domingo, 13 de março de 2016

A indignação de Joaquim José da Silva Xavier


As lições de Tiradentes se perderam no tempo?


No Brasil colonial destacou-se, na economia, a mineração.

Pelos idos de 1690 o ouro foi descoberto em Minas Gerais, em 1719 em Mato Grosso e em 1725 em Goiás.

Portugal entrou em êxtase com a nova oportunidade. E logo a nova riqueza representada pela exploração do minério recebeu uma legislação específica.

Os fiscais da Coroa eram os responsáveis pela distribuição das cobiçadas terras auríferas. E quanto mais ricas e poderosas as pessoas, maiores eram os lotes recebidos.

A título de imposto, Portugal ficava com nada menos que 1/5 de todo o ouro encontrado. Cabia à Intendência de Minas exercer a fiscalização da atividade e cobrar o Quinto.

O processo de cobrança era simples e eficaz. Todo o ouro encontrado deveria, necessariamente, ser levado à Casa de Fundição, que o processava de modo a transformá-lo em barras. Ao retornar para o mineiro, a Coroa já tinha retido seus 20%. Não havia outra forma legal para o ouro circular.

No período do Marquês de Pombal – Primeiro Ministro do rei D. José I, Portugal passou a exigir que o Brasil pagasse, no mínimo, 100 arrobas de ouro anualmente.

A atividade atraiu levas de imigrantes de modo que, quando a operação começou a ser tornar mais complexa, exigindo outro tipo de tecnologia para a extração do minério, o setor começou a declinar, quando então o Quinto se tornou um tributo por demais asfixiante para os mineradores.

E as penas para o descumprimento das leis eram severas, implicando em degredo ou prisão.

Foi chegando a um ponto que os protestos e revoltas começaram a eclodir, destacando-se o movimento de 1789 que entrou para a história brasileira com o nome de Inconfidência Mineira.

O movimento levou à execução de Tiradentes no ano de 1792. Levado à forca, o mártir da Independência brasileira teve ser corpo esquartejado e sua cabeça exposta em logradouro público, como exemplo para os que ousassem desafiar o sistema colonial e as determinações da metrópole.

A cobrança do Quinto foi o mote encontrado pelos inconfidentes para obter apoio popular para a revolta.

Basta comparar os impostos praticados no Brasil colônia com os cobrados atualmente para perceber que as coisas pioraram, e bastante. Aliás, a sociedade civil agradeceria se o atual governo praticasse as mesmas taxas exigidas pela Coroa. Se Portugal estimulou revoltas e mais revoltas ao cobrar 20%, hoje o governo retira da sociedade algo em torno de 50% de tudo o que a nação produz.

Em alguns produtos os valores dos impostos pagos pelo consumidor beiram à extorsão.

Toda vez que o consumidor abastece o automóvel, deixa com o governo 57,13% do que desembolsa. Quando bebe uma cerveja, entrega ao fisco 56% do que paga. E ai segue, com a prática de tributos escandalosos, nada escapando à fúria arrecadatória do governo.

Dentre os países em desenvolvimento, o Brasil tem a maior carga tributária. É a segunda maior do planeta, só perdendo para a Dinamarca. Mas existe aqui uma diferença determinante, fundamental. No país europeu, tudo funciona como um relógio suíço, já por aqui...

Por aqui, o problema estrutural é que o governo arrecada muito, muitíssimo, e administra mal, muito mal. Não consegue retornar à sociedade – com serviços de qualidade - a colossal soma de recursos que confisca imperativamente.

Sobretudo setores como a infra-estrutura física e econômica, a segurança, saúde e a educação no Brasil encontram-se em frangalhos, em estado de indigência e completa insolvência.

Parte expressiva dos impostos arrecadados é manejada pelas ratazanas para alimentar a descomunal rede de corrupção. Uma outra parte considerável se perde nas teias intrincadas da burocracia, nos labirintos de um aparelho de Estado ineficaz e perdulário, na gestão desqualificada, no gigantismo abissal dos poderes da República... De modo que só uma pequena fração dos recursos investidos chega ao destino final, à ponta do processo.

A grande verdade é que o Governo brasileiro é uma mistura de Dinamarca com Gabão. Sua eficiência para arrecadar se nivela à européia, mas a qualidade de sua gestão não consegue superar sequer a do Gabão ou, com mais precisão, à de Serra Leoa, o país mais pobre do mundo, com uma renda per capita de 490 dólares por ano e expectativa de vida de 39 anos.

É tanta injustiça que Tiradentes e os inconfidentes de Minas devem purgar dias e noites revirando nos túmulos, indignados com a aleivosia que domina o cenário nacional. O país tem se tornado uma fraude e a sociedade precisa se mobilizar para que o sonho dos inconfidentes não se perca nas páginas de livros mal cuidados esquecidos nos escaninhos das bibliotecas.

