segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Phantom of the Opera - Sierra Boggess & Ramin Karimloo (Classic BRIT Awa...

O conto dramático "O santuário dos skinheads"


   Maria Patrícia e João Siló comprimiam-se debaixo de uma árvore devorando-se mutuamente. Eram duas horas da manhã e na solidão de um quadrante discreto da Praça da Sé sentiam a excitação da liberdade para amar e entregarem-se um ao outro.

   Patrícia, 14 anos de plena juventude, dali a oito horas embarcaria no ônibus que a levaria de regresso ao sertão do Piauí, de onde saiu com João Siló, um ano atrás, para fazer a vida em São Paulo.

   Saíram do sertão fugidos. Não havia na pequena cidade do interior do Piauí quem cogitasse admitir o amor de Patrícia, a deusa adolescente, pelo experimentado João Siló, 59 anos de idade. Fosse rico e tudo estaria acertado, que a vida é farta de generosidade para com os que amealham riqueza e poder. Mas João era um coitado, pobre de recursos e de instrução formal. Nem chegou a completar o primeiro ano do ensino fundamental. Com meio século de existência seu patrimônio pessoal se limitava a uma tapera que a custo mantinha-se empinada na vertical. Casou sete vezes. Das cinco primeiras esposas despediu-se com lágrimas, cuidando com zelo dos funerais, guardando luto clerical. A sexta, Dolores, caiu quando o tino entrou em ebulição, fervendo a ponto de exalar fumaça pelas orelhas, faíscas e pequenas labaredas pelo couro cabeludo. Dolores consumia o que restava da vida enclausurada em um manicômio público, a cabeça mergulhada em uma bacia com água e barras de gelo, que era para manter a temperatura sob controle, evitando que a cabeça evaporasse. Por fim, a última esposa, Josefa, o fez amargar a dor da traição. Incrédulo, viu quando a mulher amada partiu seduzida pelo motorista do caminhão pipa que ostentava no corpo um emaranhado de pulseiras e colares de latão batido que jurava ser ouro de puro quilate extraído de serra pelada. Desde então o coração enrijeceu e se fechou para o amor. Amargurado, João Siló vivia só como um ermitão, se ocupando do que mais gostava, do que verdadeiramente dava prazer naquela vida tão sofrida e arrastada, apresentar seu Mané Beiçudo, fazer seus bonecos endiabrados fartar o povo de alegria e prazer.

   Noivados e casamentos; comícios e reuniões políticas; inaugurações, festejos cívicos e atos populares; aniversários; batizados; e nem mesmo o dia reservado aos finados e os rituais fúnebres passavam ao largo da animança de João Siló e seu teatro de bonecos salientes.


   No funeral de Pedro Sarmento - o prefeito mais poderoso e popular do Nordeste - foi contratado pela família para fazer o brinquedo no portão central do Cemitério. O povo acorreu em massa para prestar os últimos sentimentos ao morto e as condolências à numerosa família. Deitavam sobre o caixão coroas de flores e lágrimas de despedida para depois seguirem, depressa, para a diversão, para o fuzuê que João Siló aprontava com os bonecos malcriados. Eram criaturas inertes que adquiriam vida própria, sem papas na língua, criticando os coronéis da política local, sapecando couro nos poderosos, soltando cobras e lagartos na polícia que reprimia e nas autoridades que corrompiam. Nem mesmo ao difundo, ainda quente na cova oficial, dava tréguas.

