segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Fotografias leiloadas em Nova York revelam como era a Amazônia brasileira no século 19



Uma coletânea de fotos tiradas pelo alemão Albert Frisch e vendida num leilão da Sotheby's em Nova York pode ser o registro fotográfico mais antigo da Amazônia brasileira.

As imagens foram tiradas há mais de 150 anos durante uma expedição à floresta. As fotos de Frisch captam tanto a natureza quanto os habitantes da Amazônia, como os integrantes das tribos indígenas Ticuan, Miranha e Caixana.

A coleção compreende 98 fotos que foram publicadas pela primeira vez em 1869 pela editora de Georg Leuzinger.


Frisch iniciou a carreira de fotógrafo em 1863 e se mudou para o Rio de Janeiro no ano seguinte, onde começou a trabalhar para Leuzinger. Foi Leuzinger quem comissionou Frisch a tirar fotos na remota Amazônia.



Frisch iniciou a expedição em 1867, percorrendo quase 1,6 mil km a pé ou de barco por cinco meses. Ele produziu mais de 120 negativos usando o processo fotográfico de colódio úmido. Para isso, teve que fazer a viagem com um laboratório fotográfico portátil.

Várias fotos estão em camadas ou são composições de negativos. Frisch frequentemente fotografava as pessoas e as paisagens de fundo separadamente, criando um aspecto escultural para a imagem final.

A carreira de fotógrafo do alemão durou só alguns poucos anos, mas as imagens que ele produziu estão expostas ao redor do mundo.

Mais, aqui.

Da BBC

domingo, 6 de outubro de 2019

Bullying, as lágrimas de Deus


O bullying - anglicismo relacionado à intimidação e violência física ou psicológica – é como um ente absoluto, está presente em todas as áreas de convivência social, particularmente nas escolas.

É cada vez maior o número de pessoas vítimas dessa chaga social, uma tragédia que se alastra mundo afora, independentemente de nacionalidade, cultura, condição econômica e social...

No Brasil, uma lei de 2016 – lei federal nº 13.185, instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática, considerando bullying “todo ato de violência física ou psicológica, intencional e repetitivo que ocorre sem motivação evidente, praticado por indivíduo ou grupo, contra uma ou mais pessoas, com o objetivo de intimidá-la ou agredi-la, causando dor e angústia à vítima, em uma relação de desequilíbrio de poder entre as partes envolvidas”. 
Dentre outras inúmeras formas de agressão, a lei classifica, também, como bullying, ultrajes e ameaças, apelidos pejorativos, ataques físicos e psicológicos.

O fato de ocorrer como uma manifestação que muitos relevam como ‘brincadeira’, talvez explique a intensidade com que se propaga nas escolas do Brasil e do mundo.

Desavenças, refregas, brigas e discussões entre colegas sempre existiram e sempre existirão. 

O bullying é um evento que navega em outros mares, integra outra categoria, possui características específicas, todas elas de natureza grave, repulsiva e lancinante. E a diferença entre esses dois universos reside especialmente no fato do bullying se estruturar na recorrência, na prática reiterada, na repetição exaustiva, contínua, ininterrupta. 

A timidez ou o temperamento mais retraído; qualquer tipo de diferenciação como a cor do cabelo, o peso, a altura, a condição econômica ou social; e, sobretudo, relações de poder desniveladas integram as características que imantam os agressores. Estes, por sua vez, geralmente estão no topo da pirâmide da popularidade, são os mais influentes, os que de fato exercem o comando, líderes da turma, os que encontram na omissão e no silêncio dos colegas a covarde cumplicidade que acobertará os seus atos, os mantendo na condição de ‘inimputáveis’.

Esta atroz realidade tem varrido o planeta, assolado o mundo inteiro, servido como estopim para tormentos como as automutilações, fatalidades como os suicídios, e terríveis tragédias como a ocorrida na cidade de Suzano, quando dois ex-alunos atacaram a Escola Estadual Rui Brasil e mataram sete pessoas, cinco alunos e duas funcionárias do colégio.

