domingo, 6 de março de 2016

"Anos de intensa dor e martírio", o conto dramático.


   O pirralho deu um forte murro no vidro lateral do carro e saiu colérico. – Fiedapulta – xingou antes de sair em disparada costurando os carros que cruzavam à sua volta, qual torpedos, infernizando as ruas do centro caótico da cidade. Giscard Miterrand, o delegado, como que por reflexo, levou a mão ao coldre e engatilhou o 38, ansiando apertar o gatilho no tiro que justiçaria o moleque imundo, mas desistiu ante a ligeireza esperta do trombadinha, esguio e escorregadiço.

   À filha, de tamanho igual ao do moleque vadio e que aos prantos jazia no banco de traz, assustada com a agressividade gratuita, acalmou sem mais palavras. – Papai ainda dá um jeito nesse bandido, filha – para completar cerrando os dentes já amarelados. – Juro pelo Deus que nos ilumina que vou arrumar a cama desse moleque.

   Giscard Miterrand já conhecia o mirrado Jean Pierre de há tempos. Desde muito cedo o menino ziguezagueava pelas ruas de Caiena praticando pequenos crimes e delitos. Agora, já com quatorze anos e ponto fixo nos sinaleiros, reagia com brutal agressividade aos que não estendiam a esmola exigida. – De centavos não quero, só de dinheiro de um ou de cinco – impunha o garoto com a voz já rouca, áspera e tenebrosa. O corpo e a alma franzinos se limitavam a parcas pelancas cingindo os ossos salientes, o que davam aos seus quatorze anos a aparência de cinco.  


   Um sem número de vezes Miterrand tivera o moleque na mira de seu revolver, dominado, algemado, imobilizado, era só aplicar o tratamento de sempre, mas a turma dos direitos humanos... ah!, essa turma sempre o surpreendendo nas melhores horas, incomodando-o dia e noite, mal o deixando repousar, municiando os jornais com campanhas e mais campanhas que elevavam a marginalia ao status de intocáveis, enquanto deixavam os indefesos cidadãos mais susceptíveis às investidas dos meliantes. Não bastassem os inúmeros grupos de defesa dos direitos humanos do Suriname infestando diuturnamente sua delegacia modelo, agora eram os de Paris que davam o ar da graça, aborrecendo, incomodando, intimidando, ameaçando levá-lo às Cortes Internacionais.

   Reservadamente estrilava impropérios do governo e dos políticos os chamando de irresponsáveis, corruptos, obscenos; indignava-se com os volumosos recursos que despendiam em campanhas pelo desarmamento. – Só nos faltava essa – reclamava aos amigos mais íntimos. – O governo não investe em segurança, não investe em novos equipamentos e viaturas, não investe no policial e depois fica com demagogia barata, com esse negócio aí de desarmar a população – se revoltava levando o cigarro à boca para tragar fundo, gesto que habituara fazer antes de concluir um assunto que julgava relevante. – Não protege a população e agora quer que ela se desarme, que fique inteiramente à mercê dos bandidos, é demais para mim.


   Ao completar os quinze anos de idade, Jean Pierre tornara-se especialista em estupros. Não fazia distinção de gênero ou idade. Pegava quem tivesse o infortúnio de lhe atravessar o caminho. Iniciou a prática com os colegas de rua. Estuprava e era estuprado como num jogo ritualizado pela vida na sarjeta. A naturalidade com que perpetrava o crime logo o levou a praticá-lo com garotas e garotos da classe média e, com dezessete anos, só se permitia abusar das adolescentes e mulheres untadas à água de cheiro dos bairros reluzentes da capital.

   Não havia dia em que os comerciantes deixassem de acorrer em massa à delegacia para as tumultuadas queixas de roubo e latrocínio praticadas pelo mirrado tinhoso. E quando não eram os lojistas, eram pais e parentes das inumeráveis vítimas dos crimes sexuais, vezes, até sete em uma só noite.


   O garoto já havia passado por todos os internatos públicos, todas as instituições religiosas de abrigo e apoio a carentes, tornara-se contumaz freguês do Centro de Triagem de Menores, mas, inexoravelmente, novamente ia parar nas ruas para aterrorizar quem dele se aproximasse.

   O delegado Miterrand contava nos dedos o dia em que Jean Pierre atingiria a maioridade. No espelho em que toda a manhã se barbeava fez instalar um pequeno quadro magnético especificamente para controlar o interstício.

   Na semana do dia tão ansiosamente sonhado o delegado amargou todas as noites de insônia e indisposição física. Dor de cabeça, tonturas, diarréia, azia, reumatismo, gota, tanta enfermidade concentrada que a mulher se viu obrigada a sair descabelada, em roupas de baixo, procurando socorro médico para o marido enlouquecido.

