segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O conto dramático "O santuário dos skinheads"


   Maria Patrícia e João Siló comprimiam-se debaixo de uma árvore devorando-se mutuamente. Eram duas horas da manhã e na solidão de um quadrante discreto da Praça da Sé sentiam a excitação da liberdade para amar e entregarem-se um ao outro.

   Patrícia, 14 anos de plena juventude, dali a oito horas embarcaria no ônibus que a levaria de regresso ao sertão do Piauí, de onde saiu com João Siló, um ano atrás, para fazer a vida em São Paulo.

   Saíram do sertão fugidos. Não havia na pequena cidade do interior do Piauí quem cogitasse admitir o amor de Patrícia, a deusa adolescente, pelo experimentado João Siló, 59 anos de idade. Fosse rico e tudo estaria acertado, que a vida é farta de generosidade para com os que amealham riqueza e poder. Mas João era um coitado, pobre de recursos e de instrução formal. Nem chegou a completar o primeiro ano do ensino fundamental. Com meio século de existência seu patrimônio pessoal se limitava a uma tapera que a custo mantinha-se empinada na vertical. Casou sete vezes. Das cinco primeiras esposas despediu-se com lágrimas, cuidando com zelo dos funerais, guardando luto clerical. A sexta, Dolores, caiu quando o tino entrou em ebulição, fervendo a ponto de exalar fumaça pelas orelhas, faíscas e pequenas labaredas pelo couro cabeludo. Dolores consumia o que restava da vida enclausurada em um manicômio público, a cabeça mergulhada em uma bacia com água e barras de gelo, que era para manter a temperatura sob controle, evitando que a cabeça evaporasse. Por fim, a última esposa, Josefa, o fez amargar a dor da traição. Incrédulo, viu quando a mulher amada partiu seduzida pelo motorista do caminhão pipa que ostentava no corpo um emaranhado de pulseiras e colares de latão batido que jurava ser ouro de puro quilate extraído de serra pelada. Desde então o coração enrijeceu e se fechou para o amor. Amargurado, João Siló vivia só como um ermitão, se ocupando do que mais gostava, do que verdadeiramente dava prazer naquela vida tão sofrida e arrastada, apresentar seu Mané Beiçudo, fazer seus bonecos endiabrados fartar o povo de alegria e prazer.

   Noivados e casamentos; comícios e reuniões políticas; inaugurações, festejos cívicos e atos populares; aniversários; batizados; e nem mesmo o dia reservado aos finados e os rituais fúnebres passavam ao largo da animança de João Siló e seu teatro de bonecos salientes.


   No funeral de Pedro Sarmento - o prefeito mais poderoso e popular do Nordeste - foi contratado pela família para fazer o brinquedo no portão central do Cemitério. O povo acorreu em massa para prestar os últimos sentimentos ao morto e as condolências à numerosa família. Deitavam sobre o caixão coroas de flores e lágrimas de despedida para depois seguirem, depressa, para a diversão, para o fuzuê que João Siló aprontava com os bonecos malcriados. Eram criaturas inertes que adquiriam vida própria, sem papas na língua, criticando os coronéis da política local, sapecando couro nos poderosos, soltando cobras e lagartos na polícia que reprimia e nas autoridades que corrompiam. Nem mesmo ao difundo, ainda quente na cova oficial, dava tréguas.

   Foi nessa apresentação que a vida de João Siló deu mais uma radical guinada, uma virada de cento e oitenta graus. Enquanto apresentava-se, manipulando com maestria os bonecos de luva, viu pelo ponto translúcido da empanada, de onde acompanhava os movimentos da platéia, a mulher que de forma definitiva arrebataria seu coração solitário e sofrido. Dentre os demais assistentes ressaltava formosa a bela Maria Patrícia, uma garota com traços angelicais que, compenetrada, divertia-se na primeira fila da plateia. Apesar de criança o corpo já apresentava a sensualidade de mulher formada. Não menos de trezentas pessoas firmavam pé se divertindo com as traquinagens dos bonecos. O titeriteiro servia-se da fresta, por onde monitorava a platéia, para colar os olhos na musa dos sonhos de todos os homens da região. E dedicando a ela se esmerou numa apresentação de duas horas de duração. Jamais se apresentara por tanto tempo e com tanto prazer e sucesso. A platéia aplaudiu em delírio minutos a fio. Todos imaginaram que a ousadia criativa do arrojado bonequeiro se devia à emoção da perda do perfeito-amigo, companheiro de todos. Mas o coração de João Siló, tão somente ele, compreendia as razões e os motivos para performance tão delicada e primorosa.


   Sem entender as razões e o instante, Maria Patrícia também foi se apaixonando por aquele invisível condutor de bonecos; se encantando pelo rosto que desconhecia; pelo corpo que a empanada, em clara cumplicidade, escondia. Mas a voz que fluía dos bonecos buliçosos era suficiente para entender que estava diante da alma gêmea, a que atravessaria a existência em sua companhia. De modo que quando, ao final do espetáculo, o homem emergiu suado por detrás da empanada, Patrícia não se espantou com seus cabelos grisalhos e nem com aquele corpo forte e calejado pela labuta e desatinos. Ao contrário, teve a certeza de que seus sonhos e premonições continuavam confiáveis.  Por muitos minutos ficaram inertes, pupilas cruzadas, palavra ou reação alguma a se interpor entre os dois. Sabiam um do outro e nada que dissessem ou fizessem seria mais forte que a comunicação única que ali se estabeleceu.