É nesta realidade que a peça teatral “Bullying, as lágrimas de Deus” mergulha fundo, verticalizando uma discussão que deve perpassar toda a sociedade - e não apenas os diretamente envolvidos - alunos, pais e educadores.

Rodoux Faugh ensina que “a educação é a forma mais rápida e eficaz de conduzir a humanidade da barbárie à civilização”. É preciso refletir, então, sobre a qualidade da educação que estamos oferecendo às nossas crianças, à juventude; urge considerar se estamos presenteando-os com as ferramentas que possibilitarão construir o futuro ou se, ao contrário, estamos tratando de condená-los aos grilhões do passado.

É para esta reflexão que este livro conduz o leitor. Desafio mais que oportuno num mundo em que as mudanças ocorrem de forma tão célere; princípios, valores, e paradigmas se evaporam ao tique-taque do relógio; o supérfluo exala pose e ares de substância; e o ter – pobres de nós, mortais - adquire absoluta supremacia sobre o ser.  

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sábado, 5 de outubro de 2019

Objetos nazistas encontrados em casa de colecionador estarão em museu argentino do Holocausto



Uma ampulheta pertencente a um membro da SS, uma águia montada sobre uma base marcada por uma suástica e jogos de doutrinação de crianças são alguns dos objetos nazistas encontrados no esconderijo secreto de um colecionador que agora serão exibidos no Museu do Holocausto argentino.

'Estes elementos poderão nos mostrar parte dessa história terrível que foi o genocídio nazista', disse Marcelo Mindlin, presidente do museu localizado em Buenos Aires, à Reuters.

'A grande surpresa destes objetos foi que não podiam ter pertencido a ninguém que não fosse um hierarca nazista', acrescentou, referindo-se à originalidade das peças, que foram examinadas por peritos argentinos e alemães que garantiram que elas pertenceram ao regime nazista.

Em 2017, a casa de Carlos Olivares, um colecionador e vendedor de antiguidades reconhecido de um subúrbio afluente de Buenos Aires, foi alvo de uma busca por suposto tráfico de objetos ilegais provenientes da China

Mas os policiais ficaram surpresos ao encontrar um cômodo secreto com mais de 80 relíquias nazistas, disse Néstor Roncaglia, chefe da Polícia Federal Argentina, à Reuters.

Dois anos depois de a justiça argentina apreender os objetos, Olivares está sendo julgado por tê-los guardado com fins comerciais.

Na coleção também foram encontrados instrumentos de medição cranial; una foto original de uma aeronave feita pelo fotógrafo oficial de Hitler, Heinrich Hoffmann; um jogo de lupas com um negativo original de Adolf Hitler observando um mapa e uma tábua ouija para invocar os mortos.

Segundo Serafina Perri, curadora do museu, a tábua foi feita em Amsterdã e contava com inscrições de símbolos nazistas, uma indicação do esoterismo e do ocultismo presentes no nazismo.

'Isto significa o poder dos nazistas e o sentimento forte que tinham pelo nazismo para poder investir e gastar nestes objetos', explicou Eva Fon De Rosenthal, uma sobrevivente húngara de 94 anos do Holocausto, à Reuters.

'Havia milhares e milhares de nazistas aqui, que ajudaram muito a Alemanha', disse ela em referência ao colaboracionismo nazista existente na Argentina após a Segunda Guerra Mundial, uma afirmação com a qual o presidente do museu concordou.

'Estes elementos mostram novamente que a Argentina não somente recebeu sobreviventes do Holocausto, mas também, infelizmente, hierarcas nazistas', afirmou Mindlin.

Da  Reuters

domingo, 7 de julho de 2019

A inveja destrói pessoas, famílias, organizações



Em “Otelo – a inveja destrói pessoas, famílias e organizações”, Antônio Carlos examina a obra de Shakespeare à luz das consequências que a inveja ocasiona, tanto em nível de indivíduos como de seus familiares, mas, sobretudo no plano das organizações, impactos que, via de regra, podem levar ao debacle das instituições.

A inveja é um sentimento que, necessariamente, relaciona-se com o outro; ocorre quando uma comparação evidencia a ausência – no observador - de um bem material ou de uma qualidade existente na pessoa considerada. 

