quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A dor que nem os espíritos suportam, o conto.



-Você terá algumas semanas de vida, não mais que isso – falou com a voz tensa o Dr. Raul, os olhos fixos, severos, avançando na direção dos meus.

   A primeira reação foi imaginar que a cena em que involuntariamente atuava, quadro de um teatrinho de quinta categoria, não me destinava papel de protagonista. “Um pesadelo, sem dúvidas!”, imaginei certo que, ao findar da noite, a claridade do sol estaria me esbofeteando, afastando definitivamente o inferno que comprimia, garroteava todos meus poros e sentidos. Porém, os minutos cadenciando os ponteiros do relógio fixado à parede alertaram que nada ali era onírico. Os minutos gritavam: eu estava ali, bem ali, naquele terrível consultório onde imperava autoritariamente a cor branca. Que raios de impelir, até mesmo à decoração, uma ditadura de aprisionar as demais cores, um absolutismo de impedir a pluralidade, a diferença. Não havia como ignorar o fato de que eu estava mesmo no lugar errado, lamentavelmente com a pessoa errada, deploravelmente na pior das horas. Cruel destino, infame sina. Não, não era um sono, não era um efêmero pesadelo. Por mais difícil que fosse admitir, melhor dobrar às evidências. Era eu mesmo quem ali estava recolhido na poltrona branca, eu em pessoa; em carne, osso e espírito; sentado à frente de um oncologista impiedoso, destemperado, desumano. Como era o sujeitinho capaz de me dizer aquilo daquela forma, se valendo daquelas malditas palavras?! Indubitavelmente um demônio vestido de branco a me provocar, a me tentar com um diagnóstico tão fatídico, anunciando o final dos tempos, os últimos dias, o apocalipse. Por que deveria permanecer ali ouvindo a pior das previsões?, tendo que suportar a indiferença dos ponteiros do relógio que seguiam em seu movimento circular como se nada de anormal estivesse acontecendo. 


   Então, ante a impossibilidade de ignorar a realidade, recorri à raiva, ao ódio, ao rancor que nos trinta e seis anos de vida idolatrei, cultuei. Especialmente nos momentos de incertezas e desespero. Sim, acumulei em algum lugar ignorado do cérebro toda a raiva que aprendi a reverenciar. A raiva pelas brigas e disputas em que invariavelmente levava a pior; sempre foi assim, desde a infância; a raiva pela insegurança onipresente, pelo corpo magro e disforme; o ódio pela juventude deslocada - como um peixe fora d’água, sempre me imaginei diferente dos demais - o rancor pelos fracassos na vida amorosa, profissional; toda essa raiva lapidei destilando-a repetidas vezes, gota a gota, até encontrar seu estado mais puro e elevado... Embrulhada para presente encontrou guarida em meu coração errante.



   Mas toda aquela raiva não fez esvair de minha frente o olhar severo e grave do Dr. Raul. Continuava mirando, seus dois olhos argutos e agressivos bombardeando mísseis e torpedos em minha direção, ininterruptamente, como se quisesse implodir minha força interior, a vontade férrea e inamovível de não dar crédito ao que ouvia, no que os exames emprestavam tanta evidência. (Para continuar a ler, clique aqui.)



Para saber mais, clique na figura

Dramaturgo, o autor transferiu para seus contos literários toda a criatividade, intensidade e dramaticidade intrínsecas à arte teatral. 

São vinte contos retratando temáticas históricas e contemporâneas que, permeando nosso imaginário e dia a dia, impactam a alma humana em sua inesgotável aspiração por guarida, conforto e respostas. 

Os contos: 
1. Tiradentes, o mazombo 
2. Nossa Senhora e seu dia de cão 
3. Sobre o olhar angelical – o dia em que Fidel fuzilou Guevara 
4. O lugar de coração partido 
5. O santo sudário 
6. Quando o homem engole a lua 
7. Anos de intensa dor e martírio 
8. Toshiko Shinai, a bela samurai nos quilombos do cerrado brasileiro 
9. O desterro, a conquista 
10. Como se repudia o asco 
11. O ladrão de sonhos alheios 
12. A máquina de moer carne 
13. O santuário dos skinheads 
14. A sorte lançada 
15. O mensageiro do diabo 
16. Michelle ou a Bomba F 
17. A dor que nem os espíritos suportam 
18. O estupro 
19. A hora 
20. As camas de cimento nu 

OUTRAS OBRAS DO AUTOR QUE O LEITOR ENCONTRA NAS LIVRARIAS amazon.com.br: 

A – LIVROS INFANTO-JUVENIS: 
Livro 1. As 100 mais belas fábulas da humanidade 

I – Coleção Educação, Teatro & Folclore (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. O coronel e o juízo final 
Livro 2. A noite do terror 
Livro 3. Lobisomem – O homem-lobo roqueiro  
Livro 4. Cobra Honorato 
Livro 5. A Mula sem cabeça 
Livro 6. Iara, a mãe d’água 
Livro 7. Caipora 
Livro 8. O Negrinho Pastoreiro 
Livro 9. Romãozinho, o fogo fátuo 
Livro 10. Saci Pererê 

II – Coleção Infantil (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. Não é melhor saber dividir 
Livro 2. Eu compro, tu compras, ele compra 
Livro 3. A cigarra e as formiguinhas 
Livro 4. A lebre e a tartaruga 
Livro 5. O galo e a raposa 
Livro 6. Todas as cores são legais 
Livro 7. Verde que te quero verde 
Livro 8. Como é bom ser diferente 
Livro 9. O bruxo Esculfield do castelo de Chamberleim 
Livro 10. Quem vai querer a nova escola 

III – Coleção Educação, Teatro & Democracia (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. A bruxa chegou... pequem a bruxa 
Livro 2. Carrossel azul 
Livro 3. Quem tenta agradar todo mundo não agrada ninguém 
Livro 4. O dia em que o mundo apagou 

IV – Coleção Educação, Teatro & História (peças teatrais juvenis): 
Livro 1. Todo dia é dia de independência 
Livro 2. Todo dia é dia de consciência negra 
Livro 3. Todo dia é dia de meio ambiente 
Livro 4. Todo dia é dia de índio 

V – Coleção Teatro Greco-romano (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. O mito de Sísifo 
Livro 2. O mito de Midas 
Livro 3. A Caixa de Pandora 
Livro 4. O mito de Édipo. 

B - TEORIA TEATRAL, DRAMATURGIA E OUTROS
VI – ThM-Theater Movement: 
Livro 1. O teatro popular de bonecos Mané Beiçudo: 1.385 exercícios e laboratórios de teatro 
Livro 2. 555 exercícios, jogos e laboratórios para aprimorar a redação da peça teatral: a arte da dramaturgia 
Livro 3. Amor de elefante 
Livro 4. Gravata vermelha 
Livro 5. Santa Dica de Goiás 
Livro 6. Quando o homem engole a lua