segunda-feira, 30 de junho de 2014

A irreverência do Teatro de Bonecos Mané Beiçudo


Na idade média, um tipo de teatro diferente ganhou os paises do oriente e do continente europeu.

Originalmente era um teatro que se circunscrevia aos limites impostos pelas autoridades religiosas. As peças retratavam motivos bíblicos e objetivavam a catequese e o reforço dos valores da moral vigente.

À medida que os artistas foram rompendo os laços com as elites dominantes, se distanciando dos temas da ortodoxia religiosa e incorporando nas peças a crítica ao sistema estabelecido, passaram a ser sistematicamente perseguidos e censurados.

Se antes o mecenato possibilitava uma vida tranqüila para os artistas, com o novo cenário tiveram que encontrar outras alternativas para a sobrevivência. E encontraram no seio do povo. Recorreram então às apresentações em feiras e praças públicas, sobrevivendo à custa das contribuições da população.

Este foi um movimento que percorreu praticamente todos os países. Diversas características comuns situavam essas manifestações teatrais nacionais numa mesma escola, encerrando uma mesma categoria. Assim, quase que simultaneamente, em diversos países do mundo, um gênero de teatro de bonecos se consolidou:



• era um teatro eminentemente popular;
• contrapunha a escassez de recursos técnicos com a expressividade encantadora dos bonecos;
• para contrabalançar as pesadas críticas às autoridades constituídas e ao sistema – sempre mordazes, ferinas e contundentes – lançavam mão de fortes doses de humor e irreverência;
• a espontaneidade e a improvisação foram definidos como marcos estruturais dos enredos.


Na Itália tivemos o Polichinelo e seu antecessor, o Maceus; na Alemanha, o Kasper; na Inglaterra, o Punch; na França, o Guinhol; na Espanha, o Cristóvam; na Grécia, o Atalanas; na Turquia, o Karagóz; na Rússia, o Pretuska; em Jawa, o Wayang; nos estados do nordeste brasileiro o João Redondo, o Babau, o Mamulengo (dentre outros), e em Goiás, no Tocantins e na região central do país, temos o Mané Beiçudo.


Naturalmente que as diferentes culturas e nacionalidades emprestaram características próprias a esse teatro, mas a irreverência, a crítica mordaz, a improvisação e o humor agressivo compõem quase que invariavelmente a coluna vertebral do gênero.

Se os componentes presentes na arte medieval italiana aproximam os teatros populares brasileiros, um componente diferencia o Mané Beiçudo dos demais: a utilização do planejamento como ferramenta para a produção artística, mas também como instrumento para que a comunidade intervenha em sua realidade objetiva, modificando-a para melhor.

Antônio Carlos dos Santos - criador da metodologia de produção do Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo e da tecnologia de Planejamento Estratégico Quasar K+.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O teatro de bonecos no Brasil



É impossível precisar quando ocorreram as primeiras manifestações de teatro de bonecos entre nós. Como - quando do descobrimento do Brasil - a Europa já experimentava o teatro de bonecos, supõe-se que tenha sido trazido pelo colonizador português.

No ano de 1932 o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro publicou o trabalho “O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis”, de Luiz Edmundo. Nesta obra o autor assinala o século XVIII como uma época de nossa história em que o Teatro de Bonecos atuava como elemento de substituição para a deficiência de palcos e casas de espetáculos no Brasil, caracterizando-se, em suas palavras, como “uma ingênua diversão do povo”.

Atualmente, as informações disponíveis remontam – em sua maioria – aos idos do século XIX, fato que por si só demonstra o quanto de informações o tempo consumiu. Um rico passado de manifestações culturais populares que talvez tenham se diluído e que jamais teremos condições de acessar.

Como que montando um quebra cabeças, pinçando fatos aqui e acolá, lidando com reminiscências esparsas, colhendo fragmentos dispersos, vamos alinhavando o panorama do movimento dos titeriteiros no país.

Manuel Quirino dá notícia do Mané-gostoso, terminologia como ficou conhecido o fantoche popular no Estado da Bahia.

Olga Obry em seu livro “Teatro na Escola” refere-se a um velho exemplar do Estado de Minas, publicado em Ouro Preto no ano de 1896. Ali se encontra uma crônica - assinada sob o pseudônimo de Gil Cássio (Afonso Arinos) – enfocando um titeriteiro mineiro, José Ferreira, que fala do teatro de bonecos, do teatro João-minhoca.

O João-minhoca e o Mané-gostoso são variações do teatro popular de bonecos europeu. Esse gênero teatral baseado na improvisação e no humor cáustico recebe no Estado da Bahia a denominação de Mané-gostoso. Em Minas, São Paulo, Rio e Espírito Santo é denominado João-minhoca ou Briguela. No Rio Grande do Norte ficou conhecido como João-redondo; no Piauí e algumas regiões do Ceará, Cassimiro-coco; em algumas zonas da Paraíba e Pernambuco, Babau. E o mais conhecido de todos, o Mamulengo pernambucano.

Existem diversas teorias procurando identificar e justificar o modo como o teatro de bonecos irrompeu em Pindorama. A com maior aceitação defende sua inserção no Brasil e no continente no formato de presépio que, na Europa da idade média, havia sido o espetáculo de marionetes de que a igreja se valera para a difusão do cristianismo.

Presépio
“um lugar onde se recolhe o gado; curral, estábulo”


Presépio está vinculado às representações natalinas, ao nascimento do Menino Jesus num estábulo. As celebrações relativas ao nascimento do menino Jesus remontam ao século III. Todavia a tradição do presépio, na forma como a conhecemos nos dias de hoje, só veio aparecer no século XVI.
Em 1223, São Francisco passou a estimular a criação de figuras em barro, personagens para o cenário do nascimento de Jesus. A tradição ganhou o mundo e no século XVIII já era bastante popular em Nápoles e na Península Ibérica.