Pode se manifestar de diferentes formas, as consequências, porém, são as mais perversas, incontroláveis sensações de angústia e raiva, alimentando explosivas expectativas de obter as qualidades ou os bens cobiçados.

Este livro está dividido em cinco capítulos.

No primeiro, a peça teatral - “Otelo, o mouro de Veneza” - é analisada à luz dos estratagemas utilizados por Willian Shakespeare para discutir questões candentes que perpassam tanto o século XVII como o atual, o XXI: o desejo, o ciúme e a inveja; as discriminações em relação ao imigrante; a cultura e os preconceitos raciais; os processos que estruturam a comunicação; e as profundas mudanças que abalavam as estruturas da Europa medieval – e as que hoje estremecem a vida moderna. 

Na época em que Shakespeare viveu, o mundo experimentava violentas transformações, não com a velocidade das que hoje se verificam, naturalmente, mas tão importantes e profundas quanto.

No século XVII, imperava o modelo econômico baseado na agricultura e a organização – inclusive política e social – assentava-se sobre a nobreza.

O comércio, porém, foi se fortalecendo, de modo que a burguesia passou a se responsabilizar pelos gastos e investimentos do império, sem, contudo, dispor do reconhecimento e do prestígio social.

Neste período, os campos político e econômico passaram a ser dominados por diferentes atores. A nobreza já quase nada representava do ponto de vista econômico, mas preservava, com mãos de ferro, o poder político. O contrário ocorria em relação à burguesia, que – apesar de ter se elevado à condição de novo sustentáculo econômico do sistema - continuava desprovida de poder político. 

Esta é geralmente a grande equação capaz de levar às rupturas estruturais: poder econômico em uma extremidade e poder político na outra. Foi rigorosamente o que aconteceu na Europa, com uma tempestade de revoluções varrendo o continente. 
A Inglaterra, precisamente, experimentava transformações que, pouco mais adiante, levariam os ingleses a liderar a revolução industrial fazendo do Reino Unido uma das grandes potências mundiais.

O segundo capítulo do livro aborda especificamente a inveja, sentimento utilizado pelo bardo inglês para conceber Iago, o antagonista que personifica um dos maiores vilões da literatura universal. 

Em profundidade, Antônio Carlos aborda a cobiça, a ambição, os desejos desenfreados e os impactos desses sentimentos na produtividade das organizações – públicas e privadas -, destacando aspectos como a meritocracia, a fisiologia, o tráfico de influência, a sacralização das lideranças dissimuladas, e as disfunções do aparelho de estado. 

Nos terceiro e quarto capítulos, a obra de Shakespeare é utilizada como referência para o autor discutir três importantes questões que estão no centro das preocupações do homem contemporâneo: que relações guardam a meritocracia, o desenvolvimento e a organização do Estado na sustentabilidade das pessoas, das famílias e das organizações?

Finalmente, o quinto capítulo traz o texto original de Shakespeare para que o leitor sorva o que de mais genial e sublime pôde a pena do maior dramaturgo de todos os tempos produzir.

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sexta-feira, 5 de julho de 2019

Uma Auschwitz no coração do Brasil



É possível ao amor sobreviver em um ambiente onde prevaleça a desumanização mais absoluta e aviltante?

No Hospital Colônia de Barbacena, um hospício em Minas Gerais, foram praticados crimes tão terríveis que o psicanalista italiano Franco Basaglia chegou a classificar a instituição como um campo de concentração nazista. 

Em seu ápice o manicômio abrigou uma população superior a cinco mil internos e ali morreram, em completo abandono, 60 mil pessoas que o governo e a sociedade consideraram lixo humano. 

Em uma única madrugada, dezessete pacientes não resistiram ao frio cortante e faleceram. 

A infraestrutura era a pior possível, não havia sistema sanitário, não existia água encanada e o esgoto que corria a céu aberto, dentro do hospital, era a fonte onde muitos se banhavam e bebiam água. Uma só seringa servia para a aplicação de injeções em centenas de pacientes. 