Antônio Carlos dos Santos – criador da metodologia de Planejamento Estratégico Quasar K+, da tecnologia de produção de Teatro Popular de Bonecos Mané Beiçudo e da metodologia ThM-Theater Movement

O conto dramático "Tiradentes, o mazombo", texto literário que dá título ao livro


   Maria Luiza sentiu um calafrio singrar a espinha até ancorar na parte posterior da cabeça. Preocupava-se quando o fenômeno se repetia reiteradamente, como vinha ocorrendo no decorrer da semana. Aflita, desde a noite anterior esperava Joaquim, o homem de sua vida, forte, alto, inteligente e generoso o suficiente para tirá-la da vida fácil, tornando-a ainda menina, mulher completa e feliz.

   Palpitações, calafrios e sobressaltos sempre foram, em sua vida, sinais de maus prenúncios. Ora anunciavam um aborrecimento iminente, ora um dente que latejaria dali a minutos, a maior parte das vezes uma tragédia abrupta, uma perda irreparável, o desaparecimento de alguém próximo e amado.

   Nessas horas lembrava-se das agruras do amado. Recordou quando, tempos atrás, sobressaltos repetitivos se confirmaram como um perigoso e grave incidente. Joaquim, indignado com a humilhação e o suplício que um senhor impunha ao seu escravo, resolveu intervir. E por sair em defesa do negro, foi punido com a perda da tropa que lhe assegurava o sustento. Anos e anos de sacrifícios, mascateando entre o Rio de Janeiro e Minas, percorrendo toda aquela dispersa e inóspita região, formando uma sólida rede de amigos e fregueses compradores para colocar tudo a perder em decorrência de seu altruísmo e senso de justiça.

   De nada adiantava Maria Luiza estrilar, espernear, reclamar para aquele homem magro, ombros largos, longos e belos cabelos acastanhados. Inútil implorar, suplicar para que se distanciasse das confusões. Joaquim era assim e pronto. Melhor resignar, conformar com a escolha daquele que considerava a justiça patrimônio inalienável da humanidade, valor extremo, superior a todos; para proteger os mais fracos não hesitava em colocar a própria vida em risco. Por isso Maria Luíza revirou-se na cama por toda a noite sem conseguir pregar os olhos. Mal rompeu o dia e os calafrios já reverberavam suas preocupações premonitórias.

   “O destino está inscrito nas estrelas e nos planetas” dava cordas ao pensamento a menina-mulher. Como se preparando para a notícia que tardava, mas que sabia, viria fatídica. Algo de muito cruel se anunciava para seu amor.


   Um dos predicados que Luíza herdou da mãe foi a prestidigitação e a facilidade de - esquadrinhando os astros - ler o futuro das pessoas. Desenvolvera como ninguém a habilidade de fazer desaparecer objetos, a arte do ilusionismo. No estudo das leis da abóbada celeste especializou-se na ciência do tempo, na astrologia. Através da marcha do sol avaliava o tempo de vida que restava nos que a procuravam. E da posição das estrelas e constelações extraia as possibilidades de materialização dos sonhos, desejos, aspirações que chegavam aos seus ouvidos na forma de cabalísticos sussurros. Interpretava os sonhos e desnudava seus mistérios.

   Como o assédio crescia incontrolavelmente, fingiu ter perdido os dons mediúnicos e espirituais, de modo que fez o tempo solitário para dedicá-lo inteiramente ao amado Joaquim, a pessoa mais importante de sua vida, razão do viver, cuja perda significaria para si dor e, não tinha dúvidas, também a morte.

   Tentava se entreter com outros afazeres, aquebrantar a aflição que a demora de Joaquim suscitava. Mas de sua memória só emergiam lembranças ruins, pesadelos que havia previsto, e que a pragmática incredulidade impedia o amado de observar. Por inúmeras vezes sibilou a Joaquim: “os astros orientam, não determinam. Não devemos nos manter indiferentes aos seus sinais, traz mau agouro”.

   A concentração fugidia impeliu Maria Luíza à rede atada ao gigantesco pé de ingá cuja sombra avançava sobre a cobertura da casa simples e aconchegante.

   A sombra entrecortada pela brisa fresca fez avivar mais ainda a memória.

   E lembrou-se da fama que corria daquelas paragens ao Rio de Janeiro, testemunhando Joaquim como o melhor cirurgião, boticário e tirador de dentes das redondezas. Carregava sempre consigo a caixa de ferrinhos e o boticão e os utilizava magicamente, como se manuseasse entre os dedos plumas e fios de algodão. Companhia inseparável a caixa com emplastros de ervas, águas milagrosas e fármacos que manipulava com ciência e esmero.

   As lembranças galopavam no imaginário da doce menina-mulher quando rompeu no horizonte Joaquim José.

   Maria Luíza não soube como se desvencilhou da rede e venceu a considerável distância que a separava do paraíso. Na fração do segundo estava com as pernas salientes enforquilhadas trançando a cintura viril de seu homem.   


