terça-feira, 17 de julho de 2018

As lições de Malala no país da ignorância


A paquistanesa Malala Yousafzai completou 21 anos na quinta-feira, 12. Nos dias que precederam seu aniversário, a pessoa mais jovem laureada com o Nobel da Paz visitou o Brasil pela primeira vez. Por aqui, ela ressaltou a urgência de iniciativas que valorizem a educação e os direitos das mulheres. 'A educação é o melhor investimento sustentável em longo prazo', afirmou, ao discursar em São Paulo, na segunda-feira 9. No dia seguinte, a ativista que tinha apenas 15 anos quando foi baleada por integrantes do Talibã por ter se posicionado contra a proibição do ensino para meninas no Paquistão, esteve em Salvador, na Bahia. Além de visitar o Pelourinho, ela anunciou que três brasileiras integrarrão a Rede Gulmakai, braço do Fundo Malala dedicado a promover a educação de meninas.

A rede já conta com ações semelhantes no México, Afeganistão, Líbano, Índia, Nigéria e Turquia, além do próprio Paquistão. Malala também afirmou que irá anunciar um projeto global para que a educação seja prioritária nas campanhas eleitorais. No Brasil, o tema tem sido relegado a um plano secundário nos programas dos pré-candidatos. Não deveria. O País que nunca recebeu um Nobel precisa acordar para a lição da mais jovem ganhadora do prêmio. A educação é o maior problema brasileiro pois dela derivam os demais. Ao incapacitar os cidadãos intelectualmente, produzimos intolerância e violência, criamos eleitores que se deixam iludir facilmente e condenamos o País ao eterno atraso.

Há um mês, o monitoramento do Plano Nacional de Educação (PNE), feito pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), traçou um diagnóstico do caos no ensino público. Das 20 metas estabelecidas pelo PNE para o período de 2014 a 2024, apenas uma foi alcançada: houve aumento no número de mestres e doutores no ensino superior. Entre as outras 19, o quadro é alarmante. Há casos em que os índices retrocederam, como no item 'desempenho da aprendizagem'.

A meta é chegar a 2024 com todas as crianças alfabetizadas até o fim do terceiro ano do Ensino Fundamental. Em 2014, esse índice era 56%. Caiu para 55% em 2017. A mulher que sobreviveu a um atentado por defender o direito à educação em

um país dominado pela intolerância religiosa tem muito a ensinar aos brasileiros. A maior lição que podemos aprender com Malala é que, se continuarmos tão mal na educação, não haverá futuro. Apenas trevas.

Educação ruim gera intolerância e violência, produz eleitores que se deixam enganar e condena o País ao eterno atraso

Revista Isto É

Teatro completo




segunda-feira, 16 de julho de 2018

Mais de 60 anos depois, EUA reabrem investigação sobre assassinato que chocou o país

Emmett Till visitava a família no Mississippi quando foi brutalmente assassinado

Quando a mãe do adolescente americano Emmett Till, Mamie, exigiu que o filho fosse velado em um caixão aberto, ela queria que a imagem do corpo mutilado e irreconhecível do jovem negro de 14 anos despertasse o público para a violência racial que assolava os Estados Unidos.
O linchamento de Till, em 1955, ainda hoje é considerado um dos crimes mais chocantes do país. Milhares de pessoas acompanharam seu funeral, e fotografias de seu rosto desfigurado percorreram o mundo, geraram protestos e ajudaram a galvanizar o movimento pelos direitos civis.
Os dois homens brancos acusados de sequestrar, torturar e matar Till foram absolvidos, e mesmo após confessarem o assassinato em uma entrevista posterior, morreram sem nunca terem sido condenados.
Agora, mais de seis décadas depois, o governo americano reabriu as investigações sobre o caso.
Em relatório entregue ao Senado em março, mas divulgado somente nesta semana, após reportagem da agência de notícias AP, o Departamento de Justiça revelou as investigações devido ao surgimento de "novas informações".
O relatório não fornece detalhes sobre as novas pistas, e o Departamento de Justiça afirma que não vai comentar o caso por causa da investigação em andamento. Mas, segundo um livro publicado no ano passado, a mulher no centro do episódio que desencadeou o crime mudou sua versão dos fatos e confessou ter mentido sobre o que ocorreu.

Linchamento

Nascido e criado em Chicago, Till viajou em 1955 para visitar familiares em Money, pequena cidade na zona rural do Mississippi, Estado no sul do país que na época mantinha rígidas leis de segregação racial.
Em 24 de agosto daquele ano, três dias após chegar à cidade, ele foi a um mercado local comprar balas. A mulher do proprietário, Carolyn Bryant, que é branca e tinha 21 anos na época, acusou Till de ter assobiado, falado obscenidades e a agarrado pela cintura.