Crianças, sobretudo os bebês, eram doadas ou comercializadas por funcionários corruptos. Numa desesperada tentativa de evitar que os seus bebês fossem levados, as mães se habituaram a cobrir a si mesmas com fezes, impedindo que os servidores se aproximassem.

Na filial latina de Auschwitz eram internados não apenas doentes mentais, mas, também, os considerados ‘desagradáveis’: oposicionistas, amantes de políticos, mães solteiras, alcoólatras, epiléticos, crianças indesejadas, jovens questionadores, vítimas de estupro, negros, prostitutas, homossexuais, mendigos, pessoas sem documentos, qualquer um que integrasse os grupos sociais categorizados como ‘desajustados’. 

O sistema se tornou tão deletério que até mesmo homens tímidos e mulheres independentes – aquelas com senso de liderança ou que adotavam uma postura de questionar instituições como a do casamento - eram compulsoriamente internados. 

Em torno de 70% dos internos não apresentavam diagnóstico de qualquer tipo de doença mental. 

Não há registro de cura, não há histórico de recuperação no manicômio. O objetivo da unidade deixou de ser o tratamento, a terapêutica, a medicina, para se fixar em aspectos como a contenção e o controle.

O Eletrochoque e a ducha escocesa passaram a ser a estratégia para a intimidação e a punição. Bastava que o funcionário não fosse com a cara do paciente para que a sessão de eletrochoques se iniciasse. 

No último ato da peça teatral uma personagem faz perguntas que ecoarão eternidade adentro:

“O mundo saberá o que se passa aqui, no hospital Colônia de Barbacena, uma nódoa que envergonhará a humanidade para todo o sempre. Os criminosos que ousaram construir na terra uma morada do demônio pagarão por seus crimes? Os familiares e a sociedade que se omitiram e acobertaram com o silêncio a desumanidade mais vil e absoluta pagarão pelos crimes? Ou só os mártires de sempre se perpetuarão na condição de vítimas de sempre? Enquanto o mundo imaginava ter se libertado do holocausto, um novo Auschwitz foi erguido bem no coração do Brasil, à vista de todos, à luz do meio dia; e ninguém pagará por isso? Ninguém? Desde que o universo é universo e o mundo é mundo, desde que o homem se libertou do macaco e trocou as árvores pela terra firme, jamais existiu noite tão cruel e infame, de todas elas, esta é a noite mais escura.” 

É neste contexto de terror e completa insanidade que o autor trafega para conduzir uma estória de amor. Dois jovens estudantes, irremediavelmente apaixonados - tentando encontrar o oxigênio que mantenha a esperança – movimentam-se dentre conflitos políticos, crimes de lesa humanidade, assassinatos e filicídios.

A obra literária repercute uma questão que intriga os casais apaixonados desde tempos imemoriais: até que ponto pode o amor sobreviver em um ambiente onde prevaleça a desumanização mais absoluta e aviltante?

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quinta-feira, 4 de julho de 2019

Pitágoras



Pitágoras nasceu na Grécia e viveu entre os séculos VI e V a.C.

Ávido por conhecimento, passou mais de vinte anos no Egito, onde - junto a mestres, magos e sacerdotes - desenvolveu habilidades que o levariam a figurar como um dos maiores ícones da humanidade. 

Quando os exércitos persas invadiram o Egito, foi feito prisioneiro e enviado, pelo rei Cambises, para a Babilônia. Na Mesopotâmia aprofundou os estudos que resultaram nas maravilhosas descobertas relacionadas à matemática, à astronomia, à metafísica e à filosofia. 

Na política, experimentou uma importante transição histórica. A aristocracia galvanizava o apoio de intelectuais, artistas e dos extratos mais esclarecidos da população, pois que a monarquia invariavelmente desaguava na tirania, e a democracia, na dissimulada demagogia. Também a aristocracia, quando em desequilíbrio, resultava na oligarquia, o que não impediu que ilustres personalidades, como Pitágoras, defendessem este sistema político.

Criou na ilha de Samos, onde nasceu, a Semicírculo, centro de ensino dedicado à difusão de sua doutrina. Os filiados deveriam abrir mão do patrimônio pessoal aderindo a rígidos princípios como a lei do silêncio e a do absoluto segredo. A primeira obrigava o iniciado a permanecer calado, impedido de falar por até 9 anos, apenas escutando para melhor assimilar os ensinamentos dos mestres; já a segunda lei proibia a divulgação das descobertas científicas para os não filiados, para o público externo.

