domingo, 19 de outubro de 2014

Dialogando com Camões, Shakespeare e Vianinha


Pirandello

Por que não aprender com os melhores professores, sorver o que de melhor a humanidade conseguiu produzir, se deleitar com os mais expressivos escritores da dramaturgia universal?

Chegar à fonte e saciar a sede com água límpida e cristalina é uma possibilidade real e plenamente possível. Está ao alcance de todos que queiram.

E o caminho não passa por uma floresta fechada e indevassável. Ao contrário. A estrada já está desbravada, é larga, plana e arejada. Para começar, para dar os primeiros passos, nada melhor que se familiarizar com os escritores mais recentes. Mas no caminhar, o natural é adentrar no tempo, mergulhando no passado para desbravar a genuína história.

Nossa jornada se dará dentre compêndios e coleções de livros. Sim, em uma boa biblioteca estão disponíveis os grandes gênios da dramaturgia universal. Estão todos lá, ávidos, ansiosos para nos conhecer, trocar idéias, nos inspirar... Basta acomodar em uma cadeira para gozar os prazeres de uma boa conversa, uma deliciosa prosa com Ibsen, Pirandello, Moliére, Ionesco, Beckett, Shakespeare. E também com os clássicos gregos como Ésquilo, Sófocles, Aristófanes. Acredite, não há quem não se surpreenda com os romanos Plauto e Terêncio. Um caminho conduz a uma descoberta que remete a outra, e mais outra, numa sucessão infindável, de modo que parar, interromper o processo, é decisão impossível de adotar. Resta então uma só alternativa, a única possível: caminhar, continuar, aprofundar a investigação, dar vazão à sede de conhecimento. Num remanso do mar, logo desperta a possibilidade de navegar com os grandes da literatura de língua portuguesa: Gil Vicente, Luís Vaz de Camões, padre José de Anchieta, Antônio José da Silva - o Judeu, Martins Pena, José de Alencar, Artur de Azevedo, Joracy Camargo, Oduvaldo Vianna, Nelson Rodrigues, Guarnieri.

Shakespeare

Mas atenção, alto lá! Agora não basta ler, não tão somente, não simplesmente. É uma fase que ficou para trás. Mais que a leitura precursora e superficial, o estudo é a nova palavra de ordem, o ente capaz de assegurar profundidade: esquadrinhar cada texto, cada peça teatral, desbravando suas entranhas, compreendendo suas minúcias. Com redobrada atenção e a perspicácia de um exímio cirurgião trata-se de verificar a estrutura das tramas, a forma como as idéias são enlaçadas, como o perfil psicológico de cada personagem é elaborado e de que modo se relaciona com os demais, que mecanismos o autor utiliza para fazer com que as cenas, quadros e atos interajam entre si, assegurando continuidade à estória, como trabalha a relação tempo-espaço cênico,...

Lidaremos com os escritores de peças teatrais, mas também com os grandes teóricos, os magistrais encenadores, precursores, desbravadores dos caminhos trilhados pelo teatro e pela dramaturgia. Nosso universo se ampliará, ganhará nova dimensão. Conhecendo as técnicas desenvolvidas por Aristóteles, pela Commedia dell’Arte, por Artaud, Stanislavski, Brecht, Meyerhold, Grotowski e outros exímios encenadores, estaremos mergulhando no que de mais profundo existe no teatro, estaremos aprimorando as habilidades do dramaturgo.

Para acessar os textos é necessário adquirir este novo hábito, o de freqüentar as bibliotecas, livrarias, clubes de livros,... sem descartar os sebos. Certa dose de paciência para procurar e a recompensa torna-se inevitável. Não é raro se deparar com preciosidades no comércio de livros usados. Outro bom costume é recorrer aos amigos, conhecidos, professores, pesquisadores, escritores, estruturando uma rede de fornecedores de conteúdos, sem dar espaço para que a vergonha e a inibição impeçam de solicitar emprestado. E devolver – sempre, inexoravelmente – no estado e prazo anteriormente acordado, condicionantes que devem ser assumidas como cláusulas pétreas, compromissos inquebrantáveis.

Nelson Rodrigues
Também a rede mundial de computadores é excelente alternativa. Na internet encontramos enorme variedade de dados e informações. E são tantos que, às vezes, a dificuldade é separar joio do trigo, lixo do que efetivamente importa e nos interessa. Alternativas não faltam. O fundamental é que este novo hábito seja incorporado à nossa rotina: o hábito de ler, estudar e aprender com os clássicos da dramaturgia universal.

Antônio Carlos dos Santos, criador da metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e da tecnologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Cultura, Educação & Teatro Popular


O teatro Mané Beiçudo se nutre de cultura popular. Mas não a enxerga com o olhar enviesado dos idealistas ingênuos, dos que a definem como “um conjunto de tradições” ou como “expressão autônoma do temperamento do povo”.

O que comumente se denomina ‘cultura popular’ está impregnado dos valores, paradigmas e estética disseminados pela mass mídia. De modo que a “criação espontânea do povo”, a “memória convertida em arte” apenas expressa e reforça os ideários homogêneos dos setores dominantes. E como é característico da lógica econômica que permeia todo o pensamento globalizado, tudo é estandardizado e pausterizado. E as famílias, a escola, os meios de comunicação, as instituições tratam de assegurar e referendar o stablisment.

No Teatro Mané Beiçudo a cultura é situada mais como um instrumento que possibilita trabalhar a realidade, desnudando-a, entendendo-a, para que se possa reproduzi-la ou reprocessá-la, de modo a obter – sempre – um dia melhor que o anterior.

