quinta-feira, 10 de março de 2016

Sobre o olhar angelical


     O pai de Santo Cleomar Patrício, indignado com o sofrimento e a dor da gente simples do lugar, resolveu radicalizar. Já não conseguia confortar milhares de pessoas que acorriam de todos os rincões do planeta, em busca de cura para os males do corpo e da alma. Era uma gente simples, mas angustiada, carente de paz, carinho, conforto e guarida. 

   Cleomar Patrício, o médium espírita mais famoso das redondezas, resolveu que, doravante, não mais se permitiria incorporar caboclos, caciques e garotinhos peraltas, espíritos que erravam por seu terreiro de umbanda. Estava inconformado com o que considerava certa indolência dessas potestades que aconselhavam e orientavam os fiéis apenas sobre trivialidades, mas sobre a vida dura e injusta que levavam, negligentemente contemporizavam. Os frequentadores, pacientemente, não arredavam pé do Centro Espírita. Multiplicavam as preces e insistiam ilimitada e eternamente nas oferendas e, ainda assim, não conseguiam romper o círculo de miséria, injustiça e sofrimento que as consumiam.

   Por isso, o médium amado por todos era um poço de revolta e inquietação. Indignava-se com o tratamento fleumático que as entidades dispensavam à sua gente. Inicialmente, queixava-se a elas na intimidade das orações mais reclusas. Como permanecessem insensíveis aos seus clamores, passou aos questionamentos e, depois, encetou ásperas discussões – não importando que fosse em público - se valendo de palavras ácidas, impropérios, insultos, tratamento incompatível com seu temperamento sempre afetuoso e fraterno. Foi quando decidiu se impor de forma categórica. Nas sessões espíritas, só permitiria em seu corpo incorporar entidades comprometidas socialmente, que ostentassem um passado de lutas revolucionárias, que as vidas tivessem sacrificado em virtude de causas nobres e populares. Preferencialmente, que as pelejas travadas as tivessem projetado para além mar. Chegou ao extremo: daria as costas às sondagens de personalidades cuja importância não fosse categórica, peremptória na história revolucionária.

   Esperava assim corresponder, com maior apreço, às expectativas daquela gente abandonada, cujos sonhos fragmentavam-se no dia a dia entrecortado por aflições e agonia.


   Para enfrentar o novo desafio mergulhou com intensidade nas pesquisas, aprofundou as investigações científicas, perscrutou as biografias das personalidades que concederam suas vidas à defesa dos fracos e oprimidos.  Esquadrinhou a história dos povos, a formação das nacionalidades, o perfil dos justiceiros leais ao ideário libertário. Investigou todos os movimentos brasileiros se detendo com especial interesse na Guerra de Antônio Conselheiro e no movimento de Zumbi dos Palmares. Adentrou as revoluções francesa e mexicana; a norte americana e a francesa; reviveu, de 1917, a esperança soviética; cerrou fileiras com Solano Lopes nas suas incursões pela América Latina. Padeceu com árabes e indianos o domínio colonialista inglês e sorveu o cálice da amargura com os judeus e ciganos, vítimas preferenciais da hedionda repressão nazista. Aliou-se com bravura aos povos vítimas da insanidade dos países imperialistas. Desnudou os meandros das ciências políticas e pode compreender os ardis e a teia de armadilhas que certas elites, invariavelmente, lançam mão para manter o povo, por todo o sempre, na medonha escravidão da ignorância, ao largo do conhecimento e do saber.

   O Pai de Santo Cleomar Patrício transformou-se, empreendeu uma completa metamorfose. Emergiu dos livros e das investigações como um homem renovado, renascido das cinzas, estuário da virtude e dignidade humanas, depositário do que a humanidade reproduzira de mais nobre e justo sobre a face da terra.

   No ponto que julgou preparado para a nova missão, fez correr na cidade e região a notícia de que o Centro Espírita Raio de Sol passaria a denominar-se Irradiação Revolucionária Espírita Cristã Raio do Sol. E que seu terreiro seria, a partir de então, morada de todos os heróis e mártires que dedicaram suas existências à defesa de um mundo melhor e mais justo para todos.

   Escolheu o dia de Nossa Senhora de Aparecida para reinaugurar o Centro Espírita e surpreendeu-se com as cem mil pessoas que eclodiram, se comprimindo na gigantesca área que se fez diminuta, tamanha a quantidade de homens e mulheres de todas as idades: crianças, moçoilas, idosos, pessoas que acorreram de todos os rincões da terra. Lá estavam seus fiéis seguidores, abnegados sofredores, desiludidos do amor, donas de casa e desempregados, todos os que portavam um mal qualquer, fosse na alma, fosse no corpo tísico.   

   Dado o volume, a quantidade de devotos presentes, fez instalar quatro telões e uma imponente aparelhagem de som e vídeo, assegurando que todos participassem sem qualquer grau de dispersão.

   Com o microfone e do alto do tablado especialmente levantado para a ocasião, Cleomar Patrício resolveu submeter ao sufrágio dos fiéis a entidade que deveria, naquele célebre dia, acolher, incorporar. Como aspirava fazer uma singela homenagem à gente brasileira, ofereceu como opções o nome de Joaquim Silvério da Silva Xavier, o Tiradentes; bem como o do audacioso negro Zumbi, do quilombo que se denominou Palmares.

