quarta-feira, 2 de março de 2016

O conto dramático "O ladrão dos sonhos alheios"


    Era meia noite e Maria Eleutéria, no Box 7 da rodoviária, criava tumulto gritando, gesticulando em desespero de causa, chamando a atenção de todos que por ali passavam. No princípio parecia se conformar com as cenas de histeria, emprestando aos transeuntes o papel de espectadores de um espetáculo circense, de uma pantomina urbana. Mas logo passou a avançar sobre os passageiros puxando-os pelas roupas, fazendo com que interrompessem o percurso mecânico, desviassem das inamovíveis trajetórias. E seguia-os com apavorante proximidade. Numa escalada progressiva aumentou o tom da encenação e começou a se atracar com os transeuntes derrubando-os no chão, esbofeteando-os enfurecidamente. Clamava por ouvidos, olhares, sentimentos. Como um buraco negro, exigia toda atenção do que gravitasse à sua volta.

- Sequestraram o presidente, sequestraram nosso presidente - era a única coisa que se permitia dizer; repetia exaustivamente a frase, martelando as mesmas palavras no ouvido dos que, sem conseguir obliterar a curiosidade, aproximavam para saber a razão do alvoroço.


   Logo o serviço de segurança privada da rodoviária, prevendo maiores problemas, chamou pelo rádio a patrulha. Não demorou e vagarosamente o carro da polícia manobrou para encostar ao lado de Maria Eleutéria.

   O sargento da polícia militar, seguido do cabo que conduzia a viatura, permaneceu por alguns minutos acompanhando a cena protagonizada pela pobre mulher, estudando-a meticulosamente, procurando com sua atenta observação esquadrinhar seu perfil psicológico, descobrir seu grau de periculosidade, para então optar pela operação menos traumática, mais adequada face à natureza da ocorrência.

   Não foi necessário muito tempo de acurada observação para o experiente militar considerar que não se tratava de um caso de segurança e sim de saúde e assistência social. E imediatamente passou um comando para a central de rádio solicitando o envio, com a devida urgência, de uma ambulância aparelhada para responder à situação em tela.

   Se optasse por encarcerar a mulher iria conduzi-la para onde?, para que lugar? Para a delegacia que desde a inauguração comprimia um número de detentos quinze vezes superior à capacidade instalada?, não!, não!, evidentemente, não.



   Definitivamente, não. Percebeu que a mulher à sua frente era diferente. Não se confundia com uma mundana. Em nada se parecia com uma arruaceira, uma vadia, disso estava convencido. Um simples olhar era o suficiente para certificar que tinha nos gestos e na postura uma auréola educada, aristocrática.

   As roupas que trajava, as bijuterias e o relógio, os cabelos longos e bem cuidados, a textura da pele moldada a creme de leite, tudo dava à mulher uma identificação de quem esteve, desde a infância, em estado de graça com a face melhor da existência.

   No dia a dia o sargento lidava com o que de pior e o que de mais subalterno habitava o universo humano. A marginalidade, a criminalidade, toda a gama de delinquência, os larápios, embusteiros, corruptos e assassinos, de modo que, cedo, aprendera a distinguir as pessoas, separar o joio do trigo. E separava com uma tranquilidade de impressionar, a mesma com que discernia urdiduras, aromas e sabores de cada peça de carne que prazerosamente assava nos finais de semana. Como inseparável companhia o único e fiel amigo, o dálmata Trovão. – Não será assim... – pensou o sargento Alípio – umas doses de calmante e a mulher reencontrará o equilíbrio, retornando, Deus há de querer, ao seu lar, à proteção do marido, ao carinho dos filhos, netos, quem poderia saber?


   Na rodoviária o chefe da segurança exigia do sargento Alípio providências urgentes e mais severas: que a levasse para bem distante, que a prendesse sem mais demora, que cumprisse seu papel de autoridade policial, que colocasse fim à balbúrdia e à anarquia, que... Mas só o que conseguiu foi desencadear uma contenda, uma queda de braço, uma guerra travada nas entrelinhas dos duros e ásperos argumentos de que cada um se municiou para lancetar o outro. Alípio sentiu-se aliviado quando viu, ainda longe, o socorro aproximar.

   Quando a ambulância parou, estacionou ao lado do camburão da polícia. Desceu o enfermeiro chefe, um homem franzino, cabelo espichado, todo paramentado de branco. Caminhava ao encontro de Alípio sem tirar, por um só segundo, os olhos da mulher que continuava com seus desvarios, suas provocações, seus gritos ensandecidos. À medida que testemunhava o destempero da mulher, o enfermeiro chefe ia se convencendo do que não iria fazer. Bem rente a Alípio informou rispidamente que não a levaria nem à central de triagem e nem a lugar algum. Não se considerava apto para intervir em casos daquela natureza.  