Problemas políticos o obrigaram ao exílio em Crotona. Nesta cidade - hoje território italiano - fundou a Escola de Filosofia. O vegetarianismo; as pesquisas com a magia, o espiritismo e a metafísica; a obstinação pela simplicidade e o exercício da reflexão crítica; a numerologia e a matemática; a astronomia, a música e a filosofia compunham os campos de interesse dos pitagóricos. 

O Teorema de Pitágoras, as descobertas dos números perfeitos e dos figurados, da proporção áurea, dos intervalos musicais e suas proporções aritméticas são exemplos que mostram criatividade e genialidade.

A formulação teórica e a prática de exercícios para a expansão da memória constituíam atividades prioritárias. E o objetivo não era, simplesmente, melhor lidar com a concentração e a conscientização sobre a vida presente, mas, sobretudo, recuperar as lembranças das vidas passadas. 

Meditação profunda, o exame da consciência, o raciocínio lógico e a reflexão crítica eram os substratos para conquistar a libertação da matéria e a sublimação do espírito. Na doutrina enfatizavam o ciclo da transmigração da alma e uma visão do universo como expressão da numerologia e do dualismo espírito-matéria. 

Foi mergulhando neste contexto histórico que o autor desenvolveu as tramas e conflitos que sustentam ‘Pitágoras - tortura, magia e matemática na escola de filosofia que mudou o mundo’, uma peça teatral original que conduz o leitor aos mistérios do mundo antigo. Grécia, Egito e a Babilônia são os cenários das disputas políticas entre os defensores da harmonia consagrada nos números racionais e os descobridores da inovação que provocaria o desequilíbrio cósmico, os números irracionais; conflito responsável por levar Pitágoras a uma frustrada tentativa de suicídio.

O assassinato de Hípaso de Metaponto; a numerologia e suas relações com a harmonia cósmica; as vinculações da matemática com a magia e a espiritualidade; a discalculia e as defasadas didáticas que dificultam o ensino da matemática são abordados num cenário de debates, contendas, crimes e traições. 

O enredo disseca, ainda, o grave infortúnio político contemporâneo que vem da época de Pitágoras: a demagogia enquanto doença crônica da democracia. 

Um texto de fôlego. Investigação histórica, criatividade literária e provocações – ora sutis, ora ostensivas, mas sempre engenhosas - um presente, sem dúvidas, para o leitor que persegue a diversão inteligente.

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A regra de ouro de Pitágoras


quarta-feira, 3 de julho de 2019

Sobre homens e lobos



À beira do precipício, Alfredo investe em uma pequena granja como última esperança para recuperar a dignidade perdida. Seus sonhos e planos são destruídos por um inesperado acontecimento. É esta a embarcação que o autor utiliza para entregar suas mensagens, reflexões sobre o homem contemporâneo e suas circunstâncias.

“(...) ao concluir uma obra, não gosto mais de me manifestar sobre ela, considero ser esta uma prerrogativa do leitor; mas, desafiado, diria que ‘Sobre homens e lobos’ encerra, a um só tempo, um alerta e uma provocação. Alerta quanto aos tempos de intensas transformações que fazem com que desdenhemos valores vitais para a humanidade. Quanto à provocação, salta do conto como uma fábula às avessas, ‘o homem é o mais insano e cruel dos lobos’ (...)”, discorreu o autor em uma recente entrevista. 

Quando nos deparamos com uma narrativa curta, focada em um só conflito, com unidade de ação, tempo e com número diminuto de personagens, eis-nos diante de um conto, gênero literário que sempre atraiu Antônio Carlos dos Santos.

O interesse, nas palavras do escritor, “se vincula às origens primitivas do gênero narrativo, a milenar tradição de transmitir a história de forma oral, uma vez que o registro escrito ainda estava para ser criado. Foram os temas épicos e folclóricos que impulsionaram o gênero até chegar ao estilo despretensioso e despojado dos dias atuais, a brevidade, a concisão e a escrita em prosa”.