   Foi nessa apresentação que a vida de João Siló deu mais uma radical guinada, uma virada de cento e oitenta graus. Enquanto apresentava-se, manipulando com maestria os bonecos de luva, viu pelo ponto translúcido da empanada, de onde acompanhava os movimentos da platéia, a mulher que de forma definitiva arrebataria seu coração solitário e sofrido. Dentre os demais assistentes ressaltava formosa a bela Maria Patrícia, uma garota com traços angelicais que, compenetrada, divertia-se na primeira fila da plateia. Apesar de criança o corpo já apresentava a sensualidade de mulher formada. Não menos de trezentas pessoas firmavam pé se divertindo com as traquinagens dos bonecos. O titeriteiro servia-se da fresta, por onde monitorava a platéia, para colar os olhos na musa dos sonhos de todos os homens da região. E dedicando a ela se esmerou numa apresentação de duas horas de duração. Jamais se apresentara por tanto tempo e com tanto prazer e sucesso. A platéia aplaudiu em delírio minutos a fio. Todos imaginaram que a ousadia criativa do arrojado bonequeiro se devia à emoção da perda do perfeito-amigo, companheiro de todos. Mas o coração de João Siló, tão somente ele, compreendia as razões e os motivos para performance tão delicada e primorosa.


   Sem entender as razões e o instante, Maria Patrícia também foi se apaixonando por aquele invisível condutor de bonecos; se encantando pelo rosto que desconhecia; pelo corpo que a empanada, em clara cumplicidade, escondia. Mas a voz que fluía dos bonecos buliçosos era suficiente para entender que estava diante da alma gêmea, a que atravessaria a existência em sua companhia. De modo que quando, ao final do espetáculo, o homem emergiu suado por detrás da empanada, Patrícia não se espantou com seus cabelos grisalhos e nem com aquele corpo forte e calejado pela labuta e desatinos. Ao contrário, teve a certeza de que seus sonhos e premonições continuavam confiáveis.  Por muitos minutos ficaram inertes, pupilas cruzadas, palavra ou reação alguma a se interpor entre os dois. Sabiam um do outro e nada que dissessem ou fizessem seria mais forte que a comunicação única que ali se estabeleceu.

   Foi necessário que dona Santica saísse aos impropérios arrastando a filha de volta para casa. Mas foi o tempo de ajeitar na mala a barraca e os bonecos e lá foi o apaixonado bater à porta da casa dos Raimundo Nonato, à porta do castelo de seu amor platônico. Quando falou ao pai de Maria Patrícia do amor que explodira em ambos percebeu que teria pela frente uma disputa desigual. O velho Raimundo Nonato custou a acreditar no que ouvia. Imaginou ser mais uma lorota do filho mais velho, acossado pelo autismo que degenerava. Dando aos sobrolhos expressão de gravidade - por dentro irrompia em gargalhadas - por educação despachou a mulher para o quarto em busca da filha.

- Filhinha, o mestre do cassimiro coco afirma que se apaixonou por você e você por ele - disse o pai com dificuldades para segurar o riso que irrompia pelos poros da pele.


   Ávido por uma palavra da filha que tudo esclarecesse, e que reduzisse a cena às traquinagens do primogênito da cabeça perdida, o velho Raimundo Nonato percebeu a inesperada surpresa no ar. Sem esperar que o atencioso pai terminasse a frase e a menina Maria já estava com as pernas cruzadas nas cadeiras do titeriteiro, irradiando felicidade, cobrindo-o de beijos e carícias. Comportavam-se como conhecidos de décadas, assumindo na frente de todos uma intimidade só permitida aos oficialmente casados, aos abençoados pela santa madre igreja com papéis oficializados pelo cartório público. (Para completar a leitura do conto, clique aqui).




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Dramaturgo, o autor transferiu para seus contos literários toda a criatividade, intensidade e dramaticidade intrínsecas à arte teatral. 

São vinte contos retratando temáticas históricas e contemporâneas que, permeando nosso imaginário e dia a dia, impactam a alma humana em sua inesgotável aspiração por guarida, conforto e respostas. 