Reza a lenda dos presépios que, no ano de 1223, São Francisco de Assis promoveu a representação, ao vivo, do nascimento do Divino Redentor, como parte dos festejos natalinos.

O historiador, folclorista e escritor Pereira da Costa, na obra “Folclore pernambucano”, de 1909, assegura que o presépio teria sido introduzido em Pernambuco provavelmente no século XVI, com representação no convento dos franciscanos, em Olinda, por Frei Gaspar de Santo Antônio.

Presumidamente, a partir da estrutura dos presépios, o teatro de bonecos foi evoluindo, se desenvolvendo, ora agregando e incorporando, ora descartando e se livrando de componentes da cultura popular, de modo que rompe os dias de hoje num formato pujante, de plena energia e vigor.

O teatro de Bonecos Mané Beiçudo carrega esta herança histórica, mas apresenta um diferencial que o torna único e exclusivo. Agrega à engenharia da construção do teatro popular os elementos do planejamento. É esta ferramenta - o planejamento – que possibilita que o Mané Beiçudo seja apropriado por todos como instrumento de entretenimento, diversão, mas também como instrumento para as transformações que a comunidade requer.


Antônio Carlos dos Santos - criador de metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+ e da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo. acs@ueg.br

segunda-feira, 9 de junho de 2014

O que é o Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo?


É uma modalidade de teatro de bonecos que agregou as características do espetáculo onírico, da improvisação e do humor cáustico - heranças da commedia dell’arte de origem italiana - e que mergulha no universo das comunidades, resgatando seus valores e tradições culturais, mobilizando suas populações para que consigam identificar seus problemas estruturais, de modo que, compreendendo-os, possam solucioná-los de uma forma solidária e participativa.

O Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo – TBMB - possibilita que a arte se incorpore ao cotidiano das pessoas; e os problemas concretos, os vivenciados no dia a dia sejam processados através de um tipo de reflexão “crítico-lúdica” que só o teatro consegue disponibilizar.

A reflexão crítica é um componente inerente a qualquer processo sustentável de transformação social. Sua estruturação científica, muitas vezes, a reveste de um formalismo hermético de difícil apropriação por parte das camadas populares. Esta é a razão da criação desta nova categoria, a reflexão “crítico-lúdica”, modalidade de retorno do pensamento sobre si mesmo, com vista a examinar mais profundamente o problema, abordando-o sempre sob o viés da cultura e das manifestações artísticas locais. No que se constitui em estratégia para que a comunidade exerça a reflexão e o raciocínio lógico sem abrir mão do prazer, alquebrando a sisudez dos procedimentos acadêmicos.

Por suas características intrínsecas, o Teatro de Bonecos Mané Beiçudo pode mesmo – no limite - se apresentar sem os bonecos porque a substância é a participação popular através do teatro, e pode ser que a comunidade estabeleça a opção de empregar a tecnologia prescindindo dos títeres, enfatizando a performance corporal dos atores ou, quem sabe, destacando a linguagem circense ou outras facetas do universo cênico.

Todavia, em sua manifestação mais completa, para que o TBMB se manifeste em inteiro teor, com toda a dimensão e expressividade que dele emana, há que se efetuar uma completa interação entre o teatro de atores expostos e o teatro de bonecos, entre os Espetáculos Satélites e o Espetáculo Mestre (novas categorias aqui preconizadas), entre os bonecos gigantes e os diminutos bonecos de luva, entre o teatro de rua e o teatro conformado na empanada, entre o resgate das manifestações artístico-culturais locais e a identificação e o processamento dos problemas objetivos da comunidade.

Desde a idade média, diversos estudiosos e encenadores têm realizado experiências e elaborado princípios que procuram conduzir a um teatro mais abrangente, que enseje maior aproximação entre os atores e a platéia. Alguns sugeriram mesmo a supressão da platéia partindo do pressuposto de que todos seriam transformados em atores. Outros, como Meyerhold, buscaram elementos na rua e no circo para aprofundar a interação. O fato é que um teatro que resgate as origens dionisíacas , as grandes festas carnavalescas em que o povo exerça intensa participação - ao invés de se comportar como espectador passivo - é um objetivo que vem de muito. Um objetivo também perseguido pelo TBMB.

Adotando um desenho estrutural que remonta a Plauto, Terêncio e à Commedia dell’arte, o Mané Beiçudo incorporou outras características e princípios, como seu arranjo produtivo exclusivo que radicaliza, ao limite, no ponto de distensão:

· a interação entre atores e espectadores, estimulando a platéia a intervir – de forma criativa e planejada – no universo cênico, como estratégia para qualificar seus processos de intervenção na realidade concreta. Desta forma os conteúdos são direcionados a promover uma participação-cidadã, destacando valores e princípios como a radicalização da democracia, a justiça econômica e social e a capacidade de promover intervenções individuais e coletivas na realidade local;

· a estética, direcionada à tradução das expressões culturais oriundas do imaginário popular, das tradições e dos valores locais;

· a instituição dos momentos de produção Ex-Ante, Ex-Cursus e Ex-Post - no que se denomina Fábrica Mané Beiçudo - estabelecendo uma ação continuada numa concepção do Espetáculo Permanente, sempre aberto, suscetível e ávido por inovações;

· a tecnologia de produção de bonecos, direcionada a valorizar a matéria prima disponível e abundante no local;

· a tecnologia de produção da dramaturgia, disponível para que a comunidade exercite a criação e a produção coletiva. Originando-se de uma questão problematizada, de uma situação-problema que impacta negativamente a comunidade, o texto dramático é estruturado.