Os contos apresentam uma linguagem tão singular que Eça de Queirós, um ícone da literatura portuguesa chegou a teorizar sobre ele:
- No conto tudo precisa ser apontado num risco leve e sóbrio: das figuras deve-se ver apenas a linha flagrante e definidora que revela e fixa uma personalidade; dos sentimentos apenas o que caiba num olhar, ou numa dessas palavras que escapa dos lábios e traz todo o ser; da paisagem somente os longes, numa cor unida.

Antônio Carlos aderiu de forma entusiástica ao gênero quando publicou, no livro “Tiradentes, o mazombo”, vinte contos dramáticos de alta densidade e vigor literário. 

Agora nos brinda com “Sobre homens e lobos”, um conto inédito, alegoria que enfoca o dilema de um pequeno produtor rural consumido em dúvidas quanto a punir ou não um lobo que lhe rouba o meio de subsistência.

Em uma estória aparentemente despretensiosa o autor mergulha fundo em questões candentes que angustiam o homem contemporâneo: o eterno dilema entre a justiça e a injustiça, a culpabilidade e a inocência; a erudição enquanto instrumento de falácia e mola propulsora da impunidade; o discurso politicamente correto e a derrocada do bem em face das maquinações dos lobos do homem.

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terça-feira, 2 de julho de 2019

Shakespeare e a procrastinação



O que Hamlet, uma das obras primas de Willian Shakespeare, teria a ver com a procrastinação, uma chaga que assola a humanidade desde as eras mais remotas?

Hamlet é a tragédia de um homem tomado pela procrastinação. Posterga a tal ponto a tomada de decisão que, finalmente, quando se determina pela ação, obtém como resultado o desastre: um suicídio e 7 assassinatos. 

Este livro apresenta concepções teóricas sobre a procrastinação. Disponibiliza conceitos, estratégias e metodologias que, à luz do planejamento, se constituem num roteiro, um guia para a travessia de mares tão revoltos. Apresenta valores, princípios e desenhos que auxiliam no processo de superação deste grave problema que aflige o homem desde os seus primórdios.

O que poucos sabem é que o assunto procrastinação constitui-se de um mix onde atuam questões relacionadas tanto à fisiologia quanto à psicologia. A falta de ação e o agir com atraso guardam intrínsecas relações com o que se estabelece no âmago do cérebro, as conexões entre os neurônios, os encadeamentos físicos, químicos e elétricos processados na amígdala cerebelosa, no sistema límbico. 

São essas questões que o livro procura açular, incentivar, discutir.

Mas não o faz sob o ponto de vista meramente acadêmico, do debate convencional e padronizado. Ao contrário, utilizando a obra literária do maior dramaturgo de todos os tempos, vai navegando sobre os referenciais essenciais à temática:

- a produtividade e suas conexões com a trilogia da sustentabilidade – a eficiência, a eficácia e a efetividade;
- a importância do planejamento no equacionamento da antagônica relação ‘atrasos’ X ‘entregas bem-sucedidas’; 
- a relevância de componentes como concentração, foco e desenvolvimento da plena atenção como combustíveis da produtividade;
- a interdependência ‘estresse – procrastinação’ e os recursos da descentralização e da desaceleração como alavancas para as transformações e melhorias da qualidade de vida; 

Sem deixar de considerar, naturalmente, os aspectos fisiológicos e psicológicos que guardam fina relação com os atrasos, a protelação, os adiamentos.

E que, desde já, fique claro. Se o leitor busca pela magia capaz de, num estalar de dedos, resolver seus dilemas com a improdutividade e a procrastinação, está no lugar errado, o livro que procura não é este. Aqui não encontra guarida o ilusionismo e a feitiçaria, o encantamento e a prestidigitação; tão pouco as soluções sebastianistas de imersão total e demais penduricalhos impostos pela indústria das consultorias. 

Obter sucesso na batalha contra a procrastinação é o mesmo que tornar-se mais produtivo e mais feliz. 