Em seus “Escritos sobre teatro”, Bertolt Brecht escreve:

“Popular é o que as grandes massas compreendem
o que documenta e enriquece a sua forma de expressão
é o que incorpora e reafirma o seu ponto de vista
é aquilo que é tão representativo da parte mais progressista do povo, que pode se encarregar da sua direção e tornar-se também compreensível para os demais setores sociais
é o que, partindo da tradição, a leve adiante (...)”.

As políticas públicas atuam no sentido de assegurar a supremacia do mercado, que dá à cultura popular outras formas e significados. A aposta é na expansão do turismo e na afirmação dos princípios ideológicos. Neste sentido, o Teatro Mané Beiçudo – TMB - é plena reação, antítese e contraponto. Insurge-se contra o status quo procurando criar espaços onde a diversidade cultural seja possível, se manifestando com seus múltiplos e ricos conflitos, em toda a sua intensidade; por que é desta relação que a cultura local encontra campo para se afirmar.

Daí que o conceito de participação comunitária no TMB caminha de forma indissociável das condições objetivas para que esta participação se efetive na prática, no dia a dia. E só a educação pode estabelecer esta ligação e responder a este desafio. Não basta, portanto, simplesmente instituir e abrir canais de comunicação e participação. Em países onde as desigualdades latejam como no Brasil, estas iniciativas apenas conduzem à cooptação de lideranças comunitárias, ao emparelhamento dos órgãos colegiados e das organizações da sociedade civil, ao mesquinho populismo político. Tão importante quanto institucionalizar os canais de participação comunitária é assegurar condições para que a população a exercite. E sem a universalização da educação de qualidade, tudo isto se dilui na efemeridade de um sonho fugaz e passageiro.

Portanto, o grande desafio é garantir educação de qualidade para todos. Não sendo assim, a comunidade estará determinada a reprocessar a realidade sempre à luz dos interesses alheios. E o pior: imaginado que o faz à luz de seus próprios interesses.

Para se obter uma participação consentânea com as reais necessidades, a população deve se apropriar do saber, do conhecimento, da capacidade de exercer a reflexão crítica,... Só assim terá condições de acessar os códigos capazes de desvendar os enigmas propositalmente mantidos indecifráveis, códigos escondidos em cofres que pretendem indevassáveis.

Antônio Carlos dos Santos é professor da Universidade Estadual de Goiás, criador das tecnologias Quasar K+ de Planejamento Estratégico e da metodologia de produção de teatro popular de bonecos Mané Beiçudo.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Meu reino por um conflito


Conflito é o choque, o enfrentamento entre duas forças que mutuamente se excluem.

Ao observarmos a trajetória da humanidade verificamos que o conflito encontra-se no epicentro do movimento evolucionista.

Quando o homem das cavernas sentia fome e encontrava-se diante da necessidade de sair em busca de comida, não experimentava um conflito? Provavelmente raciocinava assim: “se não comer, morro de fome. Se vou à caça estarei sujeito às feras, às condições inóspitas e às intempéries. Serei capaz de suportar mais algumas horas sem alimentar ou devo partir para a caçada imediatamente? (...). São dúvidas que traduzem uma variedade de conflitos.

E o homem contemporâneo não experimenta conflitos no seu dia a dia, do instante em que acorda até o momento em que se recolhe para dormir? O trânsito caótico, a concorrência predatória no local de trabalho, a qualidade de ensino no local de estudo, as relações com os filhos e a esposa no lar, a decisão de assistir à um filme ou à uma peça de teatro, as discussões com o vizinho ... Enfim, existe alguma coisa na vida que não possa ser expressar através de um conflito?

Em psicologia o conflito emerge diante da necessidade de proceder uma escolha entre situações que poderiam ser categorizadas como incompatíveis.
Dessa forma, todas as situações de conflito levariam a um ambiente de antagonismo, impactando a ação ou a tomada de decisão por parte do indivíduo ou do grupo social.

Já em algumas escolas da sociologia, o conflito é visto “como o desequilíbrio de forças do sistema social (...)”.

Pois assim como o conflito é uma das forças motrizes que alavanca o desenvolvimento humano, também é o conflito a mola propulsora que dá movimento e sustentabilidade ao teatro.

O texto teatral deve sempre girar em torno de um grande conflito, podendo existir sub-conflitos em seu interior: esta é a lei primeira, a regra de ouro da dramaturgia.

Podemos ter uma variedade de tipos de conflitos:

a) psicológico,
b) existencial,
c) emocional,
d) social,
e) econômico,
f) político,
g) agrário,...


A existência de uma força contrária, impedindo que a personagem central conquiste seus objetivos é que gera o conflito. Daí os termos protagonista e antagonista. O que experimenta o conflito, o que assume a condição de personagem principal é o protagonista (proto: primeiro; gonia: ação). Já o personagem que corporifica a força contrária é o antagonista (anto: contra).

Portanto, ao se deparar com a necessidade de escrever uma peça teatral para melhor mobilizar seus alunos, cuide de identificar e esclarecer o conflito que será explorado. Estude-o com profundidade, lance luzes sobre todas as suas facetas, desvelando-o inteiramente. Fazendo assim, as demais fases do processo, as demais etapas da dramaturgia, se sucederão naturalmente, como que obedecendo à lei da gravidade.

Na peça Ricardo III, Shakespeare relata o drama do rei que, ao perder o cavalo na batalha de Bosworth, grita desesperadamente: “Um cavalo, um cavalo, meu reino por um cavalo!”. O dramaturgo eficaz procura um bom conflito como o garimpeiro o ouro. Por isto não seria estranho escutá-lo a suspirar: “Um conflito, um conflito, meu reino por um conflito!”.

Antônio Carlos dos Santos, criador da metodologia Quasar K+ de Planejamento Estratégico e da tecnologia de produção do teatro popular de bonecos Mané Beiçudo.