   Miterrand permanecia, já havia três dias, sentado imóvel na poltrona preferida de couro de búfalo. O corpo tenso, olhar num distante intangível, o ar paralisado, era como se o homem corpulento ali não estivesse. Só ele, apenas ele, exclusivamente ele, sabia que o transe decorria da inequívoca aproximação do dia em que encontraria a libertação, do dia em que se veria livre de todas as angustias e pesadelos. O mais terrífico de tudo?, suportar diuturnamente a dor de ter presenciado o estupro da própria filha, ignomínia perpetrada por ninguém menos que o sinistro Jean Pierre.

   Desejando se vingar da perseguição implacável que recebia do delegado geral, o moleque bandido preparou emboscada, prendeu pai e filha num cortiço imundo, amarrou Giscard Miterrand com todas as cordas, e por cinco infindáveis horas submeteu a delicada Louise a mais brutal barbárie sexual.


   Giscard já tinha desenhado na cabeça, em minúcias e detalhes, todo o plano que conduziria seus passos. Repassara cada movimento, cada procedimento por mil, duas, três mil vezes, se certificando da consistência de cada fase, de cada etapa, de cada ação, reconstruindo cada ponto com sinal de vulnerabilidade, ainda que efêmero. (Para ler o conto completo, clique aqui).


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Dramaturgo, o autor transferiu para seus contos literários toda a criatividade, intensidade e dramaticidade intrínsecas à arte teatral. 

São vinte contos retratando temáticas históricas e contemporâneas que, permeando nosso imaginário e dia a dia, impactam a alma humana em sua inesgotável aspiração por guarida, conforto e respostas. 

Os contos: 
1. Tiradentes, o mazombo 
2. Nossa Senhora e seu dia de cão 
3. Sobre o olhar angelical – o dia em que Fidel fuzilou Guevara 
4. O lugar de coração partido 
5. O santo sudário 
6. Quando o homem engole a lua 
7. Anos de intensa dor e martírio 
8. Toshiko Shinai, a bela samurai nos quilombos do cerrado brasileiro 
9. O desterro, a conquista 
10. Como se repudia o asco 
11. O ladrão de sonhos alheios 
12. A máquina de moer carne 
13. O santuário dos skinheads 
14. A sorte lançada 
15. O mensageiro do diabo 
16. Michelle ou a Bomba F 
17. A dor que nem os espíritos suportam 
18. O estupro 
19. A hora 
20. As camas de cimento nu 

OUTRAS OBRAS DO AUTOR QUE O LEITOR ENCONTRA NAS LIVRARIAS amazon.com.br: 

A – LIVROS INFANTO-JUVENIS: 
Livro 1. As 100 mais belas fábulas da humanidade 

I – Coleção Educação, Teatro & Folclore (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. O coronel e o juízo final 
Livro 2. A noite do terror 
Livro 3. Lobisomem – O homem-lobo roqueiro  
Livro 4. Cobra Honorato 
Livro 5. A Mula sem cabeça 
Livro 6. Iara, a mãe d’água 
Livro 7. Caipora 
Livro 8. O Negrinho Pastoreiro 
Livro 9. Romãozinho, o fogo fátuo 
Livro 10. Saci Pererê 

II – Coleção Infantil (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. Não é melhor saber dividir 
Livro 2. Eu compro, tu compras, ele compra 
Livro 3. A cigarra e as formiguinhas 
Livro 4. A lebre e a tartaruga 
Livro 5. O galo e a raposa 
Livro 6. Todas as cores são legais 
Livro 7. Verde que te quero verde 
Livro 8. Como é bom ser diferente 
Livro 9. O bruxo Esculfield do castelo de Chamberleim 
Livro 10. Quem vai querer a nova escola 

III – Coleção Educação, Teatro & Democracia (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. A bruxa chegou... pequem a bruxa 
Livro 2. Carrossel azul 
Livro 3. Quem tenta agradar todo mundo não agrada ninguém 
Livro 4. O dia em que o mundo apagou 

IV – Coleção Educação, Teatro & História (peças teatrais juvenis): 
Livro 1. Todo dia é dia de independência 
Livro 2. Todo dia é dia de consciência negra 
Livro 3. Todo dia é dia de meio ambiente 
Livro 4. Todo dia é dia de índio 

V – Coleção Teatro Greco-romano (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. O mito de Sísifo 
Livro 2. O mito de Midas 
Livro 3. A Caixa de Pandora 
Livro 4. O mito de Édipo. 

B - TEORIA TEATRAL, DRAMATURGIA E OUTROS
VI – ThM-Theater Movement: 
Livro 1. O teatro popular de bonecos Mané Beiçudo: 1.385 exercícios e laboratórios de teatro 
Livro 2. 555 exercícios, jogos e laboratórios para aprimorar a redação da peça teatral: a arte da dramaturgia 
Livro 3. Amor de elefante 
Livro 4. Gravata vermelha 
Livro 5. Santa Dica de Goiás 
Livro 6. Quando o homem engole a lua