Um esforço que exige disciplina, metodologia apropriada, mudança de paradigmas, a incorporação de um modelo de vida que compatibilize pensamentos positivos, atitudes proativas e ações planejadas.

Nestas circunstâncias, é fundamental a adoção de estratégias apropriadas, objetivos corajosos, metas realizáveis, indicadores válidos, de um conjunto de procedimento que culmine em novos hábitos, novas práticas, novas formas de relacionamento com o outro e com o ambiente, novo modo de encarar a vida. 

E para a construção deste novo cenário – em que a procrastinação não prospere – é fundamental que haja pleno comprometimento.

Não é fácil parar de delongar. Mas é possível. O fato de outros terem conseguido demonstra que é possível se condicionar para enfrentar a questão de modo satisfatório, tomar a decisão no momento adequado, agir, agregar produtividade e qualidade ao exercício diário. 

O príncipe Hamlet, da Dinamarca, é o exemplo cabal de que o ato de protelar não implica em prejuízos apenas para o procrastinador, mas para todos os que gravitam a sua volta, para a cadeia de atividades relacionadas, para as entregas intra e extra organizacionais; implica em perdas e danos para a própria existência. 

O desafio está lançado. A palavra – e a ação – estão, agora, com o leitor amigo.

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segunda-feira, 1 de julho de 2019

A cultura indígena está morrendo?



Anhangá, na cultura indígena é a divindade protetora da floresta e dos animais, o ente espiritual defensor do meio ambiente, o guardião do planeta. 

Deus da caça no campo, Anhangá persegue e castiga os índios que cometem excessos, os que acossam e matam animais por puro divertimento. A caça é admitida desde que realizada em função da sobrevivência e da segurança alimentar. Qualquer outra possibilidade é tratada como crime ambiental e recebe do espírito protetor da natureza punição exemplar. 
Os que se dedicam à caça de filhotes ou de animais prenhes ou que estejam amamentando recebem as punições mais rigorosas.

Anhangá pode assumir a forma do boi ou a do peixe, o aspecto do macaco ou o do pássaro, a aparência da onça pintada ou a do jacaré, não existe limitação para as mutações, a necessidade é quem dá o norte.

Quando na forma de veado, sua conformação mais popular – a de um cervo branco com olhos de fogo e uma cruz na testa – atende pelo nome de Suaçu-anhangá; quando o espírito se materializa como tatu, passa a ser denominado Tatu-anhangá. Adora se transformar em touro para gozar da força desproporcional deste animal, ocasiões em que é conhecido como Tapira-anhangá; na forma do maior peixe da Amazônia é chamado de Pirarucu-anhangá. Já quando adota a aparência humana, Anhangá passa a ser conhecido como Mira-anhangá. 

É este rico substrato que dá sustentação às narrativas e aos conflitos que movimentam a peça teatral “Anhangá, o espírito protetor da natureza – a lenda indígena”.

Cabe ao espírito de luz liderar uma luta titânica em defesa do planeta, ameaçado por políticos corruptos, empresários vigaristas e uma malta de estrangeiros inescrupulosos que, sob o pretexto de promover a prosperidade, enganam, iludem, fraudam, roubam os recursos naturais e pulverizam os sonhos e as esperanças da população em busca de justiça e desenvolvimento sustentável.

A fauna, a flora e a relação do homem com a natureza; a caça de extermínio; o tráfico de animais e a biopirataria; a exploração predatória dos recursos minerais e naturais; os mecanismos de dominação econômica; a corrupção na administração pública e no mundo empresarial; a desumanização; o ataque aos valores tradicionais e a hegemonia cultural, temas candentes que atormentam o homem moderno e que são discutidos na peça com a profundidade, o humor e a leveza propiciados pela comédia, pela sátira e pelo drama, gêneros desenvolvidos pelo teatro clássico grego e que o autor utiliza com maestria e criatividade.