Os contos: 
1. Tiradentes, o mazombo 
2. Nossa Senhora e seu dia de cão 
3. Sobre o olhar angelical – o dia em que Fidel fuzilou Guevara 
4. O lugar de coração partido 
5. O santo sudário 
6. Quando o homem engole a lua 
7. Anos de intensa dor e martírio 
8. Toshiko Shinai, a bela samurai nos quilombos do cerrado brasileiro 
9. O desterro, a conquista 
10. Como se repudia o asco 
11. O ladrão de sonhos alheios 
12. A máquina de moer carne 
13. O santuário dos skinheads 
14. A sorte lançada 
15. O mensageiro do diabo 
16. Michelle ou a Bomba F 
17. A dor que nem os espíritos suportam 
18. O estupro 
19. A hora 
20. As camas de cimento nu 

OUTRAS OBRAS DO AUTOR QUE O LEITOR ENCONTRA NAS LIVRARIAS amazon.com.br: 

A – LIVROS INFANTO-JUVENIS: 
Livro 1. As 100 mais belas fábulas da humanidade 

I – Coleção Educação, Teatro & Folclore (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. O coronel e o juízo final 
Livro 2. A noite do terror 
Livro 3. Lobisomem – O homem-lobo roqueiro  
Livro 4. Cobra Honorato 
Livro 5. A Mula sem cabeça 
Livro 6. Iara, a mãe d’água 
Livro 7. Caipora 
Livro 8. O Negrinho Pastoreiro 
Livro 9. Romãozinho, o fogo fátuo 
Livro 10. Saci Pererê 

II – Coleção Infantil (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. Não é melhor saber dividir 
Livro 2. Eu compro, tu compras, ele compra 
Livro 3. A cigarra e as formiguinhas 
Livro 4. A lebre e a tartaruga 
Livro 5. O galo e a raposa 
Livro 6. Todas as cores são legais 
Livro 7. Verde que te quero verde 
Livro 8. Como é bom ser diferente 
Livro 9. O bruxo Esculfield do castelo de Chamberleim 
Livro 10. Quem vai querer a nova escola 

III – Coleção Educação, Teatro & Democracia (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. A bruxa chegou... pequem a bruxa 
Livro 2. Carrossel azul 
Livro 3. Quem tenta agradar todo mundo não agrada ninguém 
Livro 4. O dia em que o mundo apagou 

IV – Coleção Educação, Teatro & História (peças teatrais juvenis): 
Livro 1. Todo dia é dia de independência 
Livro 2. Todo dia é dia de consciência negra 
Livro 3. Todo dia é dia de meio ambiente 
Livro 4. Todo dia é dia de índio 

V – Coleção Teatro Greco-romano (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. O mito de Sísifo 
Livro 2. O mito de Midas 
Livro 3. A Caixa de Pandora 
Livro 4. O mito de Édipo. 

B - TEORIA TEATRAL, DRAMATURGIA E OUTROS
VI – ThM-Theater Movement: 
Livro 1. O teatro popular de bonecos Mané Beiçudo: 1.385 exercícios e laboratórios de teatro 
Livro 2. 555 exercícios, jogos e laboratórios para aprimorar a redação da peça teatral: a arte da dramaturgia 
Livro 3. Amor de elefante 
Livro 4. Gravata vermelha 
Livro 5. Santa Dica de Goiás 
Livro 6. Quando o homem engole a lua 

domingo, 28 de fevereiro de 2016

5 MOTIVOS PARA IR AO TEATRO

A sorte lançada, o conto dramático


Sua vez se aproximava e, à medida que os minutos corriam, a tensão aviltava. A fila curta, com poucas pessoas, inexplicavelmente parecia gigantesca porque em seus pensamentos a queria longa, distante, infindável. Os pés formigavam, as pernas ardiam, o rosto explodia em tiques nervosos que rompiam por toda a face. O suor escorria pelas costas; derretia a pasta de desodorante sob as axilas; tornava a parte mais íntima das roupas, úmidas; outras, era a impressão, já estavam literalmente encharcadas. Do estômago vinha até a boca uma massa quente de ar que depois retornava à barriga, e à boca, e de novo à barriga, e mais uma vez à boca, qual uma bola fazendo do interior do corpo uma quadra do esporte indesejado.

