terça-feira, 7 de março de 2017

O Brasil que exporta corrupção


Casos descobertos no exterior revelam o lado obscuro do segmento corporativo brasileiro.
Um produto tipicamente brasileiro está fazendo “sucesso” no exterior: a corrupção. E, faça-se justiça, nesse caso, os principais atores não são os políticos do País. São empresários e executivos de grandes companhias nacionais que, além de cometerem crimes corporativos em nações estrangeiras, demonstram formas diferenciadas de resolver esses casos dentro e fora do Brasil. Ao mesmo tempo em que parte dessas companhias fecha acordos rapidamente com poderes judiciais e governos fora do Brasil, protelam ao máximo assumir a culpa dos erros por aqui.
A Petrobras foi uma das principais atingidas neste processo. Suas parceiras de negócios como a Odebrecht encabeçam as listas com os casos mais recentes de suspeitas de práticas ilegais. Engordam a lista empresas como OAS, Embraer e Braskem, esta última com forte atuação no Rio Grande do Sul. Em nota, a Braskem informa que assinou acordo global de leniência com as autoridades, pelo qual pagará R$ 3,1 bilhões em multa e indenização, e reconhece sua responsabilidade pelos atos dos seus ex-integrantes. Já a Embraer, que por sinal foi destaque em controles de ações antiéticas, sucumbiu aos ganhos rápidos de mercado obtidos com a prática de suborno.
Já classificada pela Transparência Internacional como empresa com melhor sistema de controles contra irregularidades (chamado de compliance, na linguagem corporativa), a Embraer se expôs no cenário internacional comprando vantagens em países como a República Dominicana e manchando a imagem de um dos maiores cases nacionais de sucesso mundial em produtos de alta tecnologia.
“0 Brasil tem sua imagem vinculada às ações das muitas empreiteiras envolvidas em crimes como esse, com atuação na América Latina e na África, principalmente", pondera o presidente no Brasil da Transparência Internacional, Bruno Brandão, ao destacar que são muitos casos descobertos, mas também muitas denúncias surgindo graças à açâo da Lava Jato.
Nesse processo, diz Brandão, o País manda mensagens contraditórias para o exterior. “Ao mesmo tempo em que os escândalos são revelados, o Brasil está enfrentando o problema de maneira adequada. Também estamos exportando um modelo de combate à corrupção", alega. A força-tarefa da Lava Jato é uma referência que tem sido buscada como experiência para outros países, o que reforça a imagem ambígua do problema e da solução. “Cabe agora à sociedade brasileira escolher o caminho que vai seguir nesta encruzilhada", reflete Brandão.
Os prejuízos nacionais, porém, vão além dos danos à imagem corporativa. 0 crescente volume de empresas brasileiras prejudicadas já levou a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), em parceria com a Controladoria-Geral da União (CGU), a lançar um documento com orientações anti-corrupção para auxiliar as companhias nacionais no relacionamento com agentes públicos de outros países: a cartilha Empresas Brasileiras no Exterior - Relacionamento com a Administração Pública Estrangeira. Além de ressaltar as responsabilizações previstas no Código Penal brasileiro para esses casos, o texto alerta para os custos e os riscos de se alimentar corporativamente esse crime.
Entre os danos, estão a possível perda de mercado a partir de casos descobertos, quebra de contratos e prejuízos aos ativos no caso pagamento de multas, por exemplo. Mas um quesito, em especial, faz um interessante alerta a um item ainda pouco refletido no mundo corporativo. A cartilha toca no risco humano dessas operações, ao ressaltar que “a empresa também deve pensar que o seu funcionário, em algum momento, pode estar do outro lado da situação, ou seja, recebendo presentes, convites e pagamentos de parceiros".
Ao transformar o suborno em uma ferramenta de trabalho, os executivos acabam criando um problema para as empresas e até mesmo elevando os custos de suas operações. Para que uma companhia atue em muitos dos mercados desenvolvidos, como nos Estados Unidos, há exigência de gestão de riscos e sustentabilidade que inclua compliance. Isso exige mais recursos para assegurar idoneidade das operações e implica mais dificuldades para acessar crédito. Sem falar no valor da marca e como ela é atingida por casos de crimes.
“As exigências internacionais são altíssimas no sentido de transparência e compliance, e as empresas brasileiras estão atrasadas neste sentido", alerta Wagner Menezes, professor de Direito Internacional da Universidade de São Paulo e presidente da Academia Brasileira de Direito internacional.
Vantagens indevidas são alimentadas com recursos de bancos públicos