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domingo, 30 de junho de 2019

Clássico do cinema de guerra, "O Resgate do Soldado Ryan" completa 21 anos


Em meio ao horror, na linha de frente da batalha, sem piedade nem anestesia. Assim o diretor Steven Spielberg situou o espectador em "O Resgate do Soldado Ryan", um clássico que levou ao cinema a morte, o caos e o desespero das guerras.
O filme, que estreou em 21 de julho de 1998, tem quase três horas, mas, apesar de estar repleto de momentos brilhantes, concentra sua maestria nos 20 primeiros minutos, nos quais Spielberg recriou de forma muito crua os desembarques da Normandia na Segunda Guerra Mundial.
"A praia de Omaha (um dos setores da operação militar) foi uma carnificina. Com isso em mente, não queria trazer minha voz americana para idealizar o que realmente aconteceu: tentei ser o mais brutalmente honesto que pude", afirma o cineasta no "making of" do filme.
Como se fosse um dos soldados das tropas aliadas, a câmera de Spielberg se colocou, desde o primeiro momento, nas lanchas nas quais os militares esperavam, espremidos e aterrorizados para encarar uma morte mais que provável diante das metralhadoras nazistas.
Vômitos, tremores de mãos, orações desesperadas: nos desembarques de "O Resgate do Soldado Ryan" não havia lugar para mensagens heroicas ou patrióticas, mas sim para o terror mais humano.
De fato, a obsessão de Spielberg, que cinco anos antes tinha dirigido o filme sobre o Holocausto "A Lista de Schindler" (1993), era ser o mais realista possível, como se rodasse um documentário bélico.
"As cenas de combate eram como imagens de um noticiário. Sentíamos que éramos como repórteres de guerra", indicou o cineasta sobre a estética de documentário que, com a câmera na mão e sem trilha sonora, usou nas cenas iniciais do filme.
Ainda alguns anos antes de os efeitos digitais mudarem totalmente as filmagens das superproduções, "O Resgate do Soldado Ryan" usou 1.500 figurantes, muitos deles reservistas irlandeses, para reimaginar durante 15 dias em uma praia do sul da Irlanda os desembarques da Normandia.
"A preparação e planejamento foram imensos e, do orçamento total de US$ 65 milhões, estima-se que US$ 12 milhões foram gastos filmando (os desembarques)", disse em 2006 ao jornal irlandês "Irish Independent" o produtor Mark Huffam.
No entanto, Spielberg tinha claro que não queria tomadas aéreas ou sequências espetaculares, já que o principal destes primeiros 20 minutos de "O Resgate do Soldado Ryan" tinham que ser os detalhes, os pequenos episódios dramáticos e perigosos em cada canto da cena.
O mar avermelhado pelo sangue, o soldado amputado que procura seu braço mutilado entre os disparos, militares afogados pelo peso dos seus equipamentos, os capelães e enfermeiros fazendo o impossível, e um jovem em lágrimas e completamente paralisado foram apenas pequenos detalhes, que só apareceram por alguns segundos, mas que serviam para refletir o horrendo desastre das batalhas.
Com esta visão muito humana e nada estilizada da guerra, "O Resgate do Soldado Ryan" arrecadou US$ 482 milhões, o que o transformou no segundo maior sucesso de bilheteira de 1998, atrás apenas de "Armagedon".
Com Tom Hanks como protagonista, o filme também contou com um Matt Damon em ascensão, depois de ter brilhado em "Gênio Indomável" (1997), e um desconhecido Vin Diesel, que ainda estava longe das corridas e da adrenalina da saga "Velozes e Furiosos".
Selecionado em 2014 para integrar a coleção da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, "O Resgate do Soldado Ryan" deslumbrou a crítica e levou cinco estatuetas do Oscar, mas não ganhou na categoria de melhor filme, que foi para "Shakespeare Apaixonado" (1998).
De qualquer forma, permanece como um retrato muito comovente e audaz da guerra e também, nas palavras do diretor, como um símbolo de esperança na escuridão.
"Realmente não há nenhuma lição, já que todos sabemos que a guerra é um inferno. Seja um filme realista da Segunda Guerra Mundial ou um filme ruim não muito realista, a mensagem é a mesma em cada uma das histórias: a guerra é um inferno", disse Spielberg.
"Portanto, a outra história que me atraiu neste filme é como encontrar a decência dentro do inferno", destacou o cineasta.
Por David Villafranca, na EFE.

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