   Concentrava-se tentando manter a calma e a tranquilidade. Rememorava os exercícios de ioga que praticara quando adolescente. “São excelentes para o domínio do período pré-menstrual”, dizia a mãe. Recordava da sequência de laboratórios de teatro que procurava conformar no ator o absoluto controle sobre o corpo e as emoções. Mas o tempo voava como bólido, absoluto e intangível, dificultando qualquer medida de proteção, retirando as parcas possibilidades de controle, deixando um rastro de insegurança, aflição e medo.


   Quanto mais se percebia vulnerável mais se atracava à mala de fundo falso onde escondera o proibido, a mercadoria que a redimiria da vida erma e sem sentido que levava. Seria flagrada, descoberta, pega com a boca na botija? Seriam seus segredos violados, revirados, expostos no gancho, à vista de todos, como carne uivando no açougue? Sua máscara exalaria como fumaça escassa, fogo pequeno?

   Por instantes tentou pensar em outras coisas, navegar pelo passado distante, impor à imaginação novos assuntos. Mas a toada da fila, a proximidade cada vez maior dos agentes de segurança... A realidade esbofeteava seu rosto delicado com a virulência do azorrague. Mais alguns minutos e estaria, frente a frente, com seu destino. Luz verde ou vermelha? Prisão ou liberdade? Brisa amena das manhãs de praia ou o ar viciado e intragável do cárcere anunciado? Que tipo de futuro a espreitava ao final do corredor? Seria guinchada, parada para a revista? Ou consentiriam que flutuasse ilesa sobre aquele muro invisível e intransponível?


   A barriga deu de roncar. Primeiramente ensaiou a toada de um instrumento solo, mas logo entoou no compasso de um samba de breque. A cabeça tinia como um cone invertido sendo ferroado pelo badalo. Pensou que talvez fosse melhor sair correndo, fugir para lugar distante, abandonar o plano tão arriscado e radical. Com certeza haveria formas mais simples e menos perigosas de mudar a vida. Talvez fosse melhor voltar para o inferno de sua casa, de seu lar.  Não, não. Não daria tempo. Agora era tarde demais. Ocupava já a terceira posição na fila da revista e todos perceberiam caso rompesse em disparada, aeroporto afora. Agora já não havia escolha. Impossível dar o passo atrás. Seria tudo ou nada. O sucesso e o fracasso desenhavam os passos cavalgando, de mãos entrelaçadas, o mesmo segundo. Quem venceria a corrida? A vitória? A derrota? (Para continuar lendo, clique aqui.)


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sábado, 27 de fevereiro de 2016

O mensageiro do diabo, o conto


    O quarto mantido na mais absoluta escuridão impedia que John Idemas enxergasse um palmo à frente do nariz. Por isso agachou-se e ali ficou, quieto, sem mover pestana, aguardando o desfecho do julgamento que pressentia, o conduziria à morte certa.

   A escuridão lúgubre do cômodo ao menos facilitava desbravar os mares revoltos de seu passado errante. Mergulhava nas memórias mais distantes e remotas. Afundado nas trevas mais densas e espessas rememorava os anos vividos, as andanças pelo mundo, pelos continentes.

   Na infância foi buscar as recordações dos pais, as brincadeiras de mocinho e bandido, os jogos preferidos de desafios, batalhas, e guerras intercontinentais. Depois, na adolescência, o interesse pela história da KKK e das seitas ultra-direitistas do sul do país. Entreabriu um leve sorriso quando se lembrou de, já na universidade, atender ao chamado dos fuzileiros navais se alistando na marinha. O envolvimento com o serviço de inteligência, depois o serviço secreto, os cursos no FBI, na CIA, o memorável estágio na shabak.


   Com mais demora deixou-se divagar sobre o crime que o levara a fugir para a Europa. Na academia se apaixonara pela bela Janeth Stone que insistia em ignorá-lo, desdenhá-lo, tratá-lo com insolente desprezo. Numa noite escura, exercitando uma operação de resgate no deserto, aproveitou-se do isolamento e estuprou a colega de turma. Temendo a denúncia assassinou-a a coronhadas. Depois, com frieza e indiferença, decepou a cabeça e os dedos da formosa Stone diluindo-os numa mistura improvisada com diferentes tipos de ácido, eliminando as possibilidades de identificação pelas digitais e arcada dentária.

