terça-feira, 8 de março de 2016

"O Santo Sudário", o conto dramático

 

   Maria Helena foi chorar ao pé da encosta. Nada mais estava ao seu alcance. Agora só restava chorar, lamentar ter permitido a felicidade esvair dentre os dedos da mão.

   Guilherme e Maria Helena eram metalúrgicos em uma pequena indústria no interior de Goiás. Enveredaram-se na luta sindical auxiliando a organização dos trabalhadores, mas atuavam também nas obras de assistência social promovidas pelas Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica.

   Maria Helena, mulher negra, alta, forte, beleza marcante e Guilherme Arantes, branco, frágil, beleza dissimulada, conversa encantadora, conheceram-se e dois meses depois estavam casados. Perceberam-se no primeiro olhar e surpreenderam a todos com a festa de casamento, modesta, parcimoniosa, mas ao mesmo tempo farta no incontável número de amigos.

   No primeiro dissídio coletivo os calorosos discursos realizados na porta da indústria custaram os empregos de ambos. Sem ter o que fazer na cidade e desprovidos das condições de sobrevivência resolveram entrar de cabeça no movimento dos agricultores sem terra. E mudaram-se com as escovas de dentes para um gigantesco acampamento localizado às margens da rodovia federal e que reunia não menos que dez mil famílias. O primeiro censo precisou o número de sobreviventes da cidade proibida, miserável, mas impecavelmente organizada, surgida do nada, numa madrugada fria e desconsolada: 55.632 habitantes. Homossexualidade, bebedeira, reuniões após as vinte e duas, jovens com brincos ou piercing, entrevero, bate boca ou discussões entre acampados, questionar decisões da direção, não cumprir as tarefas determinadas, um conjunto de atitudes e procedimentos que implicava em severa punição passível de expulsão.   


   A experiência sindical e a liderança que brotava natural em ambos logo os remeteram à direção central do movimento. À Maria Helena coube a vice-presidência da Sessão de Mulheres Agricultoras do Brasil, a Semab. E Guilherme Freitas ficou responsável pela Coordenação Geral de Formação Política – Cofopo e pela Diretoria Financeira da Cootrab, o principal cargo executivo da cooperativa dos trabalhadores da reforma agrária.

   Na Semab Maria Helena cuidava das questões específicas das mulheres do campo, as questões de gênero. Em cada quadra residencial contavam com duas mulheres eleitas para representar as demais e reuniam-se todos os sábados, discutindo a discriminação, a dupla jornada de trabalho, a violência doméstica e a de estado, a educação dos filhos, a distribuição das cestas básicas entregues pelo governo e a realização do trabalho na Cooperativa, instituição criada e administrada pelo movimento para organizar os negócios e as finanças, sobretudo, a comercialização da produção.


   Na Cootrab Guilherme implementou uma gestão profissional, eficaz, que levou a cooperativa a sair do vermelho, passando a ostentar lucros sempre crescentes, alcançando inclusive o mercado externo com a exportação de produtos orgânicos. Foi de Guilherme a ideia de mobilizar os trabalhadores para qualificar a produção, plantação sem a utilização de agrotóxicos, sem agressão ao meio ambiente, predicados que escancarou as portas do mercado internacional. As exportações dirigidas ao mercado europeu revelaram-se fundamentais para a sustentabilidade econômica dos trabalhadores rurais, de sua luta e organizações. Não só conseguiram agregar valor à produção alcançando competitividade e preços, mas independência financeira para manter a política de ocupação de terras.

   De um lado, Guilherme encontrara o caminho livre para promover o vigoroso crescimento da Cooperativa. De outro, na Coordenação de Formação Política enfrentava problemas que se agravavam irremediavelmente.

   Também ali tudo corria bem até que Guilherme, loquaz, começou a questionar a estrutura extremamente centralizada e concentrada da direção. Isto, é o que dizia, levava à tomada de decisões autoritárias, sem o respaldo das bases e, sequer, o conhecimento dos trabalhadores. Defendia uma reestruturação geral que atribuísse às decisões da direção um caráter democrático, com a mobilização e incorporação dos trabalhadores ao processo de tomada de decisões.

   No início a direção do movimento não se importunou imaginando tratar-se de desvario fugaz, nuvem passageira. Passaram a escutá-lo de uma forma diferente, sem que dessem ouvidos, emprestando uma falsa atenção, uma consideração inexistente. Mas como insistisse nas críticas, acentuando-as, logo começou a sentir na pele as consequências da solitária rebeldia.

   Guilherme passou a ser furtivamente vigiado, ostensivamente perseguido. Antes submeteram-no a uma malograda quarentena quando sequer era cumprimentado. Não recebia mais aceno, chamamento, convite para nada, como se não existisse. Ao chegar às reuniões percebia que tudo já havia sido deliberado anteriormente, só restando o referendo formal. Em casa recebera o comunicado em que a Direção Nacional informava de sua destituição dos cargos de Coordenador Geral de Formação Política e de Diretor Financeiro da maior cooperativa de trabalhadores rurais da América Latina. Uma carta lacônica, sem nenhuma explicação ou justificativa.  

