez um cronograma de pagamento, que prioriza quem tem até R$ 8 mil pra receber.
O critério é pagar primeiro as dívidas mais antigas. No entanto, não há uma previsão de quando esse passivo vai ser zerado. 'Nem tudo será feito esse ano, mas tudo está na tabela. Não estamos parados, fugidos, fechados num gabinete sem esse dialogo permanente. E é só assim que vamos sair dessa crise', observa Luciano Alabarse. O secretário disse ainda que entre os dias 10 e 19 de maio foram pagos 125 credores, no valor total de R$ 350 mil e que a manutenção da programação cultural desse ano vai depender de parcerias com a iniciativa privada.

G1.globo

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terça-feira, 23 de maio de 2017

Lei estadual reconhece humor do Ceará como patrimônio imaterial



Chico Anysio, Renato Aragão e Tom Cavalcante têm em comum o fato de serem humoristas consagrados no Brasil. Não por acaso, os três são nascidos no Ceará, estado onde o humor, por meio de lei estadual sancionada semana passada, passou a ser considerado um bem cultural de natureza imaterial.
A esse trio de artistas, segue uma lista extensa de outros nomes do humor cearense, entre eles Falcão, Tiririca, Rossicléa, Adamastor Pitaco e, mais recentemente, Edmilson Filho, que ficou nacionalmente conhecido nos últimos anos ao protagonizar os filmes Cine Holliúdy (2012) e Shaolin do Sertão (2016).
A história antiga e recente do humor estão expostas de diversas formas no Museu do Humor, localizado em Fortaleza. “Este é um museu vivo, pois está sempre se renovando. A história do humor nunca acaba”, disse o historiador e humorista Jader Soares, que interpreta o personagem Zebrinha. No escritório do museu, estão peças utilizadas em Cine Holliúdy 2, que só serão expostas após o lançamento do filme.
Origem do humor
De sua autoria, o livro Paula Nei: o primeiro humorista brasileiro (2015) afirma que este cearense, natural de Aracati, foi a primeira pessoa a fazer humor no país, especialmente no Rio de Janeiro, para onde se mudou aos 17 anos.
Um dos notórios causos contados no livro revela que Nei, então estudante de medicina, respondia uma prova de anatomia. O professor, já sabendo que as respostas não teriam nada a ver com o conteúdo correto, perguntou: “Diga-me, ao menos, senhor Nei, quantos ossos têm o crânio de um homem?” O estudante respondeu: “Não me recordo, professor, mas tenho-os todos aqui na cabeça.”
Logo na entrada do museu, uma representação da Praça do Ferreira, com seus bancos, a Coluna da Hora e o Cajueiro da Mentira (que já não existe mais) informam que lá foi um centro efervescente de humor e cultura no começo do século XX.
Há também o desenho de um sol alaranjado que reconta o dia em que o povo vaiou a grande estrela, decepcionados com a falta de chuva. O fato ocorreu em 1942 e foi repercutido em 2012, nos 70 anos da história, com um concurso promovido pelo museu, que oferecia um troféu àquele que desse a melhor vaia.
Há ainda uma réplica do bode Ioiô, um animal que passeava pela praça e era querido por todos – tanto que os escritores e boêmios que frequentavam o espaço resolveram tornar o bode candidato a vereador.
Seu cabo eleitoral era Quintino Cunha, outro precursor do humor cearense, que acolhia o animal em sua casa, no centro de Fortaleza. O bode Ioiô original, empalhado depois de morto, está exposto no Museu do Ceará.
Chico Anysio
Duas salas expõem a memória de Chico Anysio e de seus 209 personagens, em especial o Professor Raimundo. Uma das salas exibe o jaleco, a peruca e o bigode usado pelo artista nas gravações do programa Escolinha do Professor Raimundo. Em outra está exposta a urna funerária onde as cinzas de Chico foram transportadas.
“Chico Anysio dizia que, por conta do sofrimento, o humor era o jeito de o cearense extravasar. Não sei se é isso. Acho que o brasileiro, de forma geral, é muito alegre. O nordestino é muito gaiato e o cearense consegue colocar essa alegria no palco. Todo mundo conta piada no bar, mas, na hora de subir num palco para fazer isso, o cearense é quem melhor faz. Nós influenciamos outros estados”, afirmou Soares.
O Museu do Humor funciona de segunda a sábado, entre 13h e20h  e conta com um teatro, batizado de Chico Anysio. Semanalmente, nas noites de sexta-feira, o palco é tomado pelas apresentações de diferentes humoristas cearenses.
Por Edwirges Nogueira, da Agência Brasil



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segunda-feira, 22 de maio de 2017

Adeus ao MP3: fim de uma era

Um aparelho moderno de MP3 pode guardar arquivos para mais de 130 dias de reprodução contínua de música

Instituto alemão que ajudou a revolucionar modo de escutar música decreta formato como obsoleto. Na prática, morre a tecnologia, ficam seus herdeiros - e as milhões de canções compartilhadas nas últimas décadas.
Em comunicado, o Instituto Fraunhofer é sóbrio. "Em 23 de abril de 2017, com a expiração de algumas patentes de MP3, o programa de licença da Technicolor e do Fraunhofer IIS terminou. Agradecemos a todos os licenciados pela boa cooperação ao longo das últimas duas décadas. Eles ajudaram a tornar o MP3 no padrão, de fato, mundial para codificação de áudio."
O que o Instituto Fraunhofer, criador do MP3, está querendo dizer é que o formato está "morto". O padrão de áudio se tornou obsoleto. E, com isso chega ao fim uma história alemã de sucesso.
O desenvolvimento do MP3 começou no final dos anos 80 no Instituto Fraunhofer de Circuitos Integrados (IIS), com base em pesquisas da Universidade de Erlangen-Nuremberg. Mesmo que haja formatos de compressão de áudio mais eficientes atualmente – chamados pelos especialistas de codecs de áudio –, o MP3 é ainda muito popular entre os usuários.
Mas as mídias atuais, como streaming, televisão ou rádio, usam técnicas mais modernas, que oferecem configurações mais avançadas e uma melhor qualidade de áudio em taxas de bits muito mais baixos, em comparação com o formato MP3.
"MP3 é mais do que uma tecnologia, MP3 é um fenômeno cultural. E MP3 é um exemplo de sucesso de pesquisa, desenvolvimento e comercialização na Alemanha", diz o engenheiro eletrônico Heinz Gerhäuser, considerado o inventor do formato MP3.