   Utilizando as técnicas de disfarces, evasão, e camuflagem, aprendidas nos cursos de espionagem, escapou ileso e cinco dias depois do crime estava no outro continente, apresentando-se na Legião francesa.

   A Legião Estrangeira abrigava todos que a procuravam sem as inconveniências de perguntas sobre a identidade e o passado dos aspirantes. A organização do governo francês empreendia o serviço sujo e ilegal que o exército regular estava impedido de realizar.  Treinava seus integrantes nas técnicas de guerra, assalto e guerrilha: exercícios de táticas e estratégias militares só suportáveis pelos fortes. Encaminhavam comandos para arriscadas operações em toda a parte do planeta para realizar o que fosse, proibidos questionamentos ou reflexões de caráter ético, legal ou moral. Em contrapartida, os que sobreviviam aos cinco anos de serviço militar em missões impossíveis obtinham nova identidade e a cidadania francesa. Era a redenção, o perdão por tudo o que de pior tivessem cometido no passado.


   Neste período Idemas foi deslocado para missões no oriente médio, na África e na América Latina. Foi quando percebeu um filão para enriquecer, um nicho poucas vezes explorado. Os conflitos nacionalistas locais e regionais - de fundo político ou religioso, ocorrendo simultaneamente nos diversos continentes - exigiam exércitos privados, combatentes mercenários, e justiceiros profissionais. A terceirização acabava de se estabelecer nas guerras entre os povos e as nações. 

   Ao dar baixa na Legião decidiu ganhar a vida como combatente das liberdades. Não saberia bem identificar o que significava aquela expressão, “combatente das liberdades”, mas gostou da sonoridade da frase aveludando os ouvidos. Convenceu trezentos e cinquenta colegas que integravam a Legião Estrangeira e outros renegados da CIA e do Mossad para, juntos, formarem um exército privado.

   Lembrou quando, em 1979, inaugurou os novos negócios vendendo seus serviços ao Pentágono. Foi lutar ao lado dos guerrilheiros islâmicos mujahidin no Afeganistão. Desde essa época sua fama de cruel e sanguinário ganhou o mundo. Após aprisionar os soldados russos, torturava-os com tamanha violência e furor que os jovens recrutas logo suicidavam, muitos se enforcando com as próprias mãos.


   É deste período que conheceu a jihad, a guerra santa de Osama bin Laden e Ayman al Zawahiri. Tornou-se homem de confiança do Taleban e um dos inspiradores da Al Qaeda. Quando expulsaram os russos fazendo do Afeganistão um país fundamentalista, conduziu seu exército privado à missões na Eritréia, Somália e Egito, sempre a soldo da organização ou governo que melhor remunerasse. Contratado pelo governo do Sudão, estruturou as milícias janjaweed e fez de Darfur sinônimo de inferno e genocídio. Os assassinatos, estupros e a política de “terra arrasada” levaram 1,5 milhões de pessoas a deixar suas casas; 50 mil foram mortas e 200 mil obrigadas a fugir para o Chade.(Para continuar lendo, clique aqui.



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Dramaturgo, o autor transferiu para seus contos literários toda a criatividade, intensidade e dramaticidade intrínsecas à arte teatral. 

São vinte contos retratando temáticas históricas e contemporâneas que, permeando nosso imaginário e dia a dia, impactam a alma humana em sua inesgotável aspiração por guarida, conforto e respostas. 