   Em vinte e cinco anos de carreira na saúde pública o único treinamento que recebera foi o que o habilitou a lidar com enfermidades básicas, primeiros socorros, curativos superficiais, procedimentos rudimentares e triviais, nada que tangenciasse o estado descontrolavelmente nervoso em que mergulhara a desconhecida.

   Alípio insistiu, perseverou com o enfermeiro chefe e o segurança da rodoviária, travando com ambos um diálogo sem sentido e direção. Um embate de surdos vingou no pequeno diapasão até que o enfermeiro, lançando ao entulho a paciência, destinou-os em manifesto desassossego à puta que pariu levando embora a ambulância.

   O segurança voltou à carga insistindo na adoção de algum tipo de providência enquanto, à parte, Maria Eleutéria continuava seu exibicionismo demente.

   Neste instante a mulher atracava-se com um senhor de meia idade tentando a todo custo convencê-lo de que, finalmente, após inúmeras tentativas, haviam conseguido sequestrar o presidente.


   Percebendo que a situação escapava ao controle, o segurança ameaçou denunciar o sargento à corregedoria da polícia, e Alípio se viu então numa encruzilhada temerária. (Para ler o conto completo, clique aqui).


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Dramaturgo, o autor transferiu para seus contos literários toda a criatividade, intensidade e dramaticidade intrínsecas à arte teatral. 

São vinte contos retratando temáticas históricas e contemporâneas que, permeando nosso imaginário e dia a dia, impactam a alma humana em sua inesgotável aspiração por guarida, conforto e respostas. 

Os contos: 
1. Tiradentes, o mazombo 
2. Nossa Senhora e seu dia de cão 
3. Sobre o olhar angelical – o dia em que Fidel fuzilou Guevara 
4. O lugar de coração partido 
5. O santo sudário 
6. Quando o homem engole a lua 
7. Anos de intensa dor e martírio 
8. Toshiko Shinai, a bela samurai nos quilombos do cerrado brasileiro 
9. O desterro, a conquista 
10. Como se repudia o asco 
11. O ladrão de sonhos alheios 
12. A máquina de moer carne 
13. O santuário dos skinheads 
14. A sorte lançada 
15. O mensageiro do diabo 
16. Michelle ou a Bomba F 
17. A dor que nem os espíritos suportam 
18. O estupro 
19. A hora 
20. As camas de cimento nu 

OUTRAS OBRAS DO AUTOR QUE O LEITOR ENCONTRA NAS LIVRARIAS amazon.com.br: 

A – LIVROS INFANTO-JUVENIS: 
Livro 1. As 100 mais belas fábulas da humanidade 

I – Coleção Educação, Teatro & Folclore (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. O coronel e o juízo final 
Livro 2. A noite do terror 
Livro 3. Lobisomem – O homem-lobo roqueiro  
Livro 4. Cobra Honorato 
Livro 5. A Mula sem cabeça 
Livro 6. Iara, a mãe d’água 
Livro 7. Caipora 
Livro 8. O Negrinho Pastoreiro 
Livro 9. Romãozinho, o fogo fátuo 
Livro 10. Saci Pererê 

II – Coleção Infantil (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. Não é melhor saber dividir 
Livro 2. Eu compro, tu compras, ele compra 
Livro 3. A cigarra e as formiguinhas 
Livro 4. A lebre e a tartaruga 
Livro 5. O galo e a raposa 
Livro 6. Todas as cores são legais 
Livro 7. Verde que te quero verde 
Livro 8. Como é bom ser diferente 
Livro 9. O bruxo Esculfield do castelo de Chamberleim 
Livro 10. Quem vai querer a nova escola 

III – Coleção Educação, Teatro & Democracia (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. A bruxa chegou... pequem a bruxa 
Livro 2. Carrossel azul 
Livro 3. Quem tenta agradar todo mundo não agrada ninguém 
Livro 4. O dia em que o mundo apagou 

IV – Coleção Educação, Teatro & História (peças teatrais juvenis): 
Livro 1. Todo dia é dia de independência 
Livro 2. Todo dia é dia de consciência negra 
Livro 3. Todo dia é dia de meio ambiente 
Livro 4. Todo dia é dia de índio 

V – Coleção Teatro Greco-romano (peças teatrais infanto-juvenis): 
Livro 1. O mito de Sísifo 
Livro 2. O mito de Midas 
Livro 3. A Caixa de Pandora 
Livro 4. O mito de Édipo. 

B - TEORIA TEATRAL, DRAMATURGIA E OUTROS
VI – ThM-Theater Movement: 
Livro 1. O teatro popular de bonecos Mané Beiçudo: 1.385 exercícios e laboratórios de teatro 
Livro 2. 555 exercícios, jogos e laboratórios para aprimorar a redação da peça teatral: a arte da dramaturgia 
Livro 3. Amor de elefante 
Livro 4. Gravata vermelha 
Livro 5. Santa Dica de Goiás 
Livro 6. Quando o homem engole a lua