Quatro dias depois, o marido de Carolyn, Roy Bryant, e seu meio-irmão, J.W. Milam, entraram na casa onde Till estava hospedado e o arrancaram da cama no meio da madrugada.
O adolescente foi brutalmente espancado e torturado antes de levar um tiro na cabeça. O corpo foi jogado em um rio e encontrado três dias mais tarde.
Linchamentos de negros não eram incomuns no sul dos Estados Unidos na década de 1950 e raramente eram punidos.
Segundo dados da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), uma das mais influentes organizações de direitos civis do país, entre 1882 e 1968 foram registrados 4.743 linchamentos. Em 3.446 deles, as vítimas eram negras. Entre as vítimas brancas, muitas foram linchadas por ajudar negros.

Nova versão

Roy Bryant e Milam foram acusados do crime, mas rapidamente absolvidos por um júri composto apenas de homens brancos.
Meses depois, em entrevista a uma revista, ambos confessaram o assassinato e disseram que sua intenção era apenas assustar Till e colocá-lo "em seu lugar", mas que o jovem reagiu com insolência. "O que mais poderíamos fazer?", questionou Milam.
Milam morreu em 1980 e Bryant em 1994, sem nunca terem sido condenados.
Em 2008, após décadas de silêncio, Carolyn Bryant, agora usando o sobrenome Donham, deu uma entrevista ao historiador Timothy Tyson em que contradisse seu testemunho no caso e negou que Till tenha feito avanços verbais ou físicos contra ela.
"Essa parte não é verdade", disse ela, segundo Tyson. "Nada do que aquele menino fez jamais poderia justificar o que aconteceu com ele."
A entrevista só foi revelada no ano passado, quando Tyson publicou o livro The Blood of Emmett Till ("O Sangue de Emmett Till", em tradução livre) e gerou especulações de que Carolyn deveria responder por sua participação no crime.
Esta não é a primeira vez que o caso é reaberto. Em 2004, o Departamento de Justiça retomou as investigações para determinar se havia outros envolvidos. O corpo de Till chegou a ser exumado, mas o caso não foi levado adiante.

Reações

Familiares de Till disseram que a notícia da nova decisão do Departamento de Justiça é "maravilhosa", mas não quiseram comentar para não prejudicar as investigações.
O ativista de direitos civis Jesse Jackson reagiu pelo Twitter: "Em memória de #EmmettTill e milhares de outros homens, mulheres e crianças negras linchados, nós devemos finalmente aprovar uma lei antilinchamento", disse.
Três senadores negros apresentaram recentemente um projeto de lei para classificar linchamentos como crime federal. Segundo os parlamentares, mais de 200 propostas do tipo foram apresentadas na primeira metade do século passado, sem sucesso.
Um projeto semelhante foi introduzido na Câmara no último mês pelo deputado Bobby Rush, que representa o distrito onde Till está enterrado. No ano passado, após a publicação do livro, Rush pediu ao secretário de Justiça, Jeff Sessions, que reabrisse o caso.
"Estou feliz em ver o governo federal dar prosseguimento a este pedido. Este caso não é apenas criticamente importante pelo papel que teve em desencadear o movimento de Direitos Civis, mas para que Emmett e sua família recebam a justiça que lhes é devida. É vital que todos - tanto vítimas quanto autores - saibam que crimes hediondos dessa natureza nunca permanecerão impunes", disse Rush em comunicado nesta quinta-feira.

Gesto simbólico

No entanto, alguns consideram a reabertura das investigações, tantas décadas depois, um gesto apenas simbólico e que ignora a violência racial ainda presente no país, especialmente em casos de brutalidade policial contra negros.
"O secretário Sessions já deixou claro que não tem intenção de levar adiante as investigações sobre violência e discriminação policial contra negros que foram iniciadas durante o governo de Barack Obama", disse à BBC Brasil o historiador Matthew Countryman, professor da Universidade de Michigan.
"Com isso, o Departamento de Justiça se posiciona como preocupado com violência racial no passado, enquanto não age para resolver a violência no presente."
Por Alessandra Corrêa, na BBC


Teatro completo



domingo, 15 de julho de 2018

Cem anos de Ingmar Bergman, ícone do cinema

Bergman em 1981, no set de filmagem de "Fanny e Alexander"