   Mal colocou a questão em votação e a gente compactada, em uníssono, já clamava por Ernesto Che Guevara. Não que conhecessem amiúde a obra do revolucionário latino-americano, ou que – ainda que tangencialmente – compreendessem seus ensinamentos sobre política e soberania popular. Escolheram Che simplesmente porque enxergavam no argentino que se fez cubano um olhar predestinado, profundo, que irradiava, com inquietante intensidade, esperança, compaixão e inconformismo. Nas gravuras apresentava-se com o mesmo olhar misterioso, cândido, angelical e imaculado do menino Jesus.

   De nada adiantou Cleomar recolocar a questão em votação, enfatizar que só figuravam no pleito Tiradentes e Zumbi dos Palmares, os únicos imortais desembaraçados para aquela solene sessão espírita, posto que já devidamente preparados para a materialização no pai de santo. Argumentou que Guevara, como não cogitara ser evocado, encontrava-se indisponível, em lugar ermo, inalcançável por sua imantação imaterial e que exorcismo algum poderia desembargar seu corpo para receber o espírito do comandante de Sierra Maestra. Porém, a cada argumentação do aflito médium, mais e mais a multidão de devotos esmerava em ovacionar o nome de Che. (Para ler o conto completo, clique aqui).


Para saber mais, clique na figura

Dramaturgo, o autor transferiu para seus contos literários toda a criatividade, intensidade e dramaticidade intrínsecas à arte teatral. 

São vinte contos retratando temáticas históricas e contemporâneas que, permeando nosso imaginário e dia a dia, impactam a alma humana em sua inesgotável aspiração por guarida, conforto e respostas. 

Os contos: 
1. Tiradentes, o mazombo 
2. Nossa Senhora e seu dia de cão 
3. Sobre o olhar angelical – o dia em que Fidel fuzilou Guevara 
4. O lugar de coração partido 
5. O santo sudário 
6. Quando o homem engole a lua 
7. Anos de intensa dor e martírio 
8. Toshiko Shinai, a bela samurai nos quilombos do cerrado brasileiro 
9. O desterro, a conquista 
10. Como se repudia o asco 
11. O ladrão de sonhos alheios 
12. A máquina de moer carne 
13. O santuário dos skinheads 
14. A sorte lançada 
15. O mensageiro do diabo 
16. Michelle ou a Bomba F 
17. A dor que nem os espíritos suportam 
18. O estupro 
19. A hora 
20. As camas de cimento nu 

OUTRAS OBRAS DO AUTOR QUE O LEITOR ENCONTRA NAS LIVRARIAS amazon.com.br: 

A – LIVROS INFANTO-JUVENIS: 
Livro 1. As 100 mais belas fábulas da humanidade 

I – Coleção Educação, Teatro & Folclore (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. O coronel e o juízo final 
Livro 2. A noite do terror 
Livro 3. Lobisomem – O homem-lobo roqueiro  
Livro 4. Cobra Honorato 
Livro 5. A Mula sem cabeça 
Livro 6. Iara, a mãe d’água 
Livro 7. Caipora 
Livro 8. O Negrinho Pastoreiro 
Livro 9. Romãozinho, o fogo fátuo 
Livro 10. Saci Pererê 

II – Coleção Infantil (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. Não é melhor saber dividir 
Livro 2. Eu compro, tu compras, ele compra 
Livro 3. A cigarra e as formiguinhas 
Livro 4. A lebre e a tartaruga 
Livro 5. O galo e a raposa 
Livro 6. Todas as cores são legais 
Livro 7. Verde que te quero verde 
Livro 8. Como é bom ser diferente 
Livro 9. O bruxo Esculfield do castelo de Chamberleim 
Livro 10. Quem vai querer a nova escola 

III – Coleção Educação, Teatro & Democracia (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. A bruxa chegou... pequem a bruxa 
Livro 2. Carrossel azul 
Livro 3. Quem tenta agradar todo mundo não agrada ninguém 
Livro 4. O dia em que o mundo apagou 

IV – Coleção Educação, Teatro & História (peças teatrais juvenis): 
Livro 1. Todo dia é dia de independência 
Livro 2. Todo dia é dia de consciência negra 
Livro 3. Todo dia é dia de meio ambiente 
Livro 4. Todo dia é dia de índio 

V – Coleção Teatro Greco-romano (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. O mito de Sísifo 
Livro 2. O mito de Midas 
Livro 3. A Caixa de Pandora 
Livro 4. O mito de Édipo. 

B - TEORIA TEATRAL, DRAMATURGIA E OUTROS
VI – ThM-Theater Movement: 
Livro 1. O teatro popular de bonecos Mané Beiçudo: 1.385 exercícios e laboratórios de teatro 
Livro 2. 555 exercícios, jogos e laboratórios para aprimorar a redação da peça teatral: a arte da dramaturgia 
Livro 3. Amor de elefante 
Livro 4. Gravata vermelha 
Livro 5. Santa Dica de Goiás 
Livro 6. Quando o homem engole a lua