"O MP3 mudou nossa forma de comprar e ouvir música. Hoje, levamos nossa coleção inteira de música com a gente, em equipamentos que não são maiores do que uma caixa de fósforos. Músicas em formato MP3 são tocadas sempre e a toda hora, não há dispositivos que não sejam compatíveis com MP3. Compramos música através da internet e não mais na loja", lembra o especialista.
O MP3 comprime e guarda música. Em comparação com o arquivo original, o MP3 precisa apenas de cerca de 10% do espaço. A música pode ser transferida rapidamente pela internet. Um aparelho moderno de MP3 guarda, dependendo do tamanho da memória, de dois mil a 200 mil minutos de música, o que equivale a mais de 130 dias de reprodução contínua. Então, seria possível ir de carro por mais de quatro meses, confortavelmente, do Alasca à Terra do Fogo, sem ter que ouvir duas vezes a mesma música.
"Imagine que você está em uma cadeira de praia no jardim e ouve o chilrear dos pássaros. De repente, o vizinho liga o cortador de grama. Os pássaros continuam chilreando, mas você não os ouve mais. E o que o ouvido humano não percebe pode ser retirado sem problemas do arquivo de som", disse Gerhauser, em uma entrevista à Deutsche Welle nos anos 90, descrevendo como o método de compressão funciona.
A Alemanha está entre os líderes mundiais no desenvolvimento de tecnologias de áudio, também graças ao MP3. Foram geradas receitas de licenças de milhões de euros e foram financiados investimentos em novos projetos de pesquisa. O Estado também se beneficia, através de receitas fiscais e criação de emprego. As receitas fiscais induzidas pelo MP3 somam pelo menos 300 milhões de euros anuais para governos federal e estaduais na Alemanha. Pelo menos 9 mil postos de trabalho foram criados na Alemanha devido ao MP3 como, por exemplo, no comércio ou na fabricação de leitores do formato.
Precursor do marketing viral
Depois do estabelecimento das normas de MP3 por organismos internacionais, muitas grandes empresas de eletrônicos de consumo perderam o interesse no formato. Por um lado, ninguém acreditava no sucesso da tecnologia MP3; por outro, muitas empresas desenvolveram seus próprios formatos.
Assim, os pesquisadores começaram, eles mesmos, a fazer a comercialização e focaram no mercado dos consumidores finais. Eles empregaram internet como uma plataforma de marketing e ofereceram softwares pagos para serem baixados na rede. Isso levou rapidamente à disseminação em massa do MP3. Este "marketing viral" era naquela época algo nada comum: a internet ainda era jovem e um canal de distribuição relativamente mal aproveitado.
Mas os problemas já eram os mesmos de hoje: na verdade, o software de compressão MP3 deveria ser vendido através da internet e, portanto, visando o lucro. Mas este modelo de negócio foi rapidamente destruído. Um estudante australiano comprou o software com um número de cartão de crédito roubado e, em seguida, o distribuiu gratuitamente, destruindo o negócio envolvendo o software do Fraunhofer. Mas, por outro lado, o software se espalhou rapidamente pela internet. Ao mesmo tempo, começou a rápida disseminação da música em formato MP3, mas muitas vezes envolvendo violação dos direitos autorais.
Impossível na Alemanha?
Mas por que não houve uma empresa alemã que tenha se antecipado, aproveitando esse sucesso através de um leitor de MP3, como o iPod da Apple?
"Pequenas e médias empresas são importantes para a força inovadora de uma economia. Mas, como as empresas menores geralmente não tem o dinheiro para arcar com os riscos de desenvolvimento de produtos e de seu lançamento no mercado, elas dependem de empresas de capital de risco especializadas, que são subrrepresentadas na Alemanha", explica Hans-Jörg Bullinger, presidente da Sociedade Fraunhofer. "Por isso que só muito raramente empresas alemãs conseguem sucesso também em levar uma ideia nova ao mercado."
Somente quando o MP3 já era um sucesso que a Apple pegou o trem andando e conseguiu se tornar líder de mercado, graças aos orçamentos de marketing milionários e um design que agradou o usuário. Na Alemanha, não houve nem há uma empresa comparável à Apple que pudesse se antecipar ao sucesso dela. A Apple investe, apenas em publicidade, várias centenas de milhões de dólares por ano. Nenhuma empresa alemã do ramo de eletrônicos de consumo poderia arcar com tais gastos.
Então, o que significa o final do MP3? Em princípio, os usuários podem continuar a ouvir ou a editar arquivos de MP3. No entanto, os especialistas do Instituto Fraunhofer aconselham que futuramente sejam usados códigos mais modernos, como AAC. Os arquivos de AAC têm cerca de um quarto do tamanho dos MP3, com a mesma qualidade. A loja iTunes, da Apple, já usa o formato AAC desde o início de 2003.
Por Rolf Wenkel, na Deutsche Welle




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