   Joaquim, como fazia sempre, cobriu-a de beijos e carícias, sussurrando ao ouvido doces palavras de saudade e paixão. E conduziu a mulher para a cama de capim macio enquanto vestia-a de carinho e afeição. Envoltos nos lençóis límpidos de aroma silvestre deixaram-se entregues ao mais avassalador e intenso prazer. A distância e o tempo mantiveram-nos afastados por dois meses. A nostalgia gilhotinava. Dois intermináveis meses. Extasiado, Joaquim adormeceu com a cabeça sobre os abundantes seios nus da mulher que fizera sua. Independentemente das conveniências e pactos sociais, escolhera Maria Luísa para alentar o coração. Não sentia culpa ou remorso por coisa alguma. Não. Quando juntos, o tempo e todo o resto paravam em deferência ao amor que dali emanava.  Na intimidade, seu coração jamais deixou naco sequer de dúvida a respeito da mulher que o escravizara. Por isto guardava extrema fidelidade à amada, somente ela merecia sua absoluta confiança.


   Maria Luísa era escultura extraída dos palacetes que engrandeceram a Grécia antiga. De tão formosa e graciosa parecia esculpida pelas mãos mitológicas de Prometeu. Boa estatura, pernas longas e torneadas, quadris insinuantemente provocantes, seios salientes, bicos empinados como perfurando os vestidos de seda colante, sempre justos, uma segunda pele dando elegantes e sedutores contornos à epiderme. O rosto perfeito, encontro harmonioso dos vigorosos traços do pai negro com a delicadeza frágil e elegante da mãe francesa. Lábios encorpados esnobando graça e volúpia. Olhos castanhos, profundos, olhos de lince. Como brincava a mãe, era uma ninfa a quem os deuses do Olimpo permitiram, transitoriamente, incursionar pela existência temporã. (Para ler o conto completo, clique aqui).


Para saber mais, clique na figura

Dramaturgo, o autor transferiu para seus contos literários toda a criatividade, intensidade e dramaticidade intrínsecas à arte teatral. 

São vinte contos retratando temáticas históricas e contemporâneas que, permeando nosso imaginário e dia a dia, impactam a alma humana em sua inesgotável aspiração por guarida, conforto e respostas. 

Os contos: 
1. Tiradentes, o mazombo 
2. Nossa Senhora e seu dia de cão 
3. Sobre o olhar angelical – o dia em que Fidel fuzilou Guevara 
4. O lugar de coração partido 
5. O santo sudário 
6. Quando o homem engole a lua 
7. Anos de intensa dor e martírio 
8. Toshiko Shinai, a bela samurai nos quilombos do cerrado brasileiro 
9. O desterro, a conquista 
10. Como se repudia o asco 
11. O ladrão de sonhos alheios 
12. A máquina de moer carne 
13. O santuário dos skinheads 
14. A sorte lançada 
15. O mensageiro do diabo 
16. Michelle ou a Bomba F 
17. A dor que nem os espíritos suportam 
18. O estupro 
19. A hora 
20. As camas de cimento nu 

OUTRAS OBRAS DO AUTOR QUE O LEITOR ENCONTRA NAS LIVRARIAS amazon.com.br: 

A – LIVROS INFANTO-JUVENIS: 
Livro 1. As 100 mais belas fábulas da humanidade 

I – Coleção Educação, Teatro & Folclore (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. O coronel e o juízo final 
Livro 2. A noite do terror 
Livro 3. Lobisomem – O homem-lobo roqueiro  
Livro 4. Cobra Honorato 
Livro 5. A Mula sem cabeça 
Livro 6. Iara, a mãe d’água 
Livro 7. Caipora 
Livro 8. O Negrinho Pastoreiro 
Livro 9. Romãozinho, o fogo fátuo 
Livro 10. Saci Pererê 

II – Coleção Infantil (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. Não é melhor saber dividir 
Livro 2. Eu compro, tu compras, ele compra 
Livro 3. A cigarra e as formiguinhas 
Livro 4. A lebre e a tartaruga 
Livro 5. O galo e a raposa 
Livro 6. Todas as cores são legais 
Livro 7. Verde que te quero verde 
Livro 8. Como é bom ser diferente 
Livro 9. O bruxo Esculfield do castelo de Chamberleim 
Livro 10. Quem vai querer a nova escola 

III – Coleção Educação, Teatro & Democracia (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. A bruxa chegou... pequem a bruxa 
Livro 2. Carrossel azul 
Livro 3. Quem tenta agradar todo mundo não agrada ninguém 
Livro 4. O dia em que o mundo apagou 

IV – Coleção Educação, Teatro & História (peças teatrais juvenis): 
Livro 1. Todo dia é dia de independência 
Livro 2. Todo dia é dia de consciência negra 
Livro 3. Todo dia é dia de meio ambiente 
Livro 4. Todo dia é dia de índio 

V – Coleção Teatro Greco-romano (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. O mito de Sísifo 
Livro 2. O mito de Midas 
Livro 3. A Caixa de Pandora 
Livro 4. O mito de Édipo. 

B - TEORIA TEATRAL, DRAMATURGIA E OUTROS
VI – ThM-Theater Movement: 
Livro 1. O teatro popular de bonecos Mané Beiçudo: 1.385 exercícios e laboratórios de teatro 
Livro 2. 555 exercícios, jogos e laboratórios para aprimorar a redação da peça teatral: a arte da dramaturgia 
Livro 3. Amor de elefante 
Livro 4. Gravata vermelha 
Livro 5. Santa Dica de Goiás 
Livro 6. Quando o homem engole a lua