   Foi necessário que dona Santica saísse aos impropérios arrastando a filha de volta para casa. Mas foi o tempo de ajeitar na mala a barraca e os bonecos e lá foi o apaixonado bater à porta da casa dos Raimundo Nonato, à porta do castelo de seu amor platônico. Quando falou ao pai de Maria Patrícia do amor que explodira em ambos percebeu que teria pela frente uma disputa desigual. O velho Raimundo Nonato custou a acreditar no que ouvia. Imaginou ser mais uma lorota do filho mais velho, acossado pelo autismo que degenerava. Dando aos sobrolhos expressão de gravidade - por dentro irrompia em gargalhadas - por educação despachou a mulher para o quarto em busca da filha.

- Filhinha, o mestre do cassimiro coco afirma que se apaixonou por você e você por ele - disse o pai com dificuldades para segurar o riso que irrompia pelos poros da pele.


   Ávido por uma palavra da filha que tudo esclarecesse, e que reduzisse a cena às traquinagens do primogênito da cabeça perdida, o velho Raimundo Nonato percebeu a inesperada surpresa no ar. Sem esperar que o atencioso pai terminasse a frase e a menina Maria já estava com as pernas cruzadas nas cadeiras do titeriteiro, irradiando felicidade, cobrindo-o de beijos e carícias. Comportavam-se como conhecidos de décadas, assumindo na frente de todos uma intimidade só permitida aos oficialmente casados, aos abençoados pela santa madre igreja com papéis oficializados pelo cartório público. (Para completar a leitura do conto, clique aqui).




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Dramaturgo, o autor transferiu para seus contos literários toda a criatividade, intensidade e dramaticidade intrínsecas à arte teatral. 

São vinte contos retratando temáticas históricas e contemporâneas que, permeando nosso imaginário e dia a dia, impactam a alma humana em sua inesgotável aspiração por guarida, conforto e respostas. 

Os contos: 
1. Tiradentes, o mazombo 
2. Nossa Senhora e seu dia de cão 
3. Sobre o olhar angelical – o dia em que Fidel fuzilou Guevara 
4. O lugar de coração partido 
5. O santo sudário 
6. Quando o homem engole a lua 
7. Anos de intensa dor e martírio 
8. Toshiko Shinai, a bela samurai nos quilombos do cerrado brasileiro 
9. O desterro, a conquista 
10. Como se repudia o asco 
11. O ladrão de sonhos alheios 
12. A máquina de moer carne 
13. O santuário dos skinheads 
14. A sorte lançada 
15. O mensageiro do diabo 
16. Michelle ou a Bomba F 
17. A dor que nem os espíritos suportam 
18. O estupro 
19. A hora 
20. As camas de cimento nu 

OUTRAS OBRAS DO AUTOR QUE O LEITOR ENCONTRA NAS LIVRARIAS amazon.com.br: 

A – LIVROS INFANTO-JUVENIS: 
Livro 1. As 100 mais belas fábulas da humanidade 

I – Coleção Educação, Teatro & Folclore (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. O coronel e o juízo final 
Livro 2. A noite do terror 
Livro 3. Lobisomem – O homem-lobo roqueiro  
Livro 4. Cobra Honorato 
Livro 5. A Mula sem cabeça 
Livro 6. Iara, a mãe d’água 
Livro 7. Caipora 
Livro 8. O Negrinho Pastoreiro 
Livro 9. Romãozinho, o fogo fátuo 
Livro 10. Saci Pererê 

II – Coleção Infantil (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. Não é melhor saber dividir 
Livro 2. Eu compro, tu compras, ele compra 
Livro 3. A cigarra e as formiguinhas 
Livro 4. A lebre e a tartaruga 
Livro 5. O galo e a raposa 
Livro 6. Todas as cores são legais 
Livro 7. Verde que te quero verde 
Livro 8. Como é bom ser diferente 
Livro 9. O bruxo Esculfield do castelo de Chamberleim 
Livro 10. Quem vai querer a nova escola 

III – Coleção Educação, Teatro & Democracia (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. A bruxa chegou... pequem a bruxa 
Livro 2. Carrossel azul 
Livro 3. Quem tenta agradar todo mundo não agrada ninguém 
Livro 4. O dia em que o mundo apagou 

IV – Coleção Educação, Teatro & História (peças teatrais juvenis): 
Livro 1. Todo dia é dia de independência 
Livro 2. Todo dia é dia de consciência negra 
Livro 3. Todo dia é dia de meio ambiente 
Livro 4. Todo dia é dia de índio 

V – Coleção Teatro Greco-romano (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. O mito de Sísifo 
Livro 2. O mito de Midas 
Livro 3. A Caixa de Pandora 
Livro 4. O mito de Édipo. 

B - TEORIA TEATRAL, DRAMATURGIA E OUTROS
VI – ThM-Theater Movement: 
Livro 1. O teatro popular de bonecos Mané Beiçudo: 1.385 exercícios e laboratórios de teatro 
Livro 2. 555 exercícios, jogos e laboratórios para aprimorar a redação da peça teatral: a arte da dramaturgia 
Livro 3. Amor de elefante 
Livro 4. Gravata vermelha 
Livro 5. Santa Dica de Goiás 
Livro 6. Quando o homem engole a lua