Um entre os maiores bancos de desenvolvimento do mundo e o principal instrumento do governo federal para o financiamento de longo prazo e investimentos, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Bndes) vem recebendo respingos das muitas críticas às práticas ilícitas no meio empresarial. Além dos incentivos para investimentos externos por parte de companhias hoje assumidamente corruptas, o Bndes também apoiou investidas internacionais de muitas delas e, de acordo com especialistas como Bruno Brandão, presidente da Transparência Internacional no Brasil, sem adotar os devidos cuidados com o destino dos Recursos Públicos. “É com ajuda e financiamento do Bndes, muitas vezes motivados por força política, que diversas empresas têm cometido crimes para fechar contatos", critica Brandão.
Ao analisar a situação do Bndes e a corrupção, o presidente da Federação das Entidades dos Servidores dos Tribunais de Contas do Brasil (Fenastec), Àmauri Perusso, avalia que a instituição deve informar de forma clara à sociedade todos os contratos firmados, com valores concedidos, a quem, para qual projeto, contrapartida e andamento e fiscalização, por exemplo.
‘Ainda têm as decisões de política macroeconômicas: vamos financiar players globais? O que é exatamente a prioridade social do banco? A corrupção pode estar -e na maioria das vezes está - nas decisões políticas", alerta Perusso. Para ele, a maior preocupação é quanto aos contratos em andamento. "Quanto ao passado, deve-se identificar o quanto e quem deve repor as perdas advindas de condutas não aceitáveis ou criminosas."
Em resposta às críticas, o Bndes afirma que, no caso de empresas envolvidas em denúncias ou que admitiram publicamente ter praticado atos ilícitos, esse é um aspecto levado em conta, mas que pode não se configurar em impedimento à concessão de empréstimos. No caso dos envolvidos na Operação Lava Jato, por exemplo, o Bndes consultou a AdvocaciaGeral da União (AGU) e obteve o parecer de que “a existência de investigação policial, procedimento administrativo ou processo judicial em desfavor de determinada pessoa jurídica (ou respectivos dirigentes) não é fato que por si só seja capaz de impedir a empresa de contratar com a administração pública”. O banco, porém, afirma que vem reavaliando, caso a caso, o risco de crédito dos financiamentos a projetos de empresas envolvidas na Lava Jato.
Entre os resultados do trabalho de refinamento de critérios e acompanhamento dos empréstimos feitos, o Bndes explica que, a partir de consultas à Advocacia-Geral da União e de interação com o Tribunal de Contas da União (TCU), os desembolsos de 25 contratos foram suspensos temporariamente em maio de 2016. Desse total, dois já tiveram encaminhamento: um relativo ao contrato de US$ 145 milhões para financiamento às exportações de bens e serviços de engenharia destinados à construção, pela Construtora Queiroz Galvão, de um corredor logístico em Honduras, no qual foram retomados em 28 de dezembro de 2016.
O outro se refere ao contrato de US$ 165 milhões para a construção, pela Construtora OAS, do Aqueduto do Chaco, na Argentina, cujo prazo para utilização venceu em junho de 2016. Em dezembro, o governo da Província do Chaco desistiu do pedido de prorrogação do prazo. Em razão das práticas ilegais já assumidas pela empresa, que está em recuperação judicial, a OAS concordou ficar diariamente sob vigilância financeira pelos próximos 25 anos. O controle será realizado por uma empresa que fará alertas à Justiça em caso de novas suspeitas.
ACORDOS INTERNACIONAIS
Odebrecht
Países onde a prática de corrupção teria ocorrido, com pagamento de propina: Angola, Moçambique, Equador, Peru, Panamá, México, República Dominicana, Argentina, Colômbia, Guatemala e Venezuela. O acordo feito: pagará uma multa no valor de R$ 3,828 bilhões às autoridades de Brasil, Estados Unidos e Suíça. O valor será quitado ao longo de 23 anos, e a soma das parcelas será reajustada de acordo com a taxa Selic. Como parte do acordo, a holding do grupo concordou em revelar fatos ilícitos apurados em investigação interna, praticados no Brasil e no exterior em diversas esferas do poder.
Embraer
Países onde teria praticado a corrupção: entre os anos de 2007 e 2011, na Arábia Saudita, na Índia, em Moçambique e na República Dominicana. As transações totalizaram a comercialização de 16 aeronaves. O acordo feito: para o encerramento do caso, que vinha sendo investigado pelas autoridades norte-americanas (Departamento de Justiça dos Estados Unidos – DOJ – e Securities and Exchange Comission – SEC) e também brasileiras (Ministério Público Federal – MPF – e Comissão de Valores Mobiliários – CVM), concordou em contratar monitoramento externo e independente, por até três anos, para acompanhar o cumprimento dos termos. Além disso, a companhia efetuará o pagamento de cerca de US$ 206 milhões às autoridades norte-americanas e brasileiras.

Por Thiago Copetti, no Jornal do Comércio do RS

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