Muitos consideram Ingmar Bergman o maior diretor de cinema do século 20. Para que isso ficasse oficialmente registrado, em 1997 o Festival Internacional de Cinema de Cannes concedeu ao sueco um prêmio especial: a "Palma de todas as Palmas".
Isso equivalia a nada menos do que consagrá-lo como "o melhor diretor de todos os tempos". É claro que tais superlativos são questionáveis, porém confirmam o cineasta como um dos mais importantes pioneiros da história da sétima arte.
Workaholic  por trás das câmeras e no palco
Nascido em 14 de julho de 1918 em Uppsala e morto em 2007 na ilha sueca de Faroe, Bergman deixou uma obra imensa. Entre 1946 e 2003, dirigiu numerosos filmes, especialmente para a grande tela.
Desde cedo, porém, ele também experimentou com o formato menor para a televisão, e conta entre os diretores teatrais mais importantes da Europa. E ele escrevia: memórias, diários, e é claro, roteiros – um enorme volume de texto, enfim, ainda não totalmente desbravado.
Seus filmes ganharam inúmeros prêmios, em festivais europeus e também nos Estados Unidos, onde ele recebeu três Oscars. Não é nenhum segredo que muitos diretores das gerações posteriores adoravam o sueco, tentando repetidamente imitá-lo. Entre seus fãs, o mais famoso é Woody Allen. O americano, mais conhecido como diretor de comédias melancólicas, tem dois dramas à la Bergman: Setembro  e A outra.
Arte, mulheres: um campo de batalha
O sueco não tinha fãs somente no mundo do cinema: representantes de outros setores culturais também não lhe pouparam elogios. A recém-publicada nova edição alemã de suas memórias, Laterna Magica – Ingmar Bergman: Mein Leben, foi prefaciada pelo Prêmio Nobel de Literatura Jean-Marie Gustave Le Clézio.
O romancista francês resume assim o cerne da arte bergmaniana: "Bergman é um ser humano livre de moral, ou melhor, não sociável, e apenas a convivência com as mulheres que ele escolhe lhe proporcionam um ofício, um amparo – um conteúdo existencial."
Bergman e as mulheres: esse é também um capítulo à parte, sobre o qual muito se escreveu. O sueco teve várias esposas, casos amorosos, parceiras, muitas vezes simultaneamente. Bergman também fez dessas relações tema do filme de sua vida. "Possivelmente porque a arte era para ele esse tecido de mentiras, ciumeiras, jogos eróticos e dramas meio engraçados e meio trágicos que a inteligência lúcida produz", analisa Le Clézio, "um tecido que é como um campo de batalha, em que não se conquista nada, mas se registra tudo."
Mestre da imersão psicológica
Em seus filmes, Bergman encenava esse campo de batalha das emoções com uma intensidade muitas vezes insuportável, sem poupar os espectadores. Ele foi um dos primeiros a mostrar e abordar erotismo e sexualidade com uma liberdade sem precedentes.
E associou esses mundos emocionais humanos às questões relativas ao sentido da vida. Doença e morte, a busca de Deus e se a religião pode realmente ser uma ajuda honesta para o ser humano: tudo isso inquietava o cineasta constantemente.
Só bem mais tarde ficou claro que Ingmar Bergman também fazia de sua vida uma obra de arte. O diretor de tantas obras-primas inesquecíveis sabia muito bem se autoencenar. O que ele escrevia era sua visão das coisas. Pouco se sabe que outros, seus atores e numerosos membros de equipe, tenham chegado a conclusões diferentes, perspectivas contrastantes.
Por trás da fachada, um novo Bergman?
O documentário Bergman – A year in a life  (Um ano em uma vida), da também sueca Jane Magnusson, lançado em Cannes, em maio, apresentou alguns resultados surpreendentes. Por exemplo, a relação do sueco com o nazismo, que ele louvou por muito tempo. Ou o olhar sobre sua infância e juventude, que ele destrinchou em muitos de seus filmes e tantas vezes tematizou.
Essa visão, conclui Magnusson, era bastante subjetiva e – da perspectiva dos familiares de Bergman – provavelmente de uma distorção grosseira. Portanto, aquilo que o diretor dizia sobre sua vida e trabalho deve ser tratado com cautela. O que não diminui, no entanto, o poder artístico de seus filmes.
Deutsche Welle

Teatro completo



sábado, 14 de julho de 2018

Álbum póstumo de Tom Petty com 60 músicas será lançado em setembro


Os herdeiros de Tom Petty anunciaram nesta quarta-feira que no próximo dia 28 de setembro será lançada "An American Treasure", uma caixa especial com música inédita do famoso roqueiro falecido em 2017, aos 66 anos.
Os familiares de Petty afirmaram em um comunicado que "An American Treasure" contará com 60 canções, incluindo gravações inéditas, versões alternativas de músicas já conhecidos, raridades e interpretações ao vivo.
O primeiro single de "An American Treasure" é "Keep a Little Soul", música que foi lançada hoje e gravada em 1982 como parte das sessões de gravação do disco "Long After Dark" de Tom Petty & The Heartbreakers.
"Todos os envolvidos neste projeto escolheram cada canção com um tremendo cuidado e com profundo respeito pela obra que Tom Petty criou durante 40 anos", disseram Adria Petty, filha do artista, e Dana Petty, viúva do roqueiro.
"Estamos ansiosos para compartilhar com os fãs de Tom este retrato musical de um artista que influenciou permanentemente a vida de seus fãs em todo o mundo", completaram.
Petty, que morreu no dia 2 de outubro de 2017, em Los Angeles, foi uma figura fundamental do rock americano graças a memoráveis discos como "Tom Petty & the Heartbreakers" (1976), "Damn the Torpedoes" (1979), "Full Moon Fever" (1989) e "Wildflowers" (1994).
A autópsia afirmou que o músico faleceu por uma overdose de opiáceos.

EFE

Teatro completo