   Maria Helena também sofria as consequências daquela realidade surrealista. Era impiedosamente cobrada, pressionada para controlar os devaneios do marido, eliminando, ou, quando menos, restringindo aos limites toleráveis suas tendências reformadoras e revisionistas. Os diálogos eram graves e carregados de preocupações:

- Seu marido já foi longe demais, ultrapassou todas as barreiras.

- É um perigo, uma ameaça para o movimento.

   E ameaçavam sem subterfúgios:

- Ou você o controla sem mais tardar ou daremos uma solução final.

- Você sabe... O movimento não pode parar por conta de um traíra.

- Entre nós, o destino dos traidores é um só.

- Você se lembra do que ocorreu com Joaquim...

- ... e Pedro...

- ... e José Armando...

- ... e Maria José...


   Pressentindo o risco que pairava sobre a cabeça do casal, Maria Helena entabulou densas e incontáveis discussões com Guilherme. Enchia-se de argumentações sem resultados aparentes. O marido não arredava milímetro, não dava o braço a torcer, ao contrário, enumerava situações, acontecimentos, casos e mais casos que considerava fragrantes injustiças contra o conjunto dos trabalhadores rurais. Mais grave, denunciava os membros da direção, seus antigos camaradas, como autoritários e stalinistas, capazes de perpetrar os piores desatinos contra os indefesos membros do movimento. (Para ler o conto completo, clique aqui).


Para saber mais, clique na figura

Dramaturgo, o autor transferiu para seus contos literários toda a criatividade, intensidade e dramaticidade intrínsecas à arte teatral. 

São vinte contos retratando temáticas históricas e contemporâneas que, permeando nosso imaginário e dia a dia, impactam a alma humana em sua inesgotável aspiração por guarida, conforto e respostas. 

Os contos: 
1. Tiradentes, o mazombo 
2. Nossa Senhora e seu dia de cão 
3. Sobre o olhar angelical – o dia em que Fidel fuzilou Guevara 
4. O lugar de coração partido 
5. O santo sudário 
6. Quando o homem engole a lua 
7. Anos de intensa dor e martírio 
8. Toshiko Shinai, a bela samurai nos quilombos do cerrado brasileiro 
9. O desterro, a conquista 
10. Como se repudia o asco 
11. O ladrão de sonhos alheios 
12. A máquina de moer carne 
13. O santuário dos skinheads 
14. A sorte lançada 
15. O mensageiro do diabo 
16. Michelle ou a Bomba F 
17. A dor que nem os espíritos suportam 
18. O estupro 
19. A hora 
20. As camas de cimento nu 

OUTRAS OBRAS DO AUTOR QUE O LEITOR ENCONTRA NAS LIVRARIAS amazon.com.br: 

A – LIVROS INFANTO-JUVENIS: 
Livro 1. As 100 mais belas fábulas da humanidade 

I – Coleção Educação, Teatro & Folclore (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. O coronel e o juízo final 
Livro 2. A noite do terror 
Livro 3. Lobisomem – O homem-lobo roqueiro  
Livro 4. Cobra Honorato 
Livro 5. A Mula sem cabeça 
Livro 6. Iara, a mãe d’água 
Livro 7. Caipora 
Livro 8. O Negrinho Pastoreiro 
Livro 9. Romãozinho, o fogo fátuo 
Livro 10. Saci Pererê 

II – Coleção Infantil (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. Não é melhor saber dividir 
Livro 2. Eu compro, tu compras, ele compra 
Livro 3. A cigarra e as formiguinhas 
Livro 4. A lebre e a tartaruga 
Livro 5. O galo e a raposa 
Livro 6. Todas as cores são legais 
Livro 7. Verde que te quero verde 
Livro 8. Como é bom ser diferente 
Livro 9. O bruxo Esculfield do castelo de Chamberleim 
Livro 10. Quem vai querer a nova escola 

III – Coleção Educação, Teatro & Democracia (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. A bruxa chegou... pequem a bruxa 
Livro 2. Carrossel azul 
Livro 3. Quem tenta agradar todo mundo não agrada ninguém 
Livro 4. O dia em que o mundo apagou 

IV – Coleção Educação, Teatro & História (peças teatrais juvenis): 
Livro 1. Todo dia é dia de independência 
Livro 2. Todo dia é dia de consciência negra 
Livro 3. Todo dia é dia de meio ambiente 
Livro 4. Todo dia é dia de índio 

V – Coleção Teatro Greco-romano (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. O mito de Sísifo 
Livro 2. O mito de Midas 
Livro 3. A Caixa de Pandora 
Livro 4. O mito de Édipo. 

B - TEORIA TEATRAL, DRAMATURGIA E OUTROS
VI – ThM-Theater Movement: 
Livro 1. O teatro popular de bonecos Mané Beiçudo: 1.385 exercícios e laboratórios de teatro 
Livro 2. 555 exercícios, jogos e laboratórios para aprimorar a redação da peça teatral: a arte da dramaturgia 
Livro 3. Amor de elefante 
Livro 4. Gravata vermelha 
Livro 5. Santa Dica de Goiás 
Livro 6. Quando o homem engole a lua