Os contos: 
1. Tiradentes, o mazombo 
2. Nossa Senhora e seu dia de cão 
3. Sobre o olhar angelical – o dia em que Fidel fuzilou Guevara 
4. O lugar de coração partido 
5. O santo sudário 
6. Quando o homem engole a lua 
7. Anos de intensa dor e martírio 
8. Toshiko Shinai, a bela samurai nos quilombos do cerrado brasileiro 
9. O desterro, a conquista 
10. Como se repudia o asco 
11. O ladrão de sonhos alheios 
12. A máquina de moer carne 
13. O santuário dos skinheads 
14. A sorte lançada 
15. O mensageiro do diabo 
16. Michelle ou a Bomba F 
17. A dor que nem os espíritos suportam 
18. O estupro 
19. A hora 
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Livro 6. Todas as cores são legais 
Livro 7. Verde que te quero verde 
Livro 8. Como é bom ser diferente 
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Livro 1. O mito de Sísifo 
Livro 2. O mito de Midas 
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VI – ThM-Theater Movement: 
Livro 1. O teatro popular de bonecos Mané Beiçudo: 1.385 exercícios e laboratórios de teatro 
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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Michelle ou A bomba F, o conto dramático


   Sempre me chamaram dengosa, manhosa, mas naquele dia me sentia de fato com um saco de preguiça pendurado às costas. Na realidade era puro arroubo e êxtase, não cabia de fascínio, gozo e contentamento. É que jamais, em tempo algum, havia estado em um veículo presidencial. Não que eu fosse uma cadela qualquer, uma frívola vira lata, dessas que se encontram aos milhares nos becos, esquinas, grotas, invasões e favelas. Nunca fui pouca coisa. Já havia experimentado todos os tipos de automóveis, do carro popular aos luxuosos blindados contra pobreza e bandidagem. Já curti soneca em automóveis particulares, sindicais, partidários e até – quer saber? - nos de uso exclusivo, restrito da Câmara Federal. Mas andar em carro presidencial, em carruagem do poder executivo, objeto do desejo de tantos, jamais poderia imaginar que tal prazer me fosse dado.

   E não é que o destino achou por bem sorrir para os meus costados oferecendo um tipo de privilégio reservado a uns poucos iluminados?


    Até pouco tempo atrás cheguei a imaginar que papai estivesse acometido de algum tipo estranho de insanidade, algo que beirasse a aleivosia, a demência ensandecida, pois que acalentava o sonho de, a qualquer custo, fazer morada no Palácio do Planalto. Tantas idas e vindas, figas e mandingas, tantas pequenas vitórias e monumentais reveses, três derrotas sucessivas, promessas para todos os gostos e fregueses; cheguei a qualificar sua obstinação como algo próximo ao profano, ao obsceno, impudico, ou ao jucundo e desvairado.

   Mas naquele dia, enquanto escalava o banco do carro presidencial, ia percebendo a grata satisfação de haver me enganado. Feliz e grato equívoco embalado por uma realidade que entoava singelos cânticos angelicais, como se num sonho povoado por fadas madrinhas e querubins. E a prova ia me certificando eu própria, presencialmente, desfrutando o prazer e o conforto de trafegar num veículo intangível até mesmo para as mais altas autoridades do país; o que falar então para os pobres e medíocres mortais - fosse gente, fosse cadela - como eu?



   Em minha estréia como passageira do seletíssimo clube não desfrutava do esplendor do Lincoln Town Car e nem da elegância aristocrática do Rolls-Royce Silver Wraith ano 1952. Ainda não era a hora. Mas pressentia, era uma questão de tempo. Apenas uma questão de tempo e nada mais. Logo estaria senhora de tudo e de todos. Por enquanto era simplesmente uma van, um utilitário bosta-rala que fazia às vezes de diligência presidencial. Um utilitário por demais comum e insípido para compor aquele cenário mágico de filme hollywoodiano. Mas o que de fato importava era que o veículo - independente de marca, modelo e ano - integrava a frota oficial da Presidência da República, com brasão, inscrições oficiais, e tudo o mais que a exclusividade assegurava. Sangue puro. Nenhuma relevância, portanto, o fato de ser conduzida num furgão dos mais insossos dentre os disponíveis no mercado. O fundamentalmente importante, de destaque e relevância, era que eu estava ali, de carne e osso, com todos os pêlos escovados, laço de fita vermelha no pescoço, sendo conduzida pela carruagem presidencial. Achei por bem me submeter a uma bateria de beliscões e pequenos tabefes provando a mim mesma que a realidade estava a prumo e que de forma alguma a deixaria escapar. Sim, tinha pleno domínio de minhas faculdades mentais, gozava de minha normalidade canina, meu juízo não me abandonara. Vivia uma realidade de sultão, não um sonho efêmero, passageiro. Sorvia uma realidade só permitida aos deuses e seus mensageiros, reis, xeiques, imperadores, presidentes, proprietários de mega-corporações transnacionais. (Para continuar lendo, clique aqui.)



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1. Tiradentes, o mazombo 
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5. O santo sudário 
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7. Anos de intensa dor e martírio 
8. Toshiko Shinai, a bela samurai nos quilombos do cerrado brasileiro 
9. O desterro, a conquista 
10. Como se repudia o asco 
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Livro 1. O mito de Sísifo 
Livro 2. O mito de Midas 
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B - TEORIA TEATRAL, DRAMATURGIA E OUTROS
VI – ThM-Theater Movement: 
Livro 1. O teatro popular de bonecos Mané Beiçudo: 1.385 exercícios e laboratórios de teatro 
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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A dor que nem os espíritos suportam, o conto.



-Você terá algumas semanas de vida, não mais que isso – falou com a voz tensa o Dr. Raul, os olhos fixos, severos, avançando na direção dos meus.

   A primeira reação foi imaginar que a cena em que involuntariamente atuava, quadro de um teatrinho de quinta categoria, não me destinava papel de protagonista. “Um pesadelo, sem dúvidas!”, imaginei certo que, ao findar da noite, a claridade do sol estaria me esbofeteando, afastando definitivamente o inferno que comprimia, garroteava todos meus poros e sentidos. Porém, os minutos cadenciando os ponteiros do relógio fixado à parede alertaram que nada ali era onírico. Os minutos gritavam: eu estava ali, bem ali, naquele terrível consultório onde imperava autoritariamente a cor branca. Que raios de impelir, até mesmo à decoração, uma ditadura de aprisionar as demais cores, um absolutismo de impedir a pluralidade, a diferença. Não havia como ignorar o fato de que eu estava mesmo no lugar errado, lamentavelmente com a pessoa errada, deploravelmente na pior das horas. Cruel destino, infame sina. Não, não era um sono, não era um efêmero pesadelo. Por mais difícil que fosse admitir, melhor dobrar às evidências. Era eu mesmo quem ali estava recolhido na poltrona branca, eu em pessoa; em carne, osso e espírito; sentado à frente de um oncologista impiedoso, destemperado, desumano. Como era o sujeitinho capaz de me dizer aquilo daquela forma, se valendo daquelas malditas palavras?! Indubitavelmente um demônio vestido de branco a me provocar, a me tentar com um diagnóstico tão fatídico, anunciando o final dos tempos, os últimos dias, o apocalipse. Por que deveria permanecer ali ouvindo a pior das previsões?, tendo que suportar a indiferença dos ponteiros do relógio que seguiam em seu movimento circular como se nada de anormal estivesse acontecendo. 


   Então, ante a impossibilidade de ignorar a realidade, recorri à raiva, ao ódio, ao rancor que nos trinta e seis anos de vida idolatrei, cultuei. Especialmente nos momentos de incertezas e desespero. Sim, acumulei em algum lugar ignorado do cérebro toda a raiva que aprendi a reverenciar. A raiva pelas brigas e disputas em que invariavelmente levava a pior; sempre foi assim, desde a infância; a raiva pela insegurança onipresente, pelo corpo magro e disforme; o ódio pela juventude deslocada - como um peixe fora d’água, sempre me imaginei diferente dos demais - o rancor pelos fracassos na vida amorosa, profissional; toda essa raiva lapidei destilando-a repetidas vezes, gota a gota, até encontrar seu estado mais puro e elevado... Embrulhada para presente encontrou guarida em meu coração errante.



   Mas toda aquela raiva não fez esvair de minha frente o olhar severo e grave do Dr. Raul. Continuava mirando, seus dois olhos argutos e agressivos bombardeando mísseis e torpedos em minha direção, ininterruptamente, como se quisesse implodir minha força interior, a vontade férrea e inamovível de não dar crédito ao que ouvia, no que os exames emprestavam tanta evidência. (Para continuar a ler, clique aqui.)



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Dramaturgo, o autor transferiu para seus contos literários toda a criatividade, intensidade e dramaticidade intrínsecas à arte teatral. 

São vinte contos retratando temáticas históricas e contemporâneas que, permeando nosso imaginário e dia a dia, impactam a alma humana em sua inesgotável aspiração por guarida, conforto e respostas. 

Os contos: 
1. Tiradentes, o mazombo 
2. Nossa Senhora e seu dia de cão 
3. Sobre o olhar angelical – o dia em que Fidel fuzilou Guevara 
4. O lugar de coração partido 
5. O santo sudário 
6. Quando o homem engole a lua 
7. Anos de intensa dor e martírio 
8. Toshiko Shinai, a bela samurai nos quilombos do cerrado brasileiro 
9. O desterro, a conquista 
10. Como se repudia o asco 
11. O ladrão de sonhos alheios 
12. A máquina de moer carne 
13. O santuário dos skinheads 
14. A sorte lançada 
15. O mensageiro do diabo 
16. Michelle ou a Bomba F 
17. A dor que nem os espíritos suportam 
18. O estupro 
19. A hora 
20. As camas de cimento nu 

OUTRAS OBRAS DO AUTOR QUE O LEITOR ENCONTRA NAS LIVRARIAS amazon.com.br: 

A – LIVROS INFANTO-JUVENIS: 
Livro 1. As 100 mais belas fábulas da humanidade 

I – Coleção Educação, Teatro & Folclore (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. O coronel e o juízo final 
Livro 2. A noite do terror 
Livro 3. Lobisomem – O homem-lobo roqueiro  
Livro 4. Cobra Honorato 
Livro 5. A Mula sem cabeça 
Livro 6. Iara, a mãe d’água 
Livro 7. Caipora 
Livro 8. O Negrinho Pastoreiro 
Livro 9. Romãozinho, o fogo fátuo 
Livro 10. Saci Pererê 

II – Coleção Infantil (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. Não é melhor saber dividir 
Livro 2. Eu compro, tu compras, ele compra 
Livro 3. A cigarra e as formiguinhas 
Livro 4. A lebre e a tartaruga 
Livro 5. O galo e a raposa 
Livro 6. Todas as cores são legais 
Livro 7. Verde que te quero verde 
Livro 8. Como é bom ser diferente 
Livro 9. O bruxo Esculfield do castelo de Chamberleim 
Livro 10. Quem vai querer a nova escola 

III – Coleção Educação, Teatro & Democracia (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. A bruxa chegou... pequem a bruxa 
Livro 2. Carrossel azul 
Livro 3. Quem tenta agradar todo mundo não agrada ninguém 
Livro 4. O dia em que o mundo apagou 

IV – Coleção Educação, Teatro & História (peças teatrais juvenis): 
Livro 1. Todo dia é dia de independência 
Livro 2. Todo dia é dia de consciência negra 
Livro 3. Todo dia é dia de meio ambiente 
Livro 4. Todo dia é dia de índio 

V – Coleção Teatro Greco-romano (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. O mito de Sísifo 
Livro 2. O mito de Midas 
Livro 3. A Caixa de Pandora 
Livro 4. O mito de Édipo. 

B - TEORIA TEATRAL, DRAMATURGIA E OUTROS
VI – ThM-Theater Movement: 
Livro 1. O teatro popular de bonecos Mané Beiçudo: 1.385 exercícios e laboratórios de teatro 
Livro 2. 555 exercícios, jogos e laboratórios para aprimorar a redação da peça teatral: a arte da dramaturgia 
Livro 3. Amor de elefante 
Livro 4. Gravata vermelha 
Livro 5. Santa Dica de Goiás 
Livro 6